Economista Carioca: Bairrista ou Cosmpolita?

Enviado por Pedro Penido dos Anjos

Economista Carioca: Bairrista ou Cosmpolita?

Por Fernando Nogueira da Costa

Do Cidadania & Cultura

Meu avô paterno era português. Morava na Avenida Visconde do Pirajá, em Ipanema, no Rio. Meus avós maternos eram mineiros, mas moraram, nos anos 50s, na Avenida Atlântica em Copacabana em apartamento com varandão voltado para o mar. Parte das férias na minha infância eram sempre passadas lá.

Meu pai era mineiro, assim como são nascidos em Minas Gerais minha mãe e meus quatro irmãos. Cada qual já morou em algum canto do mundo. Minha mulher é carioca, filha de paraibanos, meus filhos são paulistas. Já morei em Beagá, Rio, Campinas, Brasília e 2 a 3 dias por semana, durante 4,5 anos, em São Paulo. Portanto, sou apenas um brasileiro!

Bairrista é aquele que devota afeição especial ou exagerada à sua cidade ou ao seu estado e tem sentimentos e/ou atitudes de hostilidade ou de menosprezo para com as demais cidades ou os demais estados. Não é raro encontrar cariocas voltados apenas para o mar e de costas para o Brasil…

Chico Santos e Alessandra Saraiva (Valor, 13/02/15) escreveram um artigo tipo “porque eu me ufano de ser economista carioca!”. Rio desse bairrismo, pois eu me identifico muito com os colegas cariocas. Acho que eles preferem ser vistos como cosmopolitas. É aquele que se porta como um cidadão que habita as grandes cidades e capitais mundiais, visitando-as com frequência e adotando-lhes o espírito urbano, um cidadão do mundo.

“Os cariocas começaram dando as cartas na economia em 2015, aniversário de 450 anos do Rio. A cadeira de ministro da Fazenda passou a ser ocupada por Joaquim Levy, ex-secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro (2007-2010), e para o Ministério do Planejamento foi escolhido o também carioca Nelson Barbosa, ex- secretário-executivo do Ministério da Fazenda (2011-2013). Outro economista carioca, Renato Vilella, que fora secretário-adjunto de Levy na Fazenda do Rio, assumindo seu lugar de 2010 a 2014, foi escolhido para comandar as finanças do Estado de São Paulo.

Com Levy, que tem mestrado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e doutorado pela Universidade de Chicago, o Rio retoma – se assim se pode dizer – o Ministério da Fazenda com um economista de orientação liberal ortodoxa, mesma linha de pensamento do último carioca a ocupar o cargo, Pedro Malan (1995 a 2002). Entre os dois, foram 12 anos de domínio de São Paulo no cargo, dos quais quase 9 (de março de 2006 a dezembro de 2014) com Guido Mantega, de orientação desenvolvimentista. Desta vez, o desenvolvimentista da equipe econômica da presidente Dilma Rousseff é Barbosa, originário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A presença de economistas cariocas, ou radicados no Rio, em posições de destaque no governo é uma constante ao longo do tempo, especialmente após a década de 1930, quando os formados na área foram, aos poucos, passando a ocupar o posto de ministro da Fazenda, cargo antes destinado a políticos. Em 1945, a primeira faculdade de economia foi criada no Rio e tornou-se o polo de formação profissional que constituiria o atual Instituto de Economia da UFRJ.

Nomes como Eugenio Gudin, Octávio Gouvêa de Bulhões, Celso Furtado, Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen e João Paulo dos Reis Velloso, que comandaram ou compartilharam a gestão da economia do país em algum momento, remetem a épocas da história do país que têm como pano de fundo comum a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar e o Corcovado. Com seu trabalho na academia ou no governo, ou no exercício intelectual independente, e de uma forma ou de outra tendo o desenvolvimento como eixo organizador de suas reflexões, todos viveram no Rio papéis marcantes na formação do pensamento econômico no Brasil e construíram seu renome na cidade -, Furtado tendo vindo da Paraíba, Campos do Mato Grosso e Velloso do Piauí.

O Rio tem sido também a principal arena da disputa de prestígio e influência entre desenvolvimentistas e liberais, que permeia o debate econômico desde os anos 1940. Maria da Conceição Tavares, Edmar Bacha, Pedro Malan, Carlos Lessa, Arminio Fraga, Antonio Barros de Castro, Gustavo Franco, João Carlos Ferraz, entre outros, desempenharam ou desempenham papéis de destaque na história recente desse debate e da vida econômica do país.

Em dezembro de 1991, o economista Ricardo Bielschowsky publicou o trabalho “Ideologia e Desenvolvimento: Brasil, 1930-1964″, no qual buscava sintetizar as principais correntes que dominaram o emergente pensamento econômico brasileiro naquele período e os nomes que mais se destacaram em cada uma delas. Bielschowsky relacionou cinco vertentes, denominadas neoliberal (neoclássica ou monetarista ortodoxa); desenvolvimentista (setor público não nacionalista); desenvolvimentista (setor público nacionalista); desenvolvimentista (setor privado); socialista. Situou em categoria à parte o trabalho de Ignácio Rangel, classificado como independente, mas fortemente identificado com desenvolvimentistas e socialistas.

A corrente liberal tinha como condutor principal Eugenio Gudin, considerado pelo desenvolvimentista Bielschowsky, oriundo da Cepal e professor da UFRJ, como “o patrono de todos os economistas brasileiros”, por seu papel no desenvolvimento da ciência econômica no país. Os também cariocas Octávio Gouvêa de Bulhões (ministro da Fazenda de Castello Branco) e Dênio Carvalho (primeiro presidente do Banco Central) e o mineiro Daniel de Carvalho formavam também a linha de frente do liberalismo na época historiada por Bielschowsky.

O mato-grossense Roberto Campos aparece como líder da corrente desenvolvimentista não nacionalista, que contava também, entre outros, com o mineiro Lucas Lopes, um dos principais articuladores do Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961).

Os desenvolvimentistas de linha privatista tinham como maior liderança o empresário paulista Roberto Simonsen, que também transitava entre os desenvolvimentistas nacionalistas, liderados por Furtado e pelo baiano Rômulo Almeida. Entre os que debatiam os rumos da economia brasileira de uma perspectiva socialista destacavam-se Caio Prado Jr. e Nélson Werneck Sodré.

Como capital do país, era natural que o Rio se distinguisse como centro formador e irradiador do pensamento econômico brasileiro, condição que preservaria, em boa parte, mesmo depois da fundação de Brasília, em 1960. O escritório de representação da Cepal no Brasil foi aberto em setembro de 1960 no Rio e só se transferiu para a nova capital em 1978. E era no Rio a sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI), na década de 1940, quando Roberto Simonsen e Eugenio Gudin travaram o primeiro grande debate econômico no país. Enquanto Simonsen defendia forte apoio do Estado à industrialização, Gudin entendia que se deveria deixar que as forças do mercado, caracterizadas, na época, pela influência da economia dominantemente agrária, conduzissem o processo, admitindo-se, no máximo, a intervenção estatal para corrigir distorções no comércio exterior.

Instituições-chave para apoio à gestão governamental constituiram no Rio núcleos de capacitação técnica que atrairiam profissionais interessados em participar da produção de informação e de conhecimento. A carência de dados para dar sustentação ao debate econômico levou à criação, em 1951, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (fundada em 1945), durante muito tempo responsável pelo cálculo do PIB brasileiro e da inflação oficial.

A irreversibilidade da industrialização que se configurava na época do segundo governo Vargas (1950-1954) levou à criação do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDE), em 1952, e da Petrobras em 1953, duas empresas públicas que não trocaram o Rio por Brasília e que ajudaram a adensar a economia carioca e depois fluminense. O BNDE,

que a partir de 1982 passou a ser BNDES, incorporando o “S” de Social, é visto pelos economistas ouvidos pelo Valor para esta reportagem como um importante ator também no papel da cidade como um grande centro de pensamento econômico, mesmo após a perda da condição de capital.

João Carlos Ferraz, professor do IE/UFRJ e diretor de Planejamento, Pesquisa, Acompanhamento Econômico e de Gestão de Riscos do BNDES, lembra que na época da criação do banco não havia, na estrutura de poder do país, ministérios estruturados para formular estratégias econômicas. Caberia ao próprio banco, então, reunir ideias e propor ações, simultaneamente. Além do BNDES, outro importante organismo econômico estatal, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) teve, e continua tendo, grande importância no quadro econômico da cidade do Rio de Janeiro. Fundado em 1964 por João Paulo dos Reis Velloso, o Ipea teve papel importante na formulação do 1o e do 2o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), formulados por João Paulo dos Reis Velloso na época em que foi ministro do Planejamento (1969-1979).

O departamento de Economia da PUC-Rio, com predominância liberal – que forma com o IE/UFRJ e a EPGE/FGV a tríade carioca de expressão acadêmica nacional – nasceu de uma dissidência da EPGE/FGV na década de 1970, liderada por economistas como Dionísio Carneiro, Francisco Lopes, Rogério Werneck e Edmar Bacha. Foram desenvolvidos ali os fundamentos do Plano Real, responsável pela estabilização macroeconômica brasileira em 1994.

Bacha, mineiro-carioca como Ferraz, que, além de ter dirigido o departamento de Economia da PUC-Rio presidiu o BNDES (1995) e o IBGE (1985-1986), a mais importante instituição de pesquisas econômicas e sociais do país, também sediada no Rio, entende que, além de ter sido capital do Brasil, o Rio deve a condição de grande centro de pensamento econômico ao fato de ter sido o berço da FGV, criada originalmente para qualificar funcionários para a administração pública.

“Obviamente, existe a USP. E o grupo do Delfim Neto [formado na USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento] que teve influência, e continua tendo, no pensamento econômico”, diz Bacha.

Na FGV, Bacha destaca o trabalho do economista e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento Mário Henrique Simonsen, na década de 60, quando ajudou a criar a EPGE como escola de pós-graduação, depois também de graduação. Bacha é um dos fundadores de outro importante centro de pensamento econômico da cidade, o Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças. Presidida pela economista Monica Baumgarten de Bolle, afinada com a linha de pensamento dos seus fundadores, originários da equipe que trabalhou nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República (1995-2002).

Monica, formada na PUC-Rio, onde é professora, entende que o perfil da cidade sempre foi mais inclinado para o de uma “zona de inteligência”. Isso porque, diferentemente de São Paulo, nunca se consolidou como centro de negócios. “Sem ser bairrista: em São Paulo, temos centros também há muito tempo, extremamente importantes e com grandes contribuições, mas acho que o Rio tem esse aspecto de ser um centro pensador, é um lugar onde se tem menos aquela coisa frenética de São Paulo, muito orientada pelos negócios”.

O ex-presidente do Banco Central (1999-2003) Armínio Fraga, sócio da Gávea Investimentos, também oriundo da PUC-Rio, considera que o contexto complicado do cenário macroeconômico brasileiro no início da década de 80 ajudou a dar visibilidade aos centros de pensamento sediados no Rio.

Embora outros centros de estudos econômicos importantes, como a Universidade de Campinas (Unicamp) e a Universidade de São Paulo (USP) também buscassem naquele momento saídas para a paralisia que se abateu sobre a economia brasileira, fustigada por um incontrolável surto hiperinflacionário, Fraga avalia que houve uma espécie de esforço concentrado dos estudiosos do Rio que rendeu frutos, projetando novos nomes, inclusive na PUC-Rio.

Segundo Fraga, problemas como a crise do balanço de pagamentos e o descontrole dos preços foram exaustivamente estudados por professores da PUC e nasceram lá, em parte, as ideias que depois contribuíram para a estabilização.

A dissidência na FGV, que levou para a PUC-Rio, entre outros, Francisco Lopes, Dionísio Dias Carneiro e Rogério Werneck, fundadores do curso de mestrado, foi decisiva para estimular o surgimento de novos nomes naquela universidade, inclusive o próprio Fraga, como ele diz: “Dei muita sorte de esse grupo ter ido para lá. Me interessei mais [por economia] e acabei me apaixonando pelo tema”. Ele conta que, inicialmente, estava “dividido” entre várias opções, de finanças a história. “Essas coisas têm uma pitada de destino.”

