A questão militar e Pazuello: recuo tático ou avanço da militarização?

Ex-ministros da Defesa dizem que é preciso ter uma posição firme neste momento, porque o golpe está a caminho - e o próprio Temer previu o golpe a caminho

O ex-ministro Eduardo Pazuello. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O programa TVGGN 20h (a live diário de Luis Nassif, no nosso canal no Youtube) de sexta (4/6) começa apresentando os dados da covid-19 no Brasil, que não têm tanta novidade – “você tem uma redução relativa de casos e de óbitos na média semanal, mostrando que essa terceira onda você tem por vários indicadores epidemiológicos”, diz Nassif.

Nesta sexta-feira, o país contabilizou 37.936 novos casos de covid-19. A média de casos chegou a 64.211, alta de 6,8% ante o visto há sete dias, mas 0,4% abaixo da média de 14 dias.

Quanto aos óbitos, 727 pessoas perderam a vida para a covid-19. A média de mortes chegou a 1.685, queda de 7,4% ante o visto em sete dias, e de 13,8% ante 14 dias.

A situação militar

Sobre o caso militar, foram feitas várias críticas contra a decisão do Alto Comando das Forças Armadas de não punir o ex-ministro Eduardo Pazuello, e o governador de PE demitiu o secretário de segurança – “um gesto muito relevante nesse momento”, diz Nassif.

Segundo Nassif, diversos ex-ministros da Defesa estão dizendo que “tem que ter uma posição firme neste momento, porque o golpe está a caminho – e o próprio Temer previu que o golpe está a caminho” (leia mais aqui).

“Uma das hipóteses é a seguinte: realmente é um governo militar, esses dez mil militares já se embasbacaram com o poder – você tem melhoria de salário para uma parte, para outra parte tem um aumento enorme de influência”, diz Nassif. “Também uma hipótese levantada pelo senador Renan Calheiros seria uma postura tática: se o ministro da Defesa tivesse punido Pazuello, o presidente da República iria revogar a decisão e restaria a ele a renúncia, e daí poderia entrar alguém alinhado com o Bolsonaro”

“Não é uma informação do senador Renan Calheiros, é uma dedução”, lembra Nassif. “Então, digamos, o que os militares fizeram foi um recuo tático para se preservar no momento do vamos ver. Não sei também o que tem a ver”.

Para discutir a questão, Nassif conversa com Manoel Domingos Neto, professor e historiador especializado em questões militares. Na visão de Domingos Neto, os militares estão contentes. “(Eles) sabiam que seria problemático, o doidão seria difícil de conter. Conheciam bem, sabiam mais do que todo mundo com quem estavam lidando. E estão administrando”.

Para Domingos Neto, são os militares que podem tirar Bolsonaro do poder, a qualquer instante. “Eles têm todas as possibilidades de fazer isso, eles tem as informações, eles sabem o que o rapaz fez no verão passado. Particularmente, o ministro da Defesa – suponho que ele tenha o mínimo de competência depois de uma intervenção no Rio de Janeiro. Agora, estão aí, são muitos cargos, são muitas vantagens, tem o problema geopolítico como sempre”.

“Acho que estão aguardando orientações – olha, fornecedor de arma, equipamento e serviço que pode paralisar as corporações, o que os norte-americanos vão dizer? Há muitas coisas a serem contabilizadas neste jogo”, diz Domingos Neto. “Quanto ao Paulo Sérgio, o comandante, não o conheço e estou buscando penetrar um pouco mais, mas ele reproduz uma postura geral: ele comanda o Exército, ele não pode comandar sozinho, e certamente que essa decisão foi coletiva”

“Todo mundo diz ‘ah, o Exército tá por aqui com o Bolsonaro’, ‘o Exército quer a punição’ – mas ele também quer o emprego, ele quer também o benefício (…) Há muita coisa em jogo nesse negócio, e sobretudo ele não quer reformas sociais”

“O resultado do jogo não está claro. Agora, a sensação que eu tenho é de que nós vamos a uma escalada de agravamento de tensões que pode, não sei quanto tempo aguenta”, diz Domingos Neto, lembrando a entrada de um dado novo: a mobilização popular. “Esse povo todo calado, olhando para o chão, e de repente se anima. No que vai dar isso? Se o povo ficar animado mesmo, acabou. (O povo) é o ator principal, sempre”, ressalta Domingos Neto.

Sobre o conflito entre seguir submisso ao presidente e perder a hierarquia no âmbito das Forças Armadas, Domingos Neto diz que não há Forças Armadas sem hierarquia, mas que também existem outras coisas sem as quais não funcionam, como o interesse coletivo.

“As Forças Armadas já aturaram muitas quebras de hierarquia – o vice-presidente é um quebrador de hierarquia. Ao longo da história só que nós temos são casos de panos quentes em cima de insubordinados, de transgressores”, diz Domingos Neto. “Há sim o princípio hierárquico, mas há a administração do interesse coletivo. E esse interesse coletivo é bastante forte, está bastante enraizado”.

O professor também faz uma crítica ao posicionamento dos setores democráticos: “a atitude da esquerda e dos setores democráticos, claramente expressa é a seguinte: não vamos esticar a corda, não vamos tocar nos militares. O problema é que os militares não estão quietos, eles estão agindo (…)”, alerta.  “Uma coisa a sociedade precisa deixar claro: nós não tememos os militares. Se você passa a ideia de que teme os militares, aí eles vão cantar de galo. Isso não é bom para a democracia. A altivez da luta democrática precisa se revelar nesse momento”, diz Domingos Neto.

Jamil Chade e o debate jurídico

Sobre a entrevista com o repórter Jamil Chade, Nassif destaca a reorganização pós-pandemia: “à medida em que você tem uma Terceira Guerra Mundial, que é essa pandemia depois da crise de 2008, você tem de um lado um conjunto de sentimentos de solidariedade, de redefinição da civilização que está vindo de muitos lugares”

“Por outro lado, você tem uma articulação extremamente eficaz e bem montada da ultradireita, onde participam grandes grupos internacionais – esses grupos de ultradireita que estão ligados a indústria de armas, indústria do lixo, indústria do jogo, que tem no Bolsonaro o grande representante”

“Em outros tempos, você teve a ditadura militar na América Latina, essa parceria com os EUA, que trouxe muito desgaste para os EUA e mostrou, a partir do governo Geisel, que esquemas autoritários não interessam à pax americana. E aí, você acumulou um conjunto enorme de distorções na economia com essa financeirização maluca, com concentração de poder, e aí você tem o exemplo da China, que é um Estado autocrático, que está derrubando todos esses vícios que o mercadismo não resolveu”, explica Nassif.

“Então, o grande desafio que você tem é como o Ocidente consegue remontar o modelo para atacar todos esses vícios dentro de um ambiente democrático. Não é fácil”, diz Nassif. A entrevista com Jamil Chade pode ser vista abaixo

Nassif também destaca o debate jurídico que acontece na TV GGN toda sexta às 18 horas. No programa de hoje, foram abordados temas como delação premiada, os militares e Pazuello e a denúncia contra Marcelo Bretas. O programa pode ser visto abaixo

“O vazamento de delação é criminoso – você tem todo um processo que, antes de começar a delação, você tem que colocar tudo o que você vai oferecer. Então, a partir daí, você aceita começar a conversar e mostra se é realmente aquilo que você prometeu vai ser cumprido”

“Aqui, você tem total distorção. Aqui, você faz a delação e vem o procurador, define se você vai pagar uma multa de R$ 5 milhões ou de R$ 15 milhões, com poder absoluto no tempo da Lava-Jato, porque a imprensa não questionava nada. Tudo o que vinha passava, e agora é o contrário”.

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