Žižek: A mensagem de Julian Assange

Assange lutou pela transparência pública do espaço digital, e há uma ironia cruel no fato de que agora a pandemia é usada como pretexto para isolá-lo de sua família e de seus advogados.

do Blog da Boitempo

Žižek: A mensagem de Julian Assange

“Assange não pode morrer – mesmo que morra (ou desapareça em uma cela de prisão dos Estados Unidos), essa agonia será seu triunfo, ele morrerá para viver em todos nós. Esta é a mensagem que todos nós devemos transmitir àqueles que estão o detendo: se você matar um homem, você cria um mito que continuará a mobilizar milhares de pessoas.”

* TEXTO ENVIADO DIRETAMENTE PELO AUTOR PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZO.

Há uma velha piada, da época da Primeira Guerra Mundial, sobre uma troca de telegramas entre o quartel-general do exército alemão e o austro-húngaro. De Berlim a Viena, a mensagem enviada é a seguinte: “A situação nesta parte do front é grave, mas não é catastrófica”. E a resposta de Viena é: “Aqui da nossa parte, a situação é catastrófica, mas não é grave.” Essa resposta parece oferecer um modelo de como tendemos a reagir às crises hoje, da pandemia de covid-19 aos incêndios florestais (não apenas) no oeste dos EUA e no Brasil: sim, sabemos que há uma catástrofe iminente, a mídia nos avisa disso o tempo todo, mas de alguma forma não estamos dispostos a levar a situação verdadeiramente tão a sério…

Um caso semelhante vem se arrastando por anos: o destino de Julian Assange. Trata-se de uma catástrofe jurídica e moral. Basta lembrar de como ele é tratado na prisão: proibido de ver seus filhos e a mãe deles, impedido de se comunicar regularmente com seus advogados e preparar sua defesa e sujeito a uma situação de tortura psicológica de forma que sua própria sobrevivência se encontra ameaçada. Eles estão, sem dúvida nenhuma, matando-o suavemente, como diz a canção. Mas pouquíssimas pessoas parecem estar levando a sério essa situação, cientes de que é o nosso próprio destino está em jogo no caso de Assange. As forças que violam seus direitos são as mesmas que impedem o combate efetivo contra o aquecimento global e a pandemia. É por conta delas que a pandemia enriquece ainda mais os ricos e golpeia mais duramente os mais pobres. São as forças que exploram a pandemia de maneira implacável a fim de reforçar seu controle sobre nosso espaço social e digital, regulando e censurando-o às nossas custas – as forças que nos protegem, mas inclusive da nossa própria liberdade.

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Assange lutou pela transparência pública do espaço digital, e há uma ironia cruel no fato de que agora a pandemia é usada como pretexto para isolá-lo de sua família e de seus advogados. Há uma enorme disposição de se criticar as restrições às liberdades humanas básicas impostas pela China a Hong Kong – não seria o caso de voltar o olhar a nós mesmos? Hoje vale retomar o velho ditado formulado por Max Horkheimer no final dos anos 1930: “Quem não estiver disposto a falar criticamente sobre o capitalismo deve também se calar sobre o fascismo.” Nossa versão dele agora deveria ser: quem não quiser falar sobre a injustiça cometida contra Assange deve também se calar sobre as violações de direitos humanos em Hong Kong e na Bielorrússia.

O bem planejado e bem executado assassinato de reputação de Assange é uma das razões pelas quais sua defesa nunca cresceu em um movimento amplo como o Black Lives Matter ou o Extinction Rebellion. Agora que a própria sobrevivência de Assange está em jogo, apenas um movimento desses pode (talvez) salvá-lo. Lembremos da letra (escrita por Joan Baez para a música de Ennio Morricone) de “Here’s to you”, a canção principal do filme Sacco e Vanzetti (1971): “Here’s to you, Nicola and Bart / Rest forever here in our hearts / The last and final moment is yours / That agony is your triumph” [Um brinde a vocês, Nicola e Bart / Descansem para sempre aqui em nossos corações / O último e derradeiro momento é de vocês / Essa agonia é seu triunfo]

Houve manifestações em todo o mundo em defesa de Sacco e Vanzetti – e o mesmo é necessário agora em defesa de Assange, embora em uma forma diferente. Assange não pode morrer – mesmo que morra (ou desapareça em uma cela de prisão dos Estados Unidos como um morto-vivo), essa agonia será seu triunfo, ele morrerá para viver em todos nós. Esta é a mensagem que todos nós devemos transmitir àqueles que estão o detendo: se você matar um homem, você cria um mito que continuará a mobilizar milhares de pessoas.

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A mensagem que aqueles que estão atrás de Assange estão nos transmitindo é clara: “tudo é permitido (para nós)”. Por que apenas para eles? O que eles estão fazendo com Assange está mudando radicalmente o clima político. Talvez precisemos então de novos Weathermen.

* * *

Leia aqui a “Carta do cárcere” escrita por Julian Assange, e o relato da visita de Žižek a Assange na prisão de Belmarsh. Confira também, na coluna de Slavoj Žižek no Blog da Boitempo, “Bolívia: anatomia de um golpe“, Coringa e o grau zero da revolução”, “De Hong Kong ao Chile?“, sobre as manifestações que vem tomando as ruas em diversas cidades da América do Sul, e “A Amazônia está em chamas“, sobre a urgência e as armadilhas ideológicas da questão ecológica hoje. Slavoj Žižek também é autor do texto de orelha do livro mais recente de Julian Assange. Em entrevista exclusiva ao Blog da Boitempo, feita logo após a eleição de Bolsonaro, o filósofo esloveno reflete que uma novidade potencialmente interessante do Brasil é que aqui o populismo de direita que está no poder não abriu mão da imposição da austeridade. Leia aqui.

* * *

Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015), O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016) e o mais recente Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo (2020). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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1 comentário

  1. Waiting for the Worms
    (Pink Floyd)

    Eins, zwei, drei, alle

    Ooh-ooh, you cannot reach me now
    Ooh-ooh, no matter how you try
    Goodbye, cruel world, it’s over
    Walk on by

    Sitting in a bunker here behind my wall
    Waiting for the worms to come (worms to come)

    In perfect isolation here behind my wall
    Waiting for the worms to come

    Waiting to cut out the deadwood
    Waiting to clean up the city
    Waiting to follow the worms

    Waiting to put on a black shirt
    Waiting to weed out the weaklings
    Waiting to smash in their windows and kick in their doors

    Waiting for the final solution to strengthen the strain
    Waiting to follow the worms

    Waiting to turn on the showers and fire the ovens
    Waiting for the queens and the coons and the reds and the Jews
    Waiting to follow the worms

    Would you like to see Britannia rule again, My friend?
    All you have to do is follow the worms

    Would you like to send our coloured cousins home again, My friend?
    All you need to do is follow the worms

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