outras árvores de natal, por Zê Carota

outras árvores de natal

por Zê Carota

em 2010, o maestro italiano Claudio Abbado provocou aplausos e exclamações de “Bravo!” ao fazer uma exigência para voltar a reger a orquestra do La Scala: converteu seu cachê em 90 mil mudas de árvores a serem plantadas em Milão.

oito anos antes, consagrado profissionalmente (regeu as principais orquestras do mundo, inclusive a Filarmônica de Berlim, considerada a melhor de todas), rico, Claudio Abbado (1933-2014) guardou de vez a batuta no estojo e foi cuidar adequadamente do câncer que teve diagnosticado em 2.000.

o convite do La Scala, porém, o reanimou a voltar, especialmente pela possibilidade de realizar o antigo sonho de remediar os pulmões da ultra industrializada Milão, mas a saúde voltou a ficar aos pandarecos, impedindo-o à exaustiva rotina de ensaios e apresentações. mesmo assim, felizmente, o cachê em mudas foi pago – e, infelizmente, não inspirou outros artistas ao mesmo.

no Brasil, com honrosas exceções, artistas consagrados e milionários veem nas causas sociais não um chamado às suas responsabilidades de figuras públicas, com poder de influência, conscientização e mobilização do público para as soluções de problemas que são do interesse e responsabilidade de todos, mas apenas mais uma oportunidade de capitalização de imagem que garanta a idolatria e, pois, as vendas.

agora, como nunca, isso se faz emergencial não apenas pela desvairada gula autofágica do lucro, mundialmente, como pelo fato de o ódio vassalo ao mercado ter sido eleito à presidência do país, cercando-se de elementos como um chanceler fundamentalista para o qual o aquecimento global é uma “conspiração marxista” – pudera: discípulo de olavo de carvalho (o rasputin de Bolsonaro), se este escrever que foi Jonas quem engoliu a baleia, não o contrário, nada improvável que ernesto araújo se preste a gládios com baleias, o que temos o dever cívico de apoiar.

mas o momento exige que deixemos cobranças de lado e façamos a parte que nos é cabível e possível, e isso nunca requer feitos heroicos, messiânicos, apenas o exercício do aparentemente mínimo, que obedece a uma lógica igualmente mínima.

respeito quem, no natal, gasta um bocado de tempo – e algum considerável dinheiro – cobrindo árvores postiças com bolas, estrelas, badulaques e balangandãs, além de lâmpadas e alguma espuma à guisa de neve, mas não consigo ver a mais ínfima lógica no cultivo de uma tradição que, em conceitos e símbolos, em nada representa nossa história, nossa cultura, que dirá nosso clima, ainda mais numa época em que todos nos sentimos, diuturnamente, qual fôssemos um guisado de quiabo, nos queixando disso, e pior: sabendo o quanto disso se deve justamente à derrubada genocida e suicida de árvores, para proveito único de pragas do agronegócio, com suas lavouras de transgênicos e venenos, e parasitas do mercado imobiliário, com seus trambolhos de concreto – e, claro, para deleite de gatos, que têm nesses monumentos natalinos ao provincianismo um misto de disney e academia de boxe.

mas qual seria o efeito de uma simples mudança de hábito, ou cultura, empenhando o tempo e o dinheiro gastos numa decoração particular no plantio de mudas de árvores de todas as espécies, nos mais variados pontos públicos das cidades?

a curto prazo, a visão da beleza única que há em toda promessa de vida, a médio prazo, um clima mais ameno, e a longo prazo, um meio ambiente habitável para todos, e esse é o melhor presente que podemos dar a quem amamos, inclusive aos nossos gatos – acreditem: eles vão superar o fim do fuzuê com as árvores de natal. no Egito Antigo, elas não existiam, eles eram considerados deuses e viviam como tal.

 

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