Crônica para alucinados, por Rui Daher

O que mais assusta, no entanto, é a sequência de alucinados, que se revelou no Brasil, depois da ascendência ao poder incumbente de um mito teratológico.

Foto BBC

Crônica para alucinados, por Rui Daher

Acerta a capa da edição impressa de CartaCapital ao mostrar uma foto de Jair Bolsonaro, discursando na ONU, e em letras garrafais a manchete qualitativa: “Alucinado”.

Sem dúvida. Já era esperado que os desatinos cometidos pelo Regente Insano Primeiro, em território nacional, ficassem planetários depois que discursasse na Assembleia Geral da ONU.

O que mais assusta, no entanto, é a sequência de alucinados, que se revelou no Brasil, depois da ascendência ao poder incumbente de um mito teratológico.

Não haveria neste BRD espaço para tantos fatos e citações. É um triste histórico de traições, vinganças, alinhamentos espúrios, equívocos de política econômica, que se inicia em 2013, a direita embarcando na Arca de Noé de confusos movimentos de ruas, passa pelo golpe de Estado, forjado no impeachment de Dilma Rousseff, e “desemboca no açude” de fezes em que, hoje em dia, estamos mergulhados.

Repito, ainda com maior susto: é demoníaca a velocidade com que acontecem os desatinos. Nem à base de alucinógenos, seria admissível entender um povo tão letárgico aos malefícios que estão nos sendo impostos.

Revelações, pelo The Intercept Brasil, da sordidez na essência da força-tarefa da Lava-Jato, de seu âmago restrito à prisão de Lula, e de suas extensões às várias instâncias do Poder Judiciário.

Confissões e arrependimentos públicos de quem se alvoroçou em desacreditar nos políticos, equivocadamente deixando isso se estender à Política, e trocando um projeto de soberania e inserção social, por outro, neoliberal, entreguista e inerme às diversidades que abrigam os mais diversos povos no mundo moderno.

Representam a Antiguidade e caminham para as cavernas, ao se mostrarem, alucinadamente, até a enésima figura.

Não são mais aqueles a quem podíamos dedicar uma marcha-rancho, saudando “pais de santo, paus de arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, canibais, lírios pirados, ou faraós embalsamados”.

Nunca a genialidade de João Bosco e Aldir Blanc, os permitiria compor um “Rancho da Marmelada”, em marcha até mesmo militar, que saudasse um governador alucinado saltando de um helicóptero, no Rio de Janeiro, para comemorar a morte de uma pessoa, ou avalizar tiros indiscriminados da polícia, matando uma criança com dois tiros e um músico com mais de cem.

Alucinado, um Procurador Geral da República, Janot ou Janota, que confessa publicamente ter ido armado ao Supremo Tribunal Federal para matar um de seus ministros. Se não me engano, certo Gilmar, a nos lembrar o excelente goleiro que, como o ministro, vez ou outra também engolia uns frangos.

E confessou por quê? Quem iria saber? Dizem que para promover seu livro.

Estranho. É como se eu, quando do lançamento do “Dominó de Botequim”, confessasse que o jogo de dominó é de azar e traz má sorte e doenças para quem o pratica ou que frequentava botequins para me embriagar e depois fazer cocô nas pias de seus banheiros.

Não é mesmo de alucinar?

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