A avaliação Gabrielli sobre a gestão na Petrobras

Por Marco Antonio L.

Do O Estado de S. Paulo

‘No modelo do pré-sal, a Petrobrás dirige o processo’

Gabrielli, que deixa a presidência da estatal amanhã, defende as mudanças na empresa e no marco regulatório

Para José Sergio Gabrielli, que deixa a presidência da Petrobrás amanhã, o modelo para o setor de petróleo e gás implantado pelo PT fortalece a Petrobrás e a cadeia nacional de fornecimento à indústria petrolífera.

O que o Brasil ganhou com a mudança do modelo do setor de petróleo entre o governo FHC e os de Lula e Dilma?

Fizemos um modelo muito bonitinho, com uma empresa-âncora como a Petrobrás fortalecida, capitalizada, com condições de dirigir o processo. Um marco regulatório com as áreas de risco exploratório baixo onde o governo vai ter uma parcela maior no bolo futuro, mantendo-se a concessão para as áreas com alto risco exploratório. E você tem ainda a intensificação da política de conteúdo nacional, fazendo com que a expansão e o crescimento da exploração do petróleo no pré-sal tenha como limitador de velocidade a capacidade de a indústria brasileira responder, fornecendo os bens e serviços necessários.

Quais os ganhos para o País de a Petrobrás ter ficado com tanto poder?

O fato de ser operadora única permite maximizar sinergias que ela tem da infraestrutura existente e viabilizar soluções para problemas. Vale recordar o que aconteceu conosco em 2007. Tínhamos duas sondas na frota da Petrobrás com capacidade de perfurar mais de 2,5 mil metros de lâmina d’água, e tivemos de usá-las para delimitar as novas descobertas do pré-sal. As nossas sondas tinham custo de US$ 200 mil a US$ 250 mil por dia, o mercado alugava na época por US$ 700 mil dólares por dia, mas nem por esse preço conseguimos encontrar sondas para os campos já existentes. Pensamos em construir sondas, mas não encontramos lugar para fazer estaleiro, e o desespero começou a bater. Foi aí que decidimos fazer um programa de larga escala e longo prazo que vai viabilizar a construção de estaleiros no Brasil, para que eles construam sondas para nos entregar daqui a algum tempo (a Petrobrás acaba de encomendar 26 sondas de perfuração para o pré-sal). Daqui a quatro, cinco anos, o mercado de sonda mundial será outro, porque nós somos muito grandes nesse mercado e estamos estimulando a criação de vários estaleiros dedicados à construção de sondas.

E qual a vantagem de uma política industrial que desloque investimentos para o setor de petróleo e gás?

A indústria de petróleo em si não é muito empregadora de mão de obra. Mas a cadeia de fornecimento de equipamentos e serviços para a indústria de petróleo é extremamente integrada com o conjunto das atividades econômicas. Há milhares de atividades relacionadas com a fabricação de uma sonda e outros equipamentos da indústria petrolífera. Além disso, a tecnologia desenvolvida extrapola o setor.

Como assim?

Montamos uma rede de pesquisa no Brasil extraordinária, mais de 50 redes temáticas, com temas diferentes relacionados com petróleo. Temos envolvimento com universidades e centros de pesquisa no Brasil inteiro, construímos laboratórios, temos milhares de estudantes envolvidos nessas pesquisas, centenas de pesquisadores, com uma capacidade de desenvolvimento de pesquisa empírica que vai ser importante para o petróleo, mas não só. Porque o cara que está estudando bactérias que se alimentam de enxofre vai usar esse estudo para várias coisas, não só para o petróleo. O mesmo pode ser dito do sujeito que estuda nanotecnologia para sensibilidade de superfície de tubulações, ou está desenvolvendo sistemas de informática para entendimento de comportamento dos reservatórios, que são intensivos em processamento de dados. É um complexo de pesquisa e desenvolvimento que não é só voltado para o petróleo.

Por que a Petrobrás se expandiu tanto nos últimos anos. Isso não piora a competição e a eficiência?

Está estatisticamente comprovado que a empresa petrolífera integrada é mais rentável no longo prazo do que as dedicadas exclusivamente ao “upstream” (exploração e produção), ou ao downstream (refino, distribuição, etc.). Dado o tamanho da Petrobrás no mercado brasileiro, a integração é mais importante ainda. Nós importamos todos os tipos de derivados hoje, porque a última refinaria construída no Brasil foi em 1980. E agora uma nova refinaria vai entrar em operação em 2013 (Abreu e Lima, em Pernambuco). Sem nova refinaria, nós sairíamos de uma situação hoje em que importamos mais ou menos 10% a 15% do mercado brasileiro para importar 45% daqui a dez anos. E qualquer empresa que esteja no controle desse mercado vai investir para garantir sua posição, mesmo sabendo que as margens de refinaria são muito mais voláteis do que as margens na exploração e produção.

Qual a vantagem da política de preços de derivados da Petrobrás, que hoje provoca perdas?

A grande vantagem dessa política é ter uma estabilização do fluxo de caixa da empresa. O desabamento dos preços depois da crise global foi um desastre para o fluxo de caixa de muitas empresas petrolíferas, mas não atingiu a Petrobrás.

O sr. se preocupa com a queda das ações da Petrobrás (as ON caíram 8,28% na sexta, com o mau resultado do 4º trimestre)?

Descobri recentemente uma informação técnica importante: em cada dez ações negociadas da Petrobrás no mercado de Nova York, nove são negociadas por robôs. São negociações indexadas, ou seja, a decisão de vender ou comprar as ações são feitas com base em algoritmos computacionais com ordens automáticas. Só uma em dez tem uma decisão de um gestor baseado em expectativas. O movimento das ações da Petrobrás tem a ver muito mais com a dinâmica dessas operações do que com a decisão de um acionista minoritário que está revoltado porque a Petrobrás está dando menos lucro do que ele queria.

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