Xadrez para entender as ligações dos Bolsonaro com a Bahia, por Luis Nassif

No recente episódio da execução do chefe do Escritório do Crime na Bahia, duas interrogações: qual a razão do miliciano Adriano da Nóbrega ter escolhido a Bahia e ser abrigado por um empresário do ramo das vaquejadas e, depois, com um vereador do PSL; e qual o motivo para Eduardo Bolsonaro estar de passagem por lá.

No recente episódio da execução do chefe do Escritório do Crime na Bahia, duas interrogações: qual a razão do miliciano Adriano da Nóbrega ter escolhido a Bahia e ser abrigado por um empresário do ramo das vaquejadas e, depois, com um vereador do PSL; e qual o motivo para Eduardo Bolsonaro estar de passagem por lá.

Há duas hipóteses de investigação, que podem ou não estar interligadas.

Peça 1 – O caso da Termobahia

Alexandre Rodrigues é um bem-sucedido executivo da Petrobras. Entrou na empresa em 2002, indo trabalhar na Gerência de Desenvolvimento de Soluções Energéticas. Em maio de 2010 assumiu uma cadeira no conselho de administração da Termobahia S.A., empresa de energia da qual a Petrobras é sócia.

No dia 17 de janeiro de 2018, foi indicado novamente para conselheiro da Termobahia.

Em julho de 2018, o grupo chinês Jiangsu Communication Clean Energy Technology (CCETC) anunciou um investimento de R$ 400 milhões para construir duas termoelétricas na Bahia: Camaçari Muricy II e Pecém Energia, de 143 megawatts (MW) cada.

Na fase de queima de ativos da Petrobras, comandada por Pedro Parente, houve a venda de 50% das Termobahia para a francesa Total – a multinacional de petróleo que tinha a preferência de Parente.

No dia 6 de agosto de 2019, a Petrobras anunciou a intenção de juntar as empresas de termoeletricidade e fazer um IPO no mercado, incluindo os 50% restante da Termobahia. Divulgou-se que os chineses poderiam adquirir 100% das térmicas futuramente.

A Kryafs Participações

Pouco antes, no dia 27 de junho de 2019, Flávio Nantes Bolsonaro se tornou sócio da Kryafs Participações, uma holding típica, com a função única de distribuir lucros para os sócios.

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Dentre os sócios, uma família ligada a um escritório de direito.  Mas o nome que chama atenção é o de Alexandre Rodrigues Tavares, o homem da Termobahia, a esta altura alçado ao cargo de presidente do Conselho de Administração.

Ou seja, o governo Bolsonaro toma a decisão de vender sua participação na Termobahia, através de um IPO. Ao mesmo tempo, fica-se sabendo do interesse chinês pela empresa. E, pouco antes, o filho de Jair Bolsonaro se associa ao principal representante da Petrobras na empresa.

Pode ser coincidência; pode ser que não. Fica o registro para acompanhamento.

Peça 2 – o caso das vaquejadas

O fazendeiro que abrigou o miliciano Adriano da Nóbrega em sua fazenda é Leandro José Abreu Guimarães, tido como empresário do ramo da vaquejada.  O setor movimenta R$ 800 milhões por ano, segundo algumas estimativas, em mais de 4 mil eventos anuais. Leandro é empresário do setor, além de seu irmão

Segundo matéria da Folha,

“O empresário e pecuarista Leandro Abreu Guimarães, dono da fazenda e parque de vaquejada Gilton Guimarães, também foi preso durante a operação das polícias da Bahia e do Rio sob acusação de porte ilegal de armas —ele tinha duas espingardas e um revólver não registrados.

Em depoimento, ele confirmou que Adriano utilizou sua propriedade como seu penúltimo esconderijo, segundo a Folha apurou. O ex-capitão, segundo ele, chegou à região de Esplanada no final de 2019 afirmando que estava em busca de fazendas para comprar.

Leandro e Adriano já se conheciam do circuito de vaquejadas, conforme a versão do pecuarista. Herdeiro da terceira geração de uma das principais fazendas de criação de gado da região, Leandro costumava abrigar uma vaquejada anual na fazenda e participava de competições em outras cidades do Nordeste.

O pecuarista afirmou à polícia que conhecia Adriano como um criador de cavalos e disse que não sabia que ele era um foragido da Justiça nem envolvido com crimes”.

Na Receita Federal, é tido como um dos setores preferenciais para lavagem de dinheiro, assim como a indústria clandestina de cigarros e bebidas.

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Como não há parâmetros para definir a lucratividade desses eventos, e a maneira como os organizadores ganham dinheiro, é caminho fácil para lavagem de dinheiro de outras atividades.

As ligações das vaquejadas com o submundo já foram exploradas em várias matérias, mostrando seu papel na lavagem de dinheiro. Recentemente, o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro denunciou bombeiros por corrupção na liberação de vaquejadas, mostrando suas ligações com as milícias.

Qual é a lógica de um chefe miliciano do Rio de Janeiro participar de vaquejadas do Nordeste? É evidente que Leandro não está dizendo a verdade. E se Adriano participasse, de fato, das vaquejadas, seria mais um indício das ligações das vaquejadas com as milícias.

Em 2015, a Operação Pedra 90 da Polícia Federal desasrticulou quadrilha especializada no tráfico de crack no Nordeste. A lavagem do dinheiro se dava através de fazendas, haras, cavalos de vaquejada.

Em 2014 foram presos traficantes que usavam vaquejadas para lavagem de dinheiro.

Em agosto do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro participou da festa do Peão e Boiadeiro em Barretos. Na ocasião, fez as seguintes promessas, segundo reportagem de O Globo..

Numa cerimônia marcada por gritos de “mito”, o presidente da República assinou decreto que estabelece padrões de bem-estar para animais utilizados em festas de rodeio.

Com o decreto, tanto Barreto quanto outras cidades passam a ter autorização para atividades como a Prova do Laço. Além disso, a fiscalização das regras que vão garantir o bem-estar e as condições sanitárias dos animais que participam de rodeios ficará sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura.

— Respeito todas as instituições, mas lealdade eu devo a vocês. O Brasil está acima de tudo. Neste momento em que muitos criticam a festa de peões e a vaquejada, quero dizer com muito orgulho que estou com vocês. Não existe politicamente correto. Existe o que precisa ser feito — disse.

Após o discurso, Bolsonaro deu duas voltas ao redor da arena principal montado em cavalo oferecido pela organização da festa. Em seguida, partiu sem falar com a imprensa.

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23 comentários

  1. Na terça-feira da semana passada O Globo publicou uma reportagem falando da tentativa de captura do Adriano que ocorrera no sábado anterior. Mas uma coisa que tem passado batido na mídia ou as investigações até agora é como ele se mantinha. Na referida reportagem consta que ele estaria num condomínio de mansões ao custo de mil reais por dia.
    https://oglobo.globo.com/rio/policia-encontra-identidade-falsa-usada-pelo-ex-capitao-adriano-da-nobrega-em-mansao-na-bahia-24229370

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  2. Alguém acredita que esses coxinhas do MP e da PF vão investigar alguma coisa, ainda mais sendo ameaçados de morte por esse pessoal barra pesada?

    Ora, pra esses concurseiros emergentes é muuuito mais facil assumir que é tudo inveja dos ricos e prósperos, “intriga da oposição”, dos “esquerdistas”, do Foro de Sao Paulo, etc. É pra isso que serve esse besteirol ideológico todo.

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  3. Taí um grande campo para lavagem de dinheiro…
    matrizes, sêmem, gado leiteiro, de corte e o que sobrou para milicianos? de diversão?

    todos na moita porque Salvador está no radar do MPRJ

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  4. KKKKKKKKKKKKKKKKK.Esse Nassif é f…,e eu aqui comendo alface.Mas ele não deixou claro alguns pontos obscuros que cercam esta putrefata execução do miliciano bolsomorista Adriano Nóbrega.A eles:1) Quem efetivamente atirou no meio da testa do miliciano,policiais bahianos ou cariocas? 2) Qual a real participação da policia civil e militar da Bahia nesse episódio cabiludíssimo?Tinha o comando da Operação ou estava a reboque da carioca?3) Se havia reais condições de captura-lo vivo,a mando de quem partiu a ordem para a execução?4) Sendo o Governador da Bahia,Rui Costa,adversário ferrenho dos Bolsonaros, e o Governador genocida carioca WW,aparentemente desafeto do Clã,,por que motivos os policiais bahianocas(bahianos + cariocas),atiraram primeiro e perguntaram depois?Não necessariamente precisa ser Nassif a responder-me,o espaço está aberto a todos,até mesmo para os que me adoram.

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      • Obrigado bicho,não é muita coisa para quem já leu uns 3 mil livros,e assistiu uns 10 mil filmes.Posso lhe assegurar peremptoriamente que nem todo mundo teve o Papai que eu tive.

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    • Com o alto nível de treinamento a que foi submetido no Bope, exímio no manuseio de armas – como Snipes que era, fica difícil acreditar em confronto em que só ele foi atingido. Só há uma possibilidade: Ele saiu para confraternizar com um amigo carioca que chegava, e foi surpreendido com a execução.

    • Prezado Dermeval, eu tenho exatamente as mesmas dúvidas! Mas não encontro ninguém da midia comentado sobre isso.

  5. Esses meus companheiros daqui são de uma ingenuidade de dar dó.Eles ainda não perceberam que a execução sumária do miliciano bolsomorista Adriano Nóbrega,pode ser o começo do fim.A ver.

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  6. Em língua inglesa se diz que “keeping anger is a danger” (“guardar raiva é um perigo”). Depois de décadas alimentando ódio, aversão a pobres, pretos e esquerdistas contribuiu-se muito para que tal estado das coisas se consolidasse no país. Ingênuo que são (ou enebriados pelo perigo da raiva) acharam que iriam readquirir o suposto controle sobre as bestas feras criadas. Infelizmente, o país não sairá desta pelo caminho do melhor. Entropia é uma regra em tudo o que move-se no mundo físico. Bolsonaro faz parte de um sistema entranhado principalmente na dita elite brasileira: retrógrada, autoritária, insegura, corrompida e desafortunada. Parece que se esqueceram que a normalização de algo, a formação da cultura, a produção de um determinado status quo é conectada com o modus operandi – os hábitos de uma sociedade.

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  7. Essa morte poderia ter sido forjada pela polícia do Moro e Bolsonaro, com o conhecimento de familiares do miliciano e de seu advogado, como um teatro. Até fotos da cena poderiam ser forjadas com o sujeito deitado, com sangue e marcas de tiros falsos. Estando “morto” não seria procurado, nunca mais. Estaria livre pra sempre. Compraram a ideia de que o cara foi morto pela polícia sem questionar. Há algum vídeo da operação pra provar que o miliciano foi realmente morto, tentando enfrentar a polícia sozinho??? A imprensa séria e isenta precisa ter acesso ao corpo, pra ver se é mesmo dele, antes que seja enterrado ou cremado.

  8. Qual o apoio de Bolsonaro nas polícias do Rio e da Bahia.? Não se pode descartar nada. Mas é óbvio a força e influência de Bolsonaro nas polícias de todo o país.

  9. Quando o povo estava prosperando, em junho de 2013 Globo e MBLs da vida fizeram a população crer que estava na merda : agora que estão na merda, pensam estar prosperando,: por isso o silencio sobre o desgoverno necropolitico que ai está é sepulcral: quando 100% dos posts dos grupos de familia eram a politica e o apoio ao golpe, hoje não se pode falar de politica por lá…e assim vamos virando um Grande Haiti e o povo pensar estar prosperando sob o desgoverno do “Jair pode se acostumando ”
    ………….

  10. Não existe coincidência num negocio desses. E ao que parece a familia bolsonaro é especialista em laranjas… A revista Piaui fez uma bom mapeamento sobre o caso Marielle e o Escritorio do Crime com a reportagem A metastese. O que falta é dar seguimento a esse tipo de reportagem e aos xadrezes do GGN.

    • Adoro você minha querida,principalmente por que seus comentários lembram-me a Luluzinha.Isso mesmo,aquela que era apaixonada pelo Bolinha.Um beijo.

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  11. Muito boa a análise. Um típico jogo de xadrez feito pelo Nacif, mas faltou o epílogo. Faltou o xeque-maque. Já o Demerval faz perguntas muito pertinentes que convém sejam verificadas. A resposta a uma que seja dessas perguntas pode nos levar a jogada decisiva, ou pode ser o começo do fim.

  12. + comentários

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