Fraga observa que não foi só a PUC-Rio que avançou em estudos da crise brasileira dos anos 1980. “Muita reflexão aconteceu ao longo do caminho também na UFRJ e na FGV”. Mário Henrique Simonsen, na FGV, “foi o primeiro a pensar sobre a questão da inércia inflacionária”.

Para outro nome da PUC-Rio, Gustavo Franco, também ex-presidente do Banco Central (1997-1999), os centros de pensamento econômico sempre cultivaram uma espécie de “competição”, que “nem sempre foi amistosa”, mas foi “saudável”, por contribuir para a “melhora acadêmica” (em tom de ironia).

Franco deu sua visão sobre o perfil ideológico dos centros de pensamento econômicos do Rio: “Claramente, a Fundação sempre ocupou o nicho mais à direita, mais [escola de] Chicago. Tem o pessoal marxista na UFRJ, com ramificação na UFF [Universidade Federal Fluminense]. A PUC-Rio é mais ‘mainstream’ [ortodoxa], não tem ninguém de Chicago, é mais outras universidades americanas, escola de pensamento mais eclética”. E disse que há mais gente pensando fora das três grandes escolas: “Temos hoje uma quantidade muito grande de centros de médio porte que acabaram por congregar pessoas bacanas”.

Provocativo, Franco acha que a presença de economistas cariocas no topo da hierarquia governamental também está relacionada com uma formação mais adequada aos cargos. “É o perfil de economista neoliberal, diria um petista mais militante. Esse é o perfil de um diretor do Banco Central, porque não pode ser outro. Não dá para colocar economista da Unicamp diretor do Banco Central, porque o cara não sabe nem que botão apertar. É outra formação. Não estou querendo desfazer. Mas uma pessoa que é especialista em economia marxista não tem que estar nem no Banco Central nem no Ministério da Fazenda.”

Para o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, o Rio não fica a dever a nenhuma outra cidade do país nessa área” [o pensamento econômico]. “A tradição conta e, além disso, a formação de varias gerações de economistas no Brasil e no exterior e o intercâmbio nacional e internacional que esse processo gera permitem e estimulam novas iniciativas e interações entre economistas e profissionais de outras áreas.”

O diretor do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, Luiz Guilherme Schymura, doutor em economia pela EPGE, entende que o fato de o Estado sempre ter desempenhado papel de destaque na condução econômica do Brasil, diferentemente do que ocorreu em outros países, como os Estados Unidos, ajudou a transformar o Rio, na época que era a capital do Império e da República, em um centro de formulação de pensamento econômico, assim como é um polo de vanguarda em outras áreas do conhecimento. Para isso também contribuiu, ao longo do tempo, o fato de a cidade ter sido escolhida como local de moradia por um grande número de intelectuais e artistas nascidos em outras regiões.

Schymura reconhece que a cidade já não é mais tão hegemônica e pondera que a Unicamp criou seu departamento de economia com a ajuda do IE/UFRJ e agora, no seu modo de ver, “a criatura já está mais forte do que o criador”.

Além das interpretações mais comuns, o diretor do Ibre/FGV tem uma teoria diferente para explicar a posição de vanguarda do Rio nos estudos econômicos. “Tem uma certa vantagem estar longe do mercado financeiro e da indústria” [na hora de fazer estudos econômicos]. Segundo Schymura, estudos mostram que “a proximidade faz o intelectual ser mais solidário, mais condescendente [na análise]”. Afastado do principal centro de poder econômico [São Paulo], o economista do Rio estaria mais bem posicionado para interpretar os fenômenos estudados sem uma certa “solidariedade”, que acabaria atrapalhando a exatidão do diagnóstico.

O economista do Rio, assim como o carioca em geral, também teria trazido da condição de antiga capital o hábito de pensar mais nacionalmente do que em termos regionais. Localmente, é preciso admitir, segundo Schymura, que as belezas naturais da cidade sempre foram um atrativo a mais para intelