Autobiografia estripada, pano rápido. Por Rui Daher

Faço me destripar, então, como vítima de Jack. Não o Daniel, que admiro muito e sorvo com felicidade.

Autobiografia estripada, pano rápido. Por Rui Daher

Assim como em meu blog, incrustrado neste honesto e justiceiro “Jornal de Todos os Brasis”, de Luís Nassif e sua editora Lourdes, tomei do cineasta italiano, Sergio Leone, em “Era uma vez no Oeste” (1968), o assassino serial Harmônica, verdadeiro ou ficcional. Creio, ambos.

Conta-se que antes dele existiu, em Londres, “Jack, o Estripador”. Sugiro pesquisa. É interessante. Jack, o Estripador – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Pois assim são esquartejados os momentos e períodos de nossas vidas. Felizes, calmos e pacíficos, menos, vez ou outra, mais infelizes, inquietos e turbilhões aflitivas, maior parte do tempo, dependendo das posições humanistas que você toma.

Revendo os 75 anos, desde o nascimento, quando sem querer adquirimos incerto caminhar para obscuro futuro, no meu caso, magnifico inúmeros fracassos. Como se técnico de futebol fosse e, após vencer duas taças, estivesse desempregado.

No período, longo para meu gosto, fui me encolhendo em estatura, alcance e firmeza de meus membros, especialmente os inferiores, comprometidos, depois de 45 anos de diabetes, somente há poucos anos controlada. Fui gauche até no que não deveria ter sido. Continuo. Até os limites que passam de meu controle.

Na prática, atualmente, apenas um incapacitado, amigos e amigas que me acompanham. Penosamente, me locomovo, por doença, que não mata, mas também não cura, a neuropatologia diabética periférica.

Sim, fui da pá variada, antes até, mas sempre, desde 1975, quando adquiri e desafiei a doença.

Na época, sentia-me Fidel e Che Guevara, frente aos EUA e à Casa Branca, esperando todos nós, latinos e caribenhos, pintando anseios, em vermelho ou, pelo menos, em rosa escuro.

É como tem sido e continuará, né?

Pá virada é como seguirei, ao contrário do que me aconselham familiares e amigos próximos. Covardia e preservação própria, pouco importam, a não ser que me trouxessem a certeza de viver até ver um Brasil melhor. Como cantará Martinho da Vila, no final deste texto.

Nunca abandonarei minhas convicções, por covardia, frente a quem luta para manter privilégios (os tenho aos montes) e desafia a diminuição da desigualdade social e os preceitos democráticos, hoje em dia, tão ameaçados por títeres por quem, má leitura ou mórbida convicção, foi designado a presidir o Brasil.

Faço me destripar, então, como vítima de Jack. Não o Daniel, que admiro muito e sorvo com felicidade.

Minhas tripas formam um riacho, talvez menos, arroio, córrego, de líquidos e dejetos fétidos, que não puderam se manter saudáveis depois de 2016, depois que uma guerrilheira, quando o Brasil precisou de suas vida e coragem, honesta quando eleita presidente, infelizmente, não pode se sobrepor ao Acordo Secular de Elites.

Mas quem o conseguiu, em séculos? Destino, vaticínio, complexo vira-lata, acomodamento cristão, colonial, indígena, cagaço, cangaço reverso, sei lá.

Morro. Ou inté.

 

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