R.I.P José Temporão, do restaurante Mosteiro, o último ponto de um Rio que já não há

No Mosteiro, enquanto aguardava a chegada do prato, Serpa me contava com aquele ar misterioso com que revestia qualquer declaração. - Esta semana o Ministro Temporão passou por aqui. - E?, indaguei eu. - Veio pedir um dinheiro emprestado para o pai para quitar um financiamento de carro.

Pai do ex-Ministro da Saúde José Gomes Temporão, José Temporão tornou-se parte indissociável da história do Rio de Janeiro, como dono do restaurante Mosteiro, no centro do Rio de Janeiro, o local predileto da velha guarda política do Rio de Janeiro.

Lá, se encontravam para almoçar o superlobista Jorge Serpa, o eterno presidente da CBF João Havelange, políticos influentes, empresários históricos, autoridades econômicas.

Recentemente falecido, Serpa tinha mesa cativa e um escritório próximo ao restaurante. Foi nas mesas do Mosteiro que passei a entender um pouco a superestrutura que dominou a política brasileira por muito tempo, mesmo depois que o Rio deixou de ser a capital política do país. Por lá passavam candidatos a cargos políticos na Petrobras, no Itamarati, nas secretarias executivas de Ministérios.

O velho Temporão limitava-se a assegurar o ambiente tranquilo, a excelência da cozinha e a ausência total de deslumbramento com as estrelas políticas e econômicas que passavam pelo local.

Numa dessas idas ao Rio, em uma das mesas do Mosteiro, me contaram a história definitiva sobre José Gomes Temporão, o Ministro da Saúde que introduziu o mais relevante (e ignorado) programa de política industrial do país, desde o fim da política de substituição de importações: o Programa de Desenvolvimento Produtivo, destinado a prover o país da tecnologia e produção de medicamentos e equipamentos médicos essenciais.

Nos jornais, estourava o falso escândalo da Labogen, afetando profundamente o projeto. Era um laboratório  do Paraná, no qual o doleiro preferido – e protegido – da Lava Jato, Alberto Youssef, colocara algum capital. O laboratório se candidatou a um dos projetos do PDP. A avaliação dos projetos passava por institutos técnicos das Forças Armadas. O projeto nem chegou a ser analisado. Mesmo assim virou um escândalo sem tamanho, visando comprometer o programa.

No Mosteiro, enquanto aguardava a chegada do prato, Serpa me contava com aquele ar misterioso com que revestia qualquer declaração.

– Esta semana o Ministro Temporão passou por aqui.

– E?, indaguei eu.

– Veio pedir um dinheiro emprestado para o pai para quitar um financiamento de carro.

E já era o principal formulador de um programa que envolvia interesses bilionários – e com profundas implicações para a saúde pública.

Saí do restaurante algum tempo depois. Nas calçadas, as bancas de revista ainda exibiam edições impressas dos jornais. Nelas, estampada, as manchetes sobre o falso escândalo da Labogen. Mal sabia que, alguns anos depois, aquela criação de larvas, aquela sopa fétida e apodrecida das manchetes, geraria os falsos heróis da Lava Jato que chocariam o ovo de onde, algum tempo depois, nasceria o monstro da lagoa, o presidente que se constituirá na maior ameaça da história aos brasileiros e ao Brasil.

Depois disso, jornais, jornalistas, políticos lamentariam e chorariam a falta de medicamentos e equipamentos médicos, deblaterariam contra a polarização política, lamentariam o radicalismo, se assustariam com a bocarra sangrenta do fascismo ameaçando mídia, Congresso, democracia.

Agora, enquanto Rio de Janeiro afunda em corrupção e políticas genocidas, e o país está entregue à perversidade, o eterno Ministro Temporão continua na mesma trincheira da Fiocruz. Parou por alguns dias, para prantear a morte do velho José. Passado o luto, voltará à luta, em defesa da saúde e do país, e da memória de José Temporão, o homem que ajudou a moldar seus valores.

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6 comentários

    • Apenas um complemento. O jornalismo produzido pelas grandes empresas de mídia do Brasil (que não servem aos interesses da maioria do povo, mas a uma minoria associada ao grande capital internacional).

      Aproveitando o tema da mídia. Essa semana, numa live do Eduardo Moreira ele vibrava porque tinha dez mil pessoas (ou um pouco mais, não sei exatamente) ao vivo. Nisso, o ator Pedro Cardoso observou. No auge da “A grande família”, nós éramos assistidos por sessenta milhões de pessoas. Isso é mídia hegemônica com poder de influência. (Tudo bem que há a questão do entretenimento e dos formadores de opinião, mas a diferença é monstruosa).

      Por fim, seria interessante o Nassif atualizar suas análises sobre o comportamento e evolução da mídia nos últimos tempos (com a maior penetração da internet X a ainda grande influência da TV e do rádio nos milhões de pobres no Brasil – obs.: o rádio também continua muito influente nos veículos: caminhoneiros, vendedores, taxistas e motoristas de aplicativos, etc.)

  1. Pensemos que no futuro (próximo, talvez) essas pessoas de boa índole e vontade férrea pelo fazer o bem sejam devidamente reabilitadas e panteadas. Pois, depois da besta, talvez o labirinto se abra em oportunidades neste país de merrecas. Mas, infelizmente, só talvez.

    • Com essa elite miserável que temos? Impossível. Bolsonaro é apenas o bandido que faz o serviço sujo. Sem dúvida, o mais desqualificados de todos que fizeram esse papel. Não adianta eliminar esse verme se o receptador continua livre, leve e solto. Passou da hora de passar uma boa guilhotina pelo pescoço de gente de sobrenome Marinho, Setubal, Saad, Frias, Mesquita, Civvita, Lemman, etc etc que sempre deu as cartas no país e não teve um único privilégio suprimido.

  2. Uma crônica jornalística que fala de um homem, seu pai, uma estrutura familiar óbvia….. O testemunho do Serpa é, na verdade, um evidente atestado da honestidade do ministro Temporão, e o resto do relato uma trágica demonstração do quanto é torpe e canalha nossa grande mídia e, igualmente o são, os agentes públicos e privados que nos trouxeram a esse horror. Nassif, particularmente me sinto agradecido quando o jornalismo pratica esses “pequenos” gestos de justiça.

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