“Putin arrumou uma gigantesca crise financeira para si com direito a muita convulsão social”, diz Monica de Bolle

Rússia será asfixiada financeiramente mesmo com reserva de 630 bilhões de dólares. Crise bancária à vista e rublo virando moeda podre colocam Putin em risco

Monica de Bolle
Foto: Reprodução/Youtube

A economista Monica de Bolle acredita que as sanções econômicas que diversos países da OTAN impuseram à Rússia por causa da invasão e guerra na Ucrânia devem provocar uma crise financeira que pode colocar o governo Putin em risco.

Segundo Monica, mesmo com 630 bilhões de dólares em reservas internacionais, a Rússia tende a ser asfixiada financeiramente e assistir a uma crise bancária clássica, com potencial de gerar uma convulsão social e abalar a popularidade do presidente Vladimir Putin. “Se o sistema bancário perde a sustentação porque o banco central não pode acionar reservas, os depósitos das pessoas estão em risco.”

“Refletindo mais um pouco sobre as medidas impostas no Banco Central da Rússia e a exclusão de alguns bancos do SWIFT, a conclusão é que Putin arrumou uma gigantesca crise financeira para si com direito a muita convulsão social”, disse a economista.

O GGN reproduz abaixo a opinião completa da economista Monica de Bolle:

Por Monica de Bolle

Mas a Rússia tem US$ 630 bilhões em reservas, eles têm dinheiro”. Têm mesmo? Fio curto…

O que são as reservas internacionais? Em geral são a contraparte de transações de comércio e investimentos no balanço de pagamentos de um país (i.e. com o resto do mundo).

Como um banco central detém reservas?

Em ativos líquidos — isto é, que podem ser facilmente transacionados no mercado internacional — mas não em dinheiro vivo. Não há US$ 630 bilhões armazenados em algum cofre blindado subterrâneo.

Reservas são tipicamente detidas na forma de títulos e de ouro. Majoritariamente, títulos. Que títulos? Títulos dos governos que emitem moedas de reserva. Quais moedas de reserva? O dólar, o euro, o iene, e, até, o yuan.

Mas o que isso significa?

Títulos são uma espécie de nota promissória: se o banco central de um país detém títulos do governo de outro, isso significa que o governo do outro país se comprometeu a honrar o valor dos títulos.

Títulos do governo dos EUA no valor de X dólares e maturidade de Y anos…pagarão X dólares em Y anos. A não ser que o banco central resolva antes resgatá-los no mercado secundário. Mas o ponto é: as reservas estão em TÍTULOS, não em $$$$.

Se os governos se recusarem a ressarcir o banco central…

…e os mercados não puderem intermediar essas reservas, acontece o quê?

As reservas nada valem. É por aí que estão indo as medidas contra o banco central da Rússia.

Adendo: Fiz o fio para explicar de forma simples e reduzida como a Rússia será asfixiada financeiramente para quem quiser entender sem ser especialista.

Agradeço de antemão aos que sempre resolvem me explicar algo nos comentários. (Sim, trata-se de ironia).

Mais adendos:

Adendo 1: Entendam a situação sob o seguinte prisma — não importa em que moeda estão denominadas as reservas. As reservas internacionais servem, também, como um colchão de sustentação para o sistema bancário.

Adendo 2: Se o sistema bancário perde a sustentação porque o banco central não pode acionar reservas, os depósitos das pessoas estão em risco. Como? Bancos operam com liquidez fracionada. Nenhum banco consegue ressarcir 100% dos depósitos.

Adendo 3: O resultado é que inevitavelmente a população perceberá isso. De forma rápida. Desvela-se, portanto, a crise bancária clássica, aquela que conhecemos muito bem.

Corridas bancárias são implacáveis e têm dinâmica de tsunami. Não dá tempo de Putin recorrer a ninguém.

Adendo 4 (perdão): O governo pode decidir fechar os bancos na segunda-feira para evitar corrida. Sabemos como isso acaba — em caos social e Putin sem qualquer apoio interno.

Adendo 5: Provavelmente vou acabar “adicionando mais adendos” porque a situação é fluida.

Em tempo: Estou me abstendo de comentários de natureza geopolítica. Não sou especialista na região.

Adendo 6: Há muito o que pensar quando uma invasão à la Século XVIII esbarra num mundo hiperconectado. Jamais presenciamos isso. Como insisti no início da pandemia é importante refletir com a mente aberta. Não há respostas fáceis ou referências — é necessário imaginar.

