Escassez financeira no meio da abundância, por Barry Eichengreen

Liquidez global caiu de 60% do PIB global em 2009 para 30% em 2016

Jornal GGN – Com as taxas de juros em patamares mínimos históricos, e os bancos centrais efetuando compras com frequência, o mundo está cheio de crédito. Porém, e de forma paradoxal, a escassez de liquidez internacional pode colocar a economia global em risco.

Em artigo publicado no site Project Syndicate, o professor de economia da Universidade da Califórnia (Berkeley), Barry Eichengreen, explica que o termo “liquidez internacional” está relacionado a ativos de elevada qualidade, e aceitos em todo o mundo para o pagamento de faturas de importações e serviço da dívida externa – e são os mesmos ativos usados pelos bancos centrais ao intervirem nos mercados cambiais. Entre outras funções, eles também são garantias aceitas para empréstimos transfronteiriços.

“A principal diferença entre estes ativos internacionais e os ativos líquidos genéricos, portanto, é que só os primeiros são aceitos em um grande número de países, e usados regularmente nas transações entre esses países”, explica Eichengreen. “A forma mais importante de liquidez internacional é claramente representada pelos títulos de tesouro dos Estados Unidos, que são detidos por bancos, empresas e governos de outros países”. Segundo o articulista, uma definição mais genérica sobre liquidez internacional considera as responsabilidades dos bancos centrais dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – o seu “dinheiro de alta potência”, as obrigações soberanas desses países classificados como AAA e AA, os títulos de dívida de organizações supranacionais como o Banco Mundial e os bancos de desenvolvimento regional, e o ouro detido por instituições e por particulares.

“Mas se os adicionarmos, chegaremos imediatamente a uma conclusão surpreendente”, diz Eichengreen. “A liquidez internacional caiu de perto de 60% do PIB global em 2009, aos apenas 30% de hoje. Esta mudança deve-se, de igual modo, às quedas das classificações de risco das obrigações soberanas emitidas pelos países altamente endividados durante a crise, o que as torna pouco atraentes para utilização nas transações internacionais, e à inelasticidade de outras fontes de liquidez”.

O articulista explica que  os observadores mostram-se “perplexos” com o fato do comércio global, que avançou mais depressa que o PIB (Produto Interno Bruto) global por um longo período de tempo, agora está avançando mais devagar, e tentam entender ainda a queda no fluxo global de capitais. “A escassez de liquidez internacional, que dificulta o financiamento e a liquidação destas transações transfronteiriças, é uma explicação possível”, diz Eichengreen.

Estimular o governo norte-americano a emitir mais dívida não é visto como uma solução – na visão do economista, faze-lo “só ameaçaria a queda das notas de risco e tornaria os investidores estrangeiros relutantes à detenção de obrigações do tesouro dos EUA”. Uma alternativa poderia ser o estímulo aos países em crise, cujas obrigações perderam o grau de investimento, a arrumar suas finanças, para que esses títulos voltem a ser atraentes. “Mas o fortalecimento financeiro demora, até mesmo para o governo mais empenhado, como qualquer responsável grego pode confirmar”.

Outra opção será o Fundo Monetário Internacional (FMI) aumentar a oferta da liquidez internacional com a emissão de Direitos de Saque  Especiais (DSE), unidades contábeis compostas por dólares norte-americanos, libras Britânicas, euros, ienes Japoneses, e renminbi chineses, e que podem ser creditados nas contas dos países membros do FMI, que são obrigados a aceitá-los em transações transfronteiriças, de acordo com os Artigos do Acordo do Fundo. Entretanto, não existem mercados privados para estes papéis.

