Nelson Rodrigues, o gênio maluco-beleza, por Cesar Oliveira

Suas peças, romances, contos, crônicas, novelas são lidas, analisadas e admiradas, pela desassombrada realidade e coragem de escrever o que passava naquela cabeça prodigiosa.

Nelson Rodrigues, o gênio maluco-beleza, por Cesar Oliveira

“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda”

“Se, um dia, a vida lhe der as costas, passe a mão na bunda dela”

(Nelson, em duas de suas muitas, muitas frases de grande humor e observação da vida)

Poucos países têm a honra de contar, entre os seus intelectuais mais renomados, com um sujeito extraordinário e facetado como o recifense Nelson Falcão Rodrigues (1912–1980).

Multitalentoso, foi escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista e cronista de costumes e de futebol brasileiro, considerado um dos mais influentes dramaturgos do Brasil. Em tudo o que fez, foi sucesso. Apesar do ar bonachão, sua cabeça estava muito, muito à frente do seu tempo. O que dizia e escrevia, principalmente sobre o amor e os costumes, deixava os puritanos de cabelos em pé, porque ele dizia o que todo mundo sabia (e fazia), mas era impedido de falar. Ele enfiava a faca e torcia o cabo.

Não ousarei nem tentar traçar aqui um perfil dele, porque não tenho talento para isso; Mesmo porque Ruy Castro já o fez, este sim, com o talento de sempre, na excelente biografia “O anjo pornográfico” [Cia. das Letras, 1992], onde tentou responder o que todo mundo se perguntou:

Nelson era gênio ou louco? Tarado ou santo? Reacionário ou revolucionário?

Ele mesmo respondeu:

— Sou reacionário. Minha reação é contra tudo o que não presta.

Para emendar, logo em seguida, com uma frase que o define bem:

— Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.

Nelson escreveu e escreveu muito. Era prolífico e profícuo. Suas peças, romances, contos, crônicas, novelas são lidas, analisadas e admiradas, pela desassombrada realidade e coragem de escrever o que passava naquela cabeça prodigiosa. De sua obra, resultaram novelas, séries, minisséries e filmes.

Tricolor de coração, dos fios da cabeça à sola dos pés, cunhou sobre o futebol crônicas de grande qualidade e humor, sempre com observação fina e surpreendente. Vê-lo na Grande Resenha Facit, quando era jovem, era sensacional. Ele sobrava ali, em meio a jornalistas esportivos focados mais no quer acontecia nos gramados, enquanto Nelson delirava.

Em 1945, Nelson passou a trabalhar em O Jornal, de Assis Chateaubriand, e ali começou a escrever o seu primeiro folhetim: “Meu destino é pecar”, assinado pelo pseudônimo “Suzana Flag”. O sucesso foi tão grande que as vendas do jornal dispararam e Nelson ficou estimulado a escrever  sua terceira peça: “Álbum de família”.

Em 1950 passou a trabalhar na Última Hora, jornal de Samuel Wainer, onde começou a escrever os contos de “A vida como ela é”, seu maior sucesso jornalístico.

Sua melhor contribuição para a literatura esportiva tenha acontecido na revista Manchete Esportiva, que durou entre 1955 e 1959, de onde resultou um livro que recomendo a todos os que curtam futebol e cultura: “O berro impresso das manchetes” [Agir, 2007], mais de 500 páginas de puro deleite, com as crônicas completas dele, no período em que a revista durou.

Na revista, Nelson publicava, semanalmente, uma deliciosa crônica intitulada “Meu personagem da semana”, que repercutia o jogo do domingo anterior, com seus acontecimentos e personagens, onde escrevia sobre jogadores, dirigentes, partidas, times e seleções, árbitros etc. E até do Remo ele falou:

— Até hoje não compreendi por que o futebol é um criador de multidões e o remo, não. E, não entendo, se compararmos uma modalidade e outra, verificamos o seguinte: — o remo é muito mais bonito e devia ser muito mais apaixonante. Tudo valoriza: — o mar , o horizonte, o barco, o céu. De resto, a figura do remador tem, atrás de si, um tremendo passado oceânico. Não importa que, por vezes, ele sulque as águas cordiais e sedativas de uma lagoa, como a  nossa Rodrigo de Freitas. Seja como for, o remador está ungido de sal, de vento, de Sol, de Lua, com os nautas camonianos.”

Nelson era interessante e engraçado até ao criar personagens, como  Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida (o mais conhecido), que ele criou para falar das coisas do seu Tricolor das Laranjeiras.

Uma das melhores histórias sobre ele, conta que, já idoso, não enxergava muito bem. Mas ia sempre à tribuna de imprensa do Maracanã para ver os jogos, sempre ao lado de Armando Nogueira, um dos seus alvos favoritos — junto com Otto Lara Resende.

Ficavam ali,  vendo e comentando a partida e, ao final, Nelson, talvez tendo perdido detalhes por causa da visão, perguntava ao companheiro:

— Armando, o que nós achamos do jogo?…

E é só!…

Cesar Oliveira, quase 70, carioca, botafoguense e mangueirense. Editor de livros, preferencialmente de futebol, desde 2008. Expertise no mercado editorial desde 1980. Saiba mais nas redes sociais: @livrosdefutebol e @editoralivrosdefutebol.

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