Adendo 7: O rublo já está derretendo no pre-market trade. Essa é a parte que não precisa das mesmas explicações porque todo mundo aqui sabe o que significa deter moeda que pouco vale. MAS, o caso russo é pior. O rublo caminha para o mesmo destino das moedas podres…

Adendo 8: Suponhamos que as pessoas queiram a devolução dos seus depósitos denominados em rublos — a corrida bancária sobre a qual falava. Suponhamos que o Banco Central imprima rublos para dar conta da demanda e segurar os bancos. O rublo, já derretido, vira pó.

Adendo 9: As pessoas haverão de querer pó? Qualquer pessoa brasileira sabe bem o que isso significa dado o nosso passado. Portanto, refletindo mais um pouco sobre as medidas impostas no Banco Central da Rússia e a exclusão de alguns bancos do SWIFT …

Adendo 10: A conclusão é que Putin arrumou uma gigantesca crise financeira para si com direito a muita convulsão social. Fica restrita à Rússia? Há muito o que observar nos próximos dias.

6 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

ed.

- 2022-03-01 14:27:11

Complementando: Sim, "Putin arrumou uma gigantesca crise financeira...". Mas não para si, senão para quase 150 milhões de pessoas que habitam a Rússia. Pessoas que não pensam nem agem de maneira uniforme, como na maioria dos povos. Ah mas 'Putin os representa". Sim, tanto quanto Bolsonaro 'representa" 70 a 80% dos brasileiros... Não é questão de negar isto. É o jogo. É questão de agir contra Putin através do povo russo, assim como Putin está agindo contra Zelensky através do povo ucraniano. Na verdade, estas sanções e retaliações que avacalham o sistema internacional atingem >3 x mais pessoas que a população equivocadamente atacada por Putin (derivada de um comportamento equivocado e/ou desnecessário da OTAN). Não há muitas ações honestas nesta crise. Só os lamentos perenes de todas as guerras.

ed.

- 2022-03-01 14:07:27

Quem já jogou o jogo de tabuleiro War sabe que as regras não eram lá muito precisas, dando margem a interpretações que variavam um tanto em cada lugar que se jogava, mudando um tanto a forma de se jogar. Mesmo os "Bancos Monopólio/Imobiliário", com regras mais precisas e menos interpretáveis, não passam disso: jogos. Jogos que dependem de sorte, apostas e das táticas para utilizar as regras, além da confiança em que ninguém estará "roubando" ou virará o tabuleiro. Nada é produzido de fato, como seria por ex. num jogo de quem produz mais abacates por hectare ou a maior abóbora com menos tempo e recursos. Quanto mais o mundo é financeirizado, mais ele depende de regras que são inventadas ao gosto e ao interesse dos jogadores, principalmente os mais influentes, como o dono da casa, dos tabuleiros, etc. Tudo isso para dizer que as economias estão cada vez mais sujeitas a regras (ou desregramentos) que cada vez mais as distanciam da lógica econômica (mercado de oferta e demanda de produtos e serviços e não de apostas, jogos, e probabilidades subjetivas) e dos interesses coletivos. O fato é que o bloqueio político de promessas de pagamento ou da guarda de bens desmoraliza o sistema a que pertencem, gerando uma de duas: a submissão à esta desmoralização ou à busca de alternativas. Certo é que alternativas à um sistema desmoralizado e avacalhado (ex. ONU) sempre serão bem vindas. Por uma razão ou por outra.

Marco Paulo

- 2022-03-01 12:24:07

'Se os governos se recusarem a ressarcir o banco central…' Seriam governos caloteiros. Mas nesse caso são heróis. Parece que a hipocrisia grassa nessas terras. Se acompanhasse as mídias russas, além das ocidentais, perceberia que, a pelo menos 4 anos, está ocorrendo um gradativo afastamento da Rússia das economias ocidentais. Alguns analistas russos inclusive falaram e desconexão total da UE, o que eu sempre achei um absurdo enorme dado a integração econômica moderna. Também veria que a dívida/PIB é inferior a 20%, a reserva em moeda de risco, dólar e euro (papel) está reduzido, e a acumulação recorde em ouro físico (não papel). Não estou dizendo que não vá haver uma crise na Rússia, ao contrário, será uma crise gigantesca, mas ao qual me parece que estão devidamente ciente e preparados. Ao contrário da UE que impôs sanções sem o menor planejamento, apenas no espírito punitivista, salvando o que lhe acham importante: energia. No entanto as declarações de ontem da ministra da UE que sabe que as sanções aplicadas irão atingir duramente sua própria economia, prevendo muita dificuldade para os próximos anos, e ainda nem estudaram as prováveis contra sanções russas que devem vir. Não sei nada a respeito disso e ao que parece os russos vão agir no devido tempo, mas estive a imaginar ontem um simples corte de 20% das exportações russas em energia e em terras raras (utilizadas para fabricação de chips de computador) seria devastador para a tão fragilizada economia europeia. Parece afinal que aqueles ideias de desconexão total não eram tão absurdas assim. Será uma catástrofe para ambos os lados, até para o nosso também.

Antonio Uchoa Neto

- 2022-03-01 11:36:38

O que a Monica de Bolle diz, pelo menos na medida de meu parco entendimento de economia, é que o título emitido pelo Governo dos EUA, através do FED, que deveria ser um ato puramente econômico, ou seja, um ato determinado por uma necessidade da economia do país, serve, da mesma forma, como ato político, geoestratégico de médio e longo alcance: “Títulos do governo dos EUA no valor de X dólares e maturidade de Y anos…pagarão X dólares em Y anos. A não ser que o banco central resolva antes resgatá-los no mercado secundário. Mas o ponto é: as reservas estão em TÍTULOS, não em $$$$...Se os governos se recusarem a ressarcir o banco central…e os mercados não puderem intermediar essas reservas, acontece o quê? As reservas nada valem. É por aí que estão indo as medidas contra o banco central da Rússia. Muito bem. Não estaríamos aí entrando no território da Política? Por que ela, então, afirma, alguns parágrafos abaixo, que está se abstendo de comentários de natureza geopolítica. E pior, logo depois, ela diz: “Há muito o que pensar quando uma invasão à la Século XVIII esbarra num mundo hiperconectado. Jamais presenciamos isso. Como insisti no início da pandemia é importante refletir com a mente aberta. Não há respostas fáceis ou referências — é necessário imaginar...” Por que tanta certeza a respeito do que acontecerá com a Rússia, se jamais presenciamos a atual situação nas condições em que se desenrolam agora, e é necessário o uso da imaginação para podermos entendê-la? A questão, ao meu ver, é eminentemente política, e não econômica, e muito menos segundo os moldes clássicos, que obedeciam à lógica de um sistema financeiro que não existe mais. Quando Monica de Bolle avisa que não tratará o aspecto geopolítico da situação, exclui automaticamente dessa situação a China. As transações entre Rússia e China são em dólares? Pelo sistema Swift? E a informação recentíssima de que o ex-ministro japonês Abe está defendendo a nuclearização do território japonês, nos moldes do que a OTAN fez com a Europa? Não está se descortinando aí, uma gigantesca operação geopolítica, estratégica, coordenada? É possível ignorar a geopolítica nesse momento, quando a questão econômica é apenas um instrumento do que está se passando nessa guerra OTAN (EUA) x Rússia? A canina submissão da Europa aos objetivos do governo americano - questão eminentemente geopolítica - não desempenha um papel nisso tudo? Não tenho nada a contestar a Monica de Bolle, quanto a questões de natureza econômica. Nada entendo de economia. Aliás, do pouco que entendo, muito é devido a ela, dentre outros, que usam linguagem de cristão para tratar do assunto. E o que ela explicou, nesse fio, entrou perfeitamente na minha cabeça, e até me esclareceu alguns pontos, quanto à natureza das reservas internacionais, que, ao menos para o objetivo mais que evidente da grande mídia, se resume a um cofre subterrâneo cheio de dólares. Mas, comentar esse assunto, desconsiderando a natureza geopolítica da situação, onde, repito, a questão econômica é mero instrumento, invalida o todo.

IA2

- 2022-03-01 10:34:45

Do livro a TERCEIRA GUERRA MUNDIAL 1985 , de Sir John Hackett um ex-comandante da OTAN, resumo é mais ou menos esse " as lideranças da URSS estão com os problemas listados por Monica de Bolle, o presidente da URSS pra romper o impasse lança um ataque nuclear sobre Birminghan deixando isso claro para a OTAN e aguarda a retaliação e Minsk e destruída nas mesmas condições, ATAQUE NUCLEAR. Iniciam-se as negociações entre URSS e Ocidente com dissolução da URSS". Resumo da ópera, provavelmente assim PUTIN romperá o impasse e em vez da dissolução da URSS como sugerido no livro, que já não mais existe, veremos a dissolução da UE nos moldes como hoje conhecemos, pois terá caído a ficha que não passam de paizinhos que hoje tornaram-se apenas peões no grande jogo da geopolítica mundial, pois afinal o ataque RUSSO foi manobra tática ao não atingir território dos USA. ACONSELHO LER O LIVRO, pois assim será rompido esse impasse por um ESTADISTA que para o bem ou para o mal o é Putin.

José de Almeida Bispo

- 2022-03-01 10:32:33

Economês puro. E eu aqui lembrando do velho Galbraith.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador