A fortuna de Adriano da Nóbrega, o miliciano ligado aos Bolsonaro

Reportagem do Intercept levanta dúvida: por que Adriano da Nóbrega, um milionário, "emprestava" familiares para o esquema de rachadinha de Flávio Bolsonaro?

Jornal GGN – Ex-capitão do Bope, o miliciano Adriano da Nóbrega, ligado aos Bolsonaro, morreu numa operação da polícia da Bahia, há mais de um ano, em fevereiro de 2020. Nóbrega “emprestava” os nomes da mãe e ex-esposa, Raimunda e Daniela, respectivamente, para o esquema de rachadinha de Flávio Bolsonaro, investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

Pelo que se tem notícia, as duas mulheres eram funcionários do gabinete de Flávio na ALERJ. Foram indicadas pelo amigo de Nóbrega e dos Bolsonaro, o ex-assessor Fabrício Queiroz. Elas, como outros funcionários (fantasmas ou não) devolviam parte do salário para o gabinete. Com os recursos que recebia em sua conta corrente, Queiroz pagava despesas da família de Flávio Bolsonaro, como plano de saúde e escola das filhas do hoje senador.

Mas segundo reportagem exclusiva do Intercept Brasil, divulgada nesta sexta (19), Adriano da Nóbrega era um homem milionário e não precisava submeter mãe e ex-esposa aos supostos esquemas de Flávio. Pelo menos não em troca da verba pública desviada do gabinete do ex-deputado.

Nóbrega era dono de um espólio que envolvia milhões de reais em cabeças de gado, negócios no ramo imobiliários com capital de R$ 11 milhões, além de valores nos Estados Unidos que ainda não foram aprofundados na investigação. Através de escutas telefônicas, sabe-se que a viúva de Nóbrega, Julia Lotufo, vivia uma vida luxuosa. Pagava R$ 7 mil no aluguel de uma cobertura na Barra da Tijuca (RJ). Mais R $3 mil em planos de saúde. A fatura do cartão de crédito: R$ 8 mil. A prestação do carro zero km, R$ 1,2 mil. Estas e outras despesas de Julia sequer faziam “cócegas” no bolso do miliciano.

De acordo com o Intercept, quando Nóbrega morreu no confronto com a polícia baiana, seus comparsas passaram a discutir a divisão do espólio. Grampos mostram inclusive brigas na família para ficar com a fortuna, da qual não se tem a real dimensão até agora.

“Adriano da Nóbrega, como revela o levantamento, transformou o Escritório do Crime numa espécie de holding, investindo os lucros da milícia em propriedades rurais, gado, cavalos de raça, posto de gasolina, restaurantes, revenda de veículos, depósitos de bebidas, academia de ginástica, clínica veterinária, empresa de crédito, casas de material de construção, construtoras de pequeno e médio porte, além de duas empresas voltadas ao aluguel de imóveis próprios. Uma delas com capital social de R$ 11 milhões e endereço na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, no Rio. O espólio amealhado pelo ex-caveira conta com bens até em Miami, nos Estados Unidos. Essa fortuna toda foi erguida a partir de atividades ilegais como a cobrança de taxas de segurança, ágio na venda de botijões de gás e de água, exploração de caça-níqueis, agiotagem, assassinatos por encomenda, grilagem de terras e construções irregulares de prédios nas favelas de Rio das Pedras e na Muzema, redutos do Escritório na zona oeste do Rio”, descreveu o Intercept.

De acordo com o site, conversas interceptadas apontaram que as irmãs de Nóbrega disseram a seus interlocutores que ele tinha o “desejo” de deixar toda a fortuna para a mãe, Raimunda Magalhães, que era contratada como assessora fantasma de Flávio Bolsonaro. O hoje senador tenta suspender as investigações do chamado caso Queiroz.

Nos dias seguintes à morte de Nóbrega, seus comparsas foram atrás de 22 cabeças de gado que valiam cerca de R$ 2,2 milhões. Um policial militar, Rodrigo Rego, que escondia mais de meio milhão de reais para Nóbrega afirmou que ficaria com o dinheiro, já que ninguém mais sabia de sua existência. Rego era quem pagava o aluguel de uma casa na Costa do Sauípe, onde Adriano da Nóbrega se escondeu antes de ser pego no sítio em Esplanada, interior da Bahia, onde foi morto pela polícia local.

Em fevereiro de 2020, o jornalista Luis Nassif publicou um xadrez sobre as relações do miliciano com a criação de gados e vaquejadas. Leia aqui: https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-para-entender-as-ligacoes-dos-bolsonaro-com-a-bahia-por-luis-nassif/

Para o Intercept, o Ministério Público do Rio de Janeiro está prevaricando no caso Nóbrega. Primeiro porque não enviou os indícios de crimes levantados contra o PM Rodrigo Rego para a Corregedoria investigar. Segundo, porque passado um ano desde a morte do miliciano ligado aos Bolsonaro, o MP-RJ não avançou com o inquérito. “Os treze smartphones e sete chips apreendidos com o miliciano no sítio de Esplanada seguem no depósito do instituto de criminalística.”

Muitas perguntas e poucas respostas, até agora.

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