João Roberto, por Rui Daher

Não chovia. Mesmo assim sentou-se no banco sob o abrigo do ponto de ônibus, sabendo que o próximo somente passaria em uma hora.

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João Roberto

por Rui Daher

Foi a primeira vez. Nunca, em três anos de emprego no banco, João Roberto perdera o ônibus das seis e meia que o devolveria à pensão, na Bela Vista, em que passara a morar depois da separação de Lívia, a oftalmologista que não reconhecia nem mesmo ser estrábica.

Em 22 anos de casados, tiveram três filhos. Duas meninas e um garotão. Seus nomes não importam, mas eram de bom gosto e, na época, inusuais. Sempre que se dirigia ao “garotão”, João Roberto era criticado como parcial e machista. Não o admitia. Conhecia seus afetos e motivações. Sabia ser um lugar comum de pais que desejam filhos homens às suas semelhanças, e mães que em filhas mulheres desejam o mesmo, cromossomos invertidos.

Não chovia. Mesmo assim sentou-se no banco sob o abrigo do ponto de ônibus, sabendo que o próximo somente passaria em uma hora. Começou a relembrar sua vida antes de Lívia e os três filhos.

Adolescente, ginasiano, ganhara de seu pai um violão. Apaixonado por música foi aprender a dedilhar aquelas seis cordas. Baixinho, mãos pequenas, dedos curtos, dificultavam qualquer virtuosismo.

No abrigo, sentia-se protegido de piores lembranças. Poderia ter pensado em instrumento mais adequado. Marimbas, talvez. Maracas, pandeiro, tamborim. Violão, no entanto, além de mais nobre, o permitiria compor. Gostava de escrever. Prosa e poesia. Quem sabe reproduziria o que faziam os melhores letristas brasileiros da época.

O passado era Lívia e os filhos que pouco o procuravam. Deveria ter deixado seu espírito libertário prevalecer e separar-se? Não teria sido melhor manter família e espírito boêmio andarem juntos?

O ônibus não demoraria muito a passar. Que prestasse atenção. Este seria o último. Depois somente a pé, e o sono, cansaço do dia no banco, não o do abrigo, mas o da agência 233, começava a se pronunciar.

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Passou a cantarolar. As mãos simulavam o antigo violão que ganhara do pai.

“Nascido no subúrbio nos melhores dias/Com votos da família de vida feliz/Andar e pilotar um pássaro de aço/Sonhava ao fim do dia, ao me descer cansaço/Com as fardas mais bonitas desse meu país/O pai de anel no dedo e dedo na viola/Sorria e parecia mesmo ser feliz”.

A demora do ônibus fez-lhe perguntar por que tanta “pedra de responsa”. Tive ou não tive?

A condução chega. Apressa-se. Velho e fraco pede compreensão ao motorista para subir os degraus. Seu sorriso faz o profissional compreensivo, que espera.

Na mente a canção persiste:

“Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade/E orgulho de seu filho ser igual seu pai/Pois me beijaram a boca e me tornei poeta/Mas tão habituado com o adverso/Eu temo se um dia me machuca o verso/E o meu medo maior é o espelho se quebrar”.

No assento do ônibus, recostou-se na janela, e viu que o espelho se quebrou.

 

 

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