“Provavelmente, a solução mais prática será permitir que o FMI se endivide junto dos mercados financeiros privados e use esses proveitos para emitir DSE adicionais. Com a garantia coletiva das suas responsabilidades por parte dos governos-membros, as suas obrigações seriam tão boas quanto o ouro”, pontua o articulista. “Na verdade, para que a sua garantia fosse credível, os membros deveriam comprometer-se a recapitalizar o Fundo, caso alguns dos seus empréstimos incorressem em perdas. Mas nada é grátis”

 

(Adaptação livre por Tatiane Correia)

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5 comentários

  1. Vivemos em uma era de grandes

    Vivemos em uma era de grandes monopólios globais privados combinado com altissma concentração dos meios de

    produção, financeiro e renda. 

    Não há saída suave dentro desta configuração fascista onde não há limites a estes grandes monopólios privados em busca

    por lucros rápidos.

    Tem que romper com esta configuração.

     

  2. Falta de liquidez não é causa, e sim efeito

    A falta de liquedez decorre da perda de confiança em títulos que eram, antes, AAA. Na verdade, eram capital fictício, sem lastro.

    A causa está na economia real: a indústria, em termos globais, está perdendo a capacidade de gerar valor (lucro). Paradoxalmente, isto acontece por causa de sua extrema eficácia. A informática e os robôs abaixaram o custo de produção e, em onsequência, o lucro.

    Os trabalhadores foram/são substituídos por máquinas – na agricultura, indústria e serviços. Máquinas não compram: não há mercado. Os empregos que ainda restam estão se tornando precários e mal pagos: empregos de subsistência: não há mercado.

    Esta crise da economia real vem de longe: desde os anos 80. O neoliberalismo foi uma forma de dar sobrevida ao sistema através do crédito, da dívida e das ações. Em suma, através de overdoses de capital fictício: só assim a farra do consumo pôde continuar no primeiro mundo.

    Agora acabou. Descobriram finalmente que o capital fictício é… fictício! Eureka! Os créditos AAA, agora são ZZZ . Todas as bolhas estão murchando. E não tem volta fordista-keynesiana: produzir não dá mais lucro, lembram? O sistema está colapsando!

    A contradição: nunca fomos capazes de produzir tanto e tão barato. Nunca, como agoras, tivemos condições técnicas de satisfazer as necessidades de todas as pessoas do globo. Pela primeira vez na história poderíamos ficar sem trabalhar ou trabalhar muito pouco e só no que gostamos, pois as máquinas fazem quase tudo. Mas como produzir não dá lucro e não há compradores todos estão na penúria. Excetos os 1% (e até quando vão escapar?).

    Toda esta crise porque nossa economia não se move pela necessidade das pessoas, e sim as do capital. Que precisa crescer e crescer e crescer, infinitamente e a qualquer custo: se não puder crescer, o sistema colapsa. As pessoas? As pessoas são “apenas” uma engrenagem na “máquina do mundo” capitalista: descartáveis. Sábio Marx, vão ter que engoli-lo: só ele chegou às causas verdadeiras, pois desvendou a lógica contraditória do capital.

  3. Não penso  que as máquinas

    Não penso  que as máquinas fazem tudo a ponto de substituir  o humano.  Trabalho em um centro de pesquisa com máquina  poderosas e caras, mas precisamos de pessoas paramexer e traduzir  os seus resultados. Ou indo mais no dia a dia, precisamos de pessoas que limpem a sala da máquina e a conserte quando quebra. Pessoas que enviem os resultados e atenda os clientes. Ainda existe a necessidade de pessoas, mas muitas empresas não querem contratar na medida da necessidade, ou quando fazem, é por um salário indigno.

    Sim, a tecnologia tirou várias funcões antigas, disso  não tenho dúvida.  Por exemplo, eu trabalhava na área de artes gráficas na década de 1970. com a  entrada da computação  vários funções sumiram.  Mas não podemos esquecer  que outras foram criadas.  O problema é que a população só cresce, mas os empregos não seguem a mesma velocidade da demanda. Nem os don os de capital estão disposto  a ver o salário do trabalhador como uma despesa que valha a pena. 

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