Villas Boas: antidemocrático como todo general

Ao final de sua entrevista a Pedro Bial, o comandante do Exército disse duas coisas que não foram bem pesadas por aqueles que o consideram um democrata. Segundo ele, os eleitores devem ser responsáveis, pois não podemos correr o risco dever o país sucumbir ao populismo de direita ou ao populismo de esquerda. Ainda segundo ele, não existe nenhuma liderança importante que não seja influenciada por teorias ultrapassadas como a guerra de classes.

Uma guerra de classes iniciada pelos políticos, empresários e banqueiros derrotados em 2014 levou ao golpe de 2016. Mas esta guerra de classes não incomoda o comandante do Exército, pois ele se coloca como fiador das instituições que foram estupradas para que o usurpador Michel Temer chegasse ao poder. Ele nada fez para salvar a soberania popular, nem tampouco desautorizou os abusos populistas de direita (perdão de dívidas tributárias, cortes de programas sociais, revogação de direitos trabalhistas, etc…) praticados por Michel Temer sem autorização das urnas.

Ao longo da entrevista, Villas Boas disse que tropa está tranquila. Curiosamente, o general também não se mostrou nenhum pouco preocupado com a evidente guerra de classes que o Judiciário declarou contra as lideranças petistas ao arrepio da Constituição Federal.

Nos últimos anos, os princípios constitucionais do Direito Penal foram um a um revogados para que Lula possa ser impedido de disputar as eleições de 2018 e para manter José Dirceu no cárcere. Não só isto, os juízes protegem acintosamente criminosos que já deveriam estar presos. Digo isto pensando em três exemplor grotestos:

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a) Perrella, cujo helicóptero foi encontrado cheio de cocaína;

b) Aécio Neves, que consegue adiar indefinidamente o julgamento do seu pedido de prisão e;

c) Aloysio Nunes, em cuja fazenda um estoque de centenas de quilos de cocaína foi apreendido.

O populismo penal do Ministério Público e do Judiciário, que consideram delações mentirosas provas inequívocas contra o PT e que rejeitam sumariamente quaisquer delações feitas contra o PSDB paulista para impedir investigações aprofundadas contra José Serra e Geraldo Alckmin, também não incomoda o general. No imaginário dele isto é absolutamente normal. Anormal seria o populismo de esquerda, ou seja, a exigência que os juristas fazem no sentido de que a Lei Penal seja aplicada com o mesmo rigor a todos os réus sem levar em conta suas filiações partidárias.

A mentalidade do general que comanda o Exército é típica dos militares que foram educados durante a guerra fria. A guerra de classes que ele teme é aquela que supostamente estava sendo promovida pelo PT ao criar políticas públicas para incluir populações que sempre foram economicamente exploradas e politicamente rejeitadas pela elite bestial brasileira.

O que Villas Boas chamou de populismo de esquerda é a igualdade perante a Lei e a inclusão social. A desigualdade ilegalmente institucionalizada pelo MPF e pelo Judiciário e a exclusão social promovida de maneira abrupta por Michel Temer não foram chamadas pelo general por seu verdadeiro nome: guerra de classes.

Villas Boas se colocou como fiador da democracia, mas na verdade o que ele afiança é a perseguição judiciária ao PT, a proteção criminosa dos ladrões e traficantes de drogas tucanos e, sobretudo, o desmonte de uma nação que vinha sendo construída dentro da legalidade.

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A referência sutil à ideologia que rejeita a existência de conflitos sociais ou os desautoriza para evitar o caos (a guerra de classes promovida pelos trabalhadores como maneira de se defender da guerra de classes institucionalizada pelo Estado e orquestrada pelos políticos, empresários e banqueiros derrotados numa eleição é a única guerra de classes que ele considera intolerável) foi a cereja no bolo podre que o general serviu de maneira sorridente ao final na sua entrevista. É evidente que ela não seria dada na Rede Globo se ele tivesse qualquer outra coisa a dizer senão que é um legítimo herdeiro da mentalidade que construiu e manteve a ditadura militar até mesmo após o seu final. Isto explica o elogio que ele fez á acumulação de capital (com a brutal exclusão social que não foi mencionada) durante o período 1964/1985 e a tranqüilidade com que ele aceitou o golpe de estado de 2016.

Invadir a favela tudo bem. Invadir o Senado para prender senadores traficantes de drogas que conspiraram contra o resultado das eleições de 2014 nem pensar. Villas Boas é um comunicador nato. Ele atraiu o respeitável público com piadas interessantes e despertou empatia ao expor sua terrível doença. Mas no final ele disse o que realmente pensa. Como homem doente ele merece todo nosso apoio. Mas a doença política, social e econômica que o discurso dele representa não merece ser aplaudida, nem ignorada.  

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