Secretário de segurança é irresponsável, diz sindicato dos servidores da Polícia Civil do RS

Jornal GGN – Em meio à grave crise econômica enfrentada pelo estado, o governo de Ivo Sartori (PMDB) no Rio Grande do Sul tenta aprovar um pacote de ajuste fiscal. Servidores gaúchos, entre eles policiais civis, tem protestado contra as medidas e enfrentando repressão do Batalhão de Choque da Brigada Militar, que cercou a Assembleia e impediu que as pessoas acompanhassem a votação. 

A Brigada usou bombas de gás e balas de borracha e ao menos cinco policiais civis ficaram feridos. “O pessoal da Civil e da Susepe ia avançar neles. Todo mundo com a pistola na cintura. Imagine o que ia acontecer. Nós tivemos o cuidado de evitar que o pior acontecesse. Teríamos uma tragédia”, relata Isaac Ortiz, presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do Rio Grande do Sul.

 
Em entrevista ao Sul 21, Ortiz critica Cezar Schirmer, secretário de Segurança, que defendeu a atuação da Brigada. “Não temos mais respeito por ele e chegamos a divulgar uma nota dizendo que o cargo de secretário estava vago. Para nós ele não existe. O secretário manda jogar bombas e espancar seus subordinados. Que relação é essa? É um irresponsável”, afirma. 
 
Ortiz critica as medidas aprovadas pelo governo Sartori, como a extinção de seis fundações gaúchas. “Deram uma facada no patrimônio do Estado”. Leia entrevista completa abaixo: 
 
Leia mais abaixo: 

Do Sul 21

Marco Weissheimer

A mobilização que reuniu, na última semana, milhares de servidores públicos na Praça da Matriz contra o pacote enviado pelo governo José Ivo Sartori (PMDB) à Assembleia Legislativa foi marcada, entre outras coisas, pelo confronto entre diferentes categorias de servidores da área da Segurança Pública. De um lado, servidores da Polícia Civil e da Susepe, ao lado de outras categorias do funcionalismo público; do outro, o Batalhão de Choque da Brigada Militar que cercou a Assembleia impedindo a entrada dos servidores e do público em geral para acompanhar a votação do pacote. Em vários momentos, a Praça da Matriz virou uma área de guerra e esteve perto de ser palco de uma tragédia.

Na terça-feira, o choque da Brigada disparou bombas de gás e balas de borracha contra os manifestantes, deixando pelo menos cinco policiais civis feridos. Uma policial foi atingida com uma bomba de gás nas costas. “Eles estavam mirando nos manifestantes. Ficou muito ruim. O pessoal da Civil e da Susepe ia avançar neles. Todo mundo com a pistola na cintura. Imagine o que ia acontecer. Nós tivemos o cuidado de evitar que o pior acontecesse. Teríamos uma tragédia”, relata Isaac Ortiz, presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do Rio Grande do Sul (Ugeirm Sindicato), em entrevista ao Sul21.

Ortiz fala sobre os acontecimentos da última semana na Praça da Matriz e critica duramente a postura do Secretário Estadual da Segurança, Cezar Schirmer, que defendeu a ação do choque da Brigada contra os manifestantes. “A partir desse momento, nós passamos a desconhecê-lo como secretário da Segurança Pública. Não temos mais respeito por ele e chegamos a divulgar uma nota dizendo que o cargo de secretário estava vago. Para nós ele não existe. O secretário manda jogar bombas e espancar seus subordinados. Que relação é essa? É um irresponsável”, diz o presidente da Ugeirm.

Sul21: Qual sua avaliação sobre os acontecimentos dentro e fora da Assembleia na última semana, durante a votação do pacote encaminhado pelo governador José Ivo Sartori?

Isaac Ortiz: Em primeiro lugar, achei desnecessário aquele clima de guerra que foi criado, com o cercamento da Assembleia e a proibição de as pessoas entrarem livremente para ocuparem as galerias do plenário. Foi muito ruim. Isso faz parte da democracia. Com exceção de umas poucas pessoas, a maioria não pode conversar com os deputados nem assistir às votações.

Leia também:  Caso Marielle: atuação de investigadores coloca em dúvida veracidade de áudios periciados

Sul21: Lembra de algo parecido já ter acontecido alguma vez no Parlamento gaúcho?

Isaac Ortiz: Não. Isso começou quando o Edson Brum assumiu a Assembleia Legislativa. Ali ocorreu o primeiro cercamento da Assembleia. Mas, mesmo naquela ocasião, foi liberada uma quantidade maior de lugares nas galerias que foram divididas entre os prós e os contras. Nunca tinha visto o que aconteceu na última semana. Nem no tempo do governo Antonio Britto, no processo das privatizações.

A nossa avaliação é que uma série de tensionamentos poderia ter sido evitada. A semana foi de muita indignação. Soubemos que Sartori havia viajado a Brasília para renegociar a dívida e tinha proposto a inclusão de um artigo para cancelar os nossos reajustes. Aquilo não era uma renegociação de dívida, mas sim um tratado de rendição. A proposta que cancelava os reajustes já aprovados e congelava reajustes futuros chegou a ser aprovada no Senado e depois conseguimos reverter na Câmara graças à uma articulação que envolveu vários Estados. Essa iniciativa do governador causou uma indignação muito grande na nossa categoria.

Outro motivo de forte indignação foram as declarações do secretário Schirmer que assumiu e defendeu as ações truculentas da Brigada Militar contra os servidores. A partir desse momento, nós passamos a desconhecê-lo como secretário da Segurança Pública. Não temos mais respeito por ele e chegamos a divulgar uma nota dizendo que o cargo de secretário estava vago. Para nós ele não existe. O secretário manda jogar bombas e espancar seus subordinados. Que relação é essa?

Então, nós não tivemos momentos de tensão muito grande. Foi um ataque brutal do governo. A extinção das fundações foi um absurdo. Nós não imaginávamos que isso pudesse acontecer. Deram uma facada no patrimônio do Estado. O curioso é que foi resgatada uma reportagem da época em que Pedro Simon assumiu o governo do Estado. Na manchete, ele dizia: peguei o Estado quebrado. Essa é uma praxe do PMDB. Dizer que o Estado está quebrado e vender patrimônio público. Foi muito triste ver nossos colegas das fundações abraçados, chorando. Parece que parte da gente foi junto com a extinção dessas fundações.

Sul21: Quais são os ensinamentos que podem ser tirados do que aconteceu?

Isaac Ortiz: Acho que tudo isso tem que servir de exemplo. O servidor público comete um erro; muitos não se sentem trabalhadores, mas sim uma categoria diferenciada. Na verdade, somos trabalhadores. Todo mundo que depende do seu salário para sobreviver é trabalhador, não importando quanto ganha. O serviço público acaba se isolando da população. Isso tem que ser revisto. Precisamos mostrar a importância do serviço público para a comunidade.

Tivemos algumas vitórias, como impedir que cancelassem nossos reajustes e a retirada das PECs, embora saibamos que elas podem retornar ali na frente. Sabemos que a nossa luta continua. Os policiais civis, a Susepe, os trabalhadores da CEEE e várias outras categorias deram um belo exemplo de luta. Todo mundo tem que aprender a lutar. Quantos funcionários públicos nós somos? Quantos estavam na Praça da Matriz? Quantos servidores das fundações estavam ali? Poderíamos ter salvo as fundações se a mobilização tivesse sido maior. Se cada um ficar cuidando só do próprio umbigo, fica fácil desmontar o serviço público. Há outros órgãos que estão ameaçados, como o Banrisul, a Emater, a Corsan. Cadê o povo?

Na realidade, todos nós estamos ameaçados. É o serviço público que está em xeque, junto com todo os trabalhadores, lá em Brasília e aqui. Estamos vivendo um ataque em nível nacional aos trabalhadores, por meio das propostas de reformas da Previdência e da legislação trabalhista. Nós precisamos estar juntos do povo.

Sul21: Na tua opinião, os servidores passaram a ter consciência dessa ofensiva mais geral em nível nacional, a partir do que aconteceu na Praça da Matriz e na Assembleia Legislativa?

Isaac Ortiz: Sim. Nós tivemos, por exemplo, a mobilização dos trabalhadores da CEEE e da CRM (Companhia Riograndense de Mineração). A gente não se conhecia direito. Por isso é que digo: se tivéssemos nos mobilizado antes poderíamos ter salvado todas essas fundações e colocado esse governo de joelhos. Na luta, as pessoas passam a se dar conta de quem são os nossos inimigos. A gente vê o que essas federações empresariais como Federasul, Fiergs e Farsul estão fazendo, atacando os trabalhadores. O pacote de reforma trabalhista do Temer quer instituir o almoço de 30 minutos, apenas para citar um exemplo, com a benção dessas entidades. Mas nós percebemos os nossos erros e aprendemos como é que temos que nos organizar daqui para frente. Não será só se indignando em casa e no Facebook que venceremos essa luta. Precisamos ir para a rua. E vimos também que o bicho não é tão brabo assim. Eles também têm a fraqueza deles.

Leia também:  Caso Marielle: delegado da Polícia Civil é suspeito de obstruir investigação

Sul21: Durante a mobilização na praça, a relação entre os servidores da Polícia Civil e da Susepe com os da Brigada Militar foi marcada por muita tensão e momentos de confronto. Como foi essa situação?

Isaac Ortiz: Foi uma coisa bem contraditória. De um lado, estávamos nós, policiais civis, os servidores da Susepe e também alguns policiais militares defendendo o fim do parcelamento dos nossos salários, a manutenção dos reajustes, contra a PEC que extinguia o artigo 35 da Constituição, desobrigando o governo a ter uma data determinada para o pagamento dos salários e do décimo terceiro. Tudo isso valia para nós e para o pessoal da Brigada Militar que estava do outro lado. Assim como nós, eles também têm contas para pagar. Não é porque eles estavam fardados e armados do outro lado que a vida deles é diferente. Terminou aqui ali, voltam para casa, pegam ônibus ou seu carro, tem que ir ao supermercado. E estavam lá naquela fúria. Parecia até que era algo prazeroso.

A gente até tem uma ideia de como é o treinamento deles, mas isso não livra ninguém de pensar. Não pode ser só soldado, sem pensar. Parecia que muitos ali não estavam pensando no amanhã, no futuro dos próprios filhos. Estávamos brigando por esse futuro, tomando tiros de bala de borracha e bombas de gás.

Sul21: Como foi esse episódio do emprego de balas de borracha? Quantos policiais civis ficaram feridos?

 Isaac Ortiz: Ocorreu na terça-feira. Cinco ou seis policiais foram atingidos por balas de borracha. Uma policial foi atingida nas costas por uma bomba de gás e ficou com um grande ferimento nas costas. Eles estavam mirando nos manifestantes. Ficou muito ruim. O pessoal da Civil e da Susepe ia avançar neles. Todo mundo com a pistola na cintura. Imagine o que ia acontecer. Nós tivemos o cuidado de evitar que o pior acontecesse. Teríamos uma tragédia. E tivemos dificuldade para segurar o pessoal.

Sul21: O que aconteceu deve ter repercussão na relação entre os servidores da área da segurança pública?

Isaac Ortiz: A gente vai fazer de tudo para que não tenha, mas a atitude do Batalhão de Choque da Brigada Militar terá repercussão, sim. E isso foi estimulado pelo governo, pelo secretário da Segurança Pública que é um irresponsável, um moleque. Eu disse numa entrevista: será que esse cidadão não está contente com duzentos e tantos corpos lá em Santa Maria e quer mais ainda? Pelo que se viu, parece que sim. Ele, como secretário da Segurança Pública, tinha que estar ali, mediando os conflitos, e não dentro da Assembleia e do Palácio trabalhando para aprovar o pacote. Ninguém mais tem respeito por ele. Espero que ele não apareça mais em lugar nenhum onde tenha policiais civis nas operações. Ele se tornou uma persona non grata no meio policial.

A gente respeita o voto do povo que elegeu Sartori governador, mas por ele não temos nenhum. Alguém que debocha e não reconhece o trabalho do servidor público, que chama o servidor pública de “essa gente”, não merece o nosso respeito também.

Leia também:  Caso Marielle: polícia ignorou segundo registro de carro clonado

Sul21: O pacote do governo Sartori acabou tirando um pouco os problemas da segurança pública do noticiário. Como é que está essa situação?

Isaac Ortiz: Pensa no caos. Nesta última semana, dois corpos foram encontrados no Mário Quintana e duas cabeças na Vila Jardim. Tudo indica que as pessoas foram decapitadas vivas. Não tinham marcas de tiro, de nada. Não é só briga de bandido. A sociedade está assim. Cadê o Estado? Onde é que está a segurança pública? Onde está o secretário de Segurança Pública? O governo Sartori não tem nenhuma política para a segurança pública. E vem falar de Estado mínimo? O Estado não se mantém só com saúde, educação e segurança. Precisa ter gente que pensa, que pesquisa, precisa ter cultura. O Estado mínimo é a falência do Estado e é isso que está acontecendo aqui no Rio Grande do Sul. Quais são os programas sociais que temos hoje no Estado? Nenhum. Estão tirando o pouco que tinha, que era o Bolsa Família, e já estão aparecendo crianças nas ruas.

A segurança pública está falida no Estado. Como policiais, sabemos que as coisas vão ficar mais difíceis ainda. As facções estão tomando conta de quase todos os bairros de Porto Alegre. O Estado está saindo e elas estão entrando. Depois, esses mesmos que defendem o Estado mínimo vem reclamar da violência. O Estado mínimo produz mais violência e mortes. É o que estamos vendo. O atual governo não fez nada nesta área até aqui. Só tratou de fazer negócios e de acertar contas de campanha. Esses pacotes na Assembleia são isso.

O governo anunciou este ano um pacote de R$ 160 milhões para a segurança pública. Onde estão esses investimentos? Não foi investido nada. Pelo contrário, foi retirado. Não vi nenhuma ação deste governo que diga que segurança, saúde e educação são importantes para ele. Estamos caminhando para termos um dos piores governos da nossa história. Aliás, acho que nem dá para chamar de governo, pois ele não faz nenhuma política de governo. Desde que assumiu, sua única intenção é privatizar e entregar patrimônio público.

Eles defendem o Estado mínimo e, depois, querem que a Polícia solucione o problema da violência. Não vai solucionar nada. Não tem como. Quem pensa que o problema da violência se resolve com polícia ou com mais presídios está redondamente enganado. Para resolver o problema da segurança pública é preciso investir em outras áreas também

Sul21: A situação dos presídios, aliás, parece estar cada vez mais grave, a julgar pelo que se viu na última semana…

Isaac Ortiz: A situação é explosiva. O Estado trocou uma área nobre com o Zaffari, perto de um shopping, por um presídio. Em vez de trocar por uma escola, trocou por um presídio. Será essa a nossa alternativa: a construção de mais presídios? Onde é que as pessoas que defendem isso vão viver? Onde é que elas acham que vão estar protegidas? No shopping? Não dá mais. Vão criar uma zona verde, como no Iraque? Nossa sociedade é muito hipócrita. Muita gente que se queixa da violência, quer mais repressão, mas de foram seletiva. Enquanto não for o filho deles, está ok.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome