A gesta de Canudos (2), por Tebni Pino Saavedra

O antigo Museu Histórico de Canudos, durante um tempo zelador das relíquias da guerra, serve hoje de moradia de ratos e lagartos

A gesta de Canudos (2), por Tebni Pino Saavedra

Nem poderia ser. “todo mundo aqui na roça, diz dona Januária de Souza, era analfabete, aí veio Padre Enoque e ensinou e tudo aprendeu”. Aprendeu, por exemplo, que os grileiros, causantes da perda das terras de sua família, jamais vão gostar do padre, pois é na luta pelo reconhecimento dos direitos dos camponeses onde tem se forjado a maioria dos inimigos da ação pastoral do sacerdote.

O SERTÃO DE CANUDOS

Se o sábado foi quente na parada obrigatória de Bendegó, o domingo não fez por menos. Com a mesma intensidade do dia anterior, nem por isso o calor desestimula os romeiros logo pela manhã. O meio de transporte mais usado na região, o chamado “caminhãozinho”, bujão de gás como combustível habitual por essas latitudes, tábuas atravessadas na estrutura traseira como fossem bancos, enfrenta pouco mais de 20 minutos de poeira e, aos pulos, se adentra por uma trilha que alguém se atreveu um dia a chamar de caminho.

Em meio à caatinga e à vegetação rasteira do sertão, a paisagem parece querer enganar a visão do forasteiro. Os primeiros sinais do verde às margens do açude que sepultou Canudos e um monumento a Antonio Conselheiro mandado construir pelas autoridades, aparecem como sinal inequívoco de nos aproximarmos a um século de história e a cobrar vida na figura dos anciãos da região e nas marcas ainda presentes da guerra.

O antigo Museu Histórico de Canudos, durante um tempo zelador das relíquias da guerra, serve hoje de moradia de ratos e lagartos, símbolo do abandono das autoridades. A estátua de Conselheiro, uma “afronta à verdadeira história do massacre”, nas palavras dos moradores da região, reina solitária no centro do que deveria ser uma praça, transformada pelo tempo em deserto apenas acordado pelas visitas dos curiosos e romeiros, durante os dias de peregrinação.

Próximo dali, o açude esconde sob as águas a torre da igreja construída por Conselheiro, assim como o suporte de cimento que prendeu a famosa “matadeira”, uma metralhadora usada pelas tropas do exército para dizimar a população da comunidade de Belo Monte que resistiu ao ataque.

Barracas de comida e artesanato em volta do cenário das comemorações quebram a monotonia da geografia desértica, apenas avistada de longe pela cruz de madeira com reproduções fotográficas de Antonio Olavo, fotógrafo do movimento, contando em imagens a história dos últimos anos.

Começa então a longa peregrinação de romeiros numa caravana que desce desde o alto até as margens das águas onde será realizado o ofertório dos alimentos celebrado pelo Padre Enoque. Trata-se de uma verdadeira “via crucis”, com encenações do cotidiano dos moradores da região. Nas primeiras paradas, homens mulheres e crianças teatralizam uma feira onde são questionados os fatos políticos e econômicos do Brasil dos anos noventa. Discute-se salários, posse da terra, educação e se revisa a atuação dos políticos que, a cada eleição, aparecem nas cidades vendendo velhas fórmulas para acabar com a seca, a fome, enfim, com a miséria.

Do mesmo modo, com chapéu de couro na cabeça, característica fundamental do sertão, um grupo de homens armados de paus e ferramentas de trabalho forçam a passagem pelos arames farpados que representam a grilagem de suas terras. É o fim da angústia de se sentirem presos à pobreza e uma renovação dos princípios que levaram os retirantes de Antonio Conselheiro a se assentarem nas terras devolutas e secas de Canudos onde criaram e deram vida à sua comunidade.

Tebni Pino Saavedra – Jornalista (Fac. Cásper Líbero). Correspondente para meios do Brasil e Europa

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Observatorio de Geopolitica

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