O caos da saúde complementar

Coluna Econômica – 19/9/2006
Um dos setores mais mal resolvidos do país é o de saúde suplementar. É um caos administrado por uma porta, a Agência Nacional de Saúde (ANS).

A cadeia produtiva do setor engloba planos de saúde, cooperativas médicas, hospitais, médicos, laboratórios clínicos e laboratórios farmacêuticos. O setor não se fala, não é solidário na administração de custos, não compartilha bancos de dados nem estatísticas, não valoriza a gestão.

O resultado é um caos. Os médicos prescrevem livremente, como se fôssemos um país europeu. Há uma lambança em pedidos de exame, sem avaliação adequada da relação custo/eficácia.

Sem estatísticas e sem metodologia, os planos se defendem da pior maneira. Na ponta do cliente pessoa física, se especializando em arrumar argumentos para não prestar o atendimento. Na ponta da pessoa jurídica, abolindo qualquer análise atuarial. Simplesmente constituem uma carteira de empresas. Se a empresa for superavitária para o plano (o que ela paga é inferior ao que o plano gasta com seus funcionários) é mantida; se deficitária, é afastada sem nenhuma contemplação, como é a prática da Amil, a líder do setor.

Operadoras e seguradoras mais organizadas ao menos tentam manter pequenas empresas em grupo, administrando a carteira e não individualmente. Mas nenhuma investe em programas abrangentes de prevenção, por algumas razões, das quais a principal é o temor de, depois de investir, perder o cliente para concorrentes. A segunda razão é que não adianta uma empresa atuar em cima da sua clientela, mas o setor entender o universo de clientes como um todo unico.

Se o setor fosse minimamente organizado, a questão da prevenção seria trabalhada por todos os planos de saúde atuando de maneira coordenada. Haveria investimento em uma infra-estrutura comum, deixando para a competição o que faz a diferença para o cliente final.

Na relação planos-hospitais, ou planos-laboratórios clínicos, haveria a compra antecipada de leitos ou exames, pagando por capitação (pelo universo da população atendida) tornando quem atua na ponta (hospitais, médicos ou laboratórios) co-respnsável pela administração de custos. E administrar custos não significa meramente reduzir exames, mas conseguir a melhor combinação custo-resolutibilidade. O paciente que não é curado no primeiro atendimento, volta pior e mais caro.

O grande órgão articulador deveria ser a ANS. Caberia a ele providenciar a unificação dos bancos de dados, das estatísticas, criar “ratings” para premiar as boas operadoras e punir as más. Mas é um órgão apático, medroso, incapaz de fiscalizar e incapaz de bloquear as dezenas de operadoras aventureiras que entram e saem do mercado a todo momento.

Agora, como passo final dessa descoordenação, operadoras de planos de saúde começam de novo a verticalizar, a montar hospitais, laboratórios, na contramão da história e do bom senso.

A única saída, em determinado momento, será permitir a entrada de capital externo, que traga conhecimento para a montagem de parcerias e articulação dos diversos atores da cadeia produtiva.

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