Diário de bordo na pandemia – À deriva, por Jhonatas Geisteira

Mas parece que cenas como carros de funerária fazendo fila em portas de cemitérios não têm sido suficientes para sensibilizar Bolsonaro e parte da população manauara, a qual deu 65,72% dos votos a ele.

Diário de bordo – À deriva

por Jhonatas Geisteira

Há alguns dias não escrevo, talvez por ter chegado a um momento de isolamento em que se perde a noção do tempo, dormimos a 1h da manhã como se fosse 11h da noite, fazemos o desjejum ao meio dia, almoçamos às 14 horas e às 18h jantamos. Há dois dias tenho perdido o sono na madrugada, a imagem do cemitério do Parque Tarumã me veio como um assalto, para quem ainda não viu, trata-se do registro do exato momento em que uma retroescavadeira abre um vala comum para sepultar as vítimas da COVID-19.

Apesar de estarrecedora, essa foi a estratégia que a prefeitura de Manaus adotou para dar conta dos inúmeros óbitos que têm assolado a capital, na última terça, registrou-se um pico de 136 enterros em um só dia. A medida evidencia que a pandemia não causou colapso apenas no sistema de saúde, até a última informação que tive, 91% dos leitos de UTI já estão ocupados, mas também nos cemitérios. Além do sistema de trincheiras, a prefeitura também instalou frigoríficos para armazenar os corpos da fila de espera.

Mas parece que cenas como carros de funerária fazendo fila em portas de cemitérios não têm sido suficientes para sensibilizar Bolsonaro e parte da população manauara, a qual deu 65,72% dos votos a ele. Domingo, manifestantes vestidos de verde e amarelo e cerca de 1200 veículos foram às ruas para pedir o fim do isolamento social. Arriscaria ainda a dizer que este não é nosso pior cenário, ontem foi registrado o primeiro caso de covid-19 em presídio.

O vírus também tem viajado para outros municípios do Amazonas. Moro em Manacapuru, cidade que fica a 69km de Manaus, a princesinha do Solimões já é a que possui a maior incidência do novo coronavírus em todo o país. O hospital do cidade não possui UTI, e casos graves precisam ser encaminhados a Manaus. Na semana passada, busquei informações junto ao número disponibilizado pela Secretaria Municipal de Saúde em um cartaz de campanha para uma amiga que me relatou febre, tosse seca, dor no estômago, perca de paladar, entre outros sintomas característicos da doença. Surpreendentemente, a pessoa que me atendeu orientou a dar chá caseiro com mel e limão espremido. Retruquei e perguntei sobre a viabilidade de atendimento médico domiciliar, a atendente disse que não seria possível, porque 40% dos profissionais estão afastados por estarem infectados. Essa mesma amiga precisou ir a uma UBS fazer o teste, mas o prazo para a entrega do resultado é de 10 dias. Aqui, pessoas estão morrendo em casa.

Outros municípios isolados também já registram casos e a curva segue crescendo vertiginosamente. O novo coronavírus já ameaça a existência dos povos indígenas e pelo menos 3 pessoas das etnias kokama, tikuna e sateré maué já faleceram no estado. A Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) publicou um alerta no último dia 18, informando que 28 indígenas aguardam resultados dos exames, enquanto outros 27 já testaram positivo em todo o Brasil. Contudo, a APIB estima que há mais casos, uma vez que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) não faz registros e atendimentos dos indígenas não aldeados. A maioria dos casos confirmados concentram-se no Amazonas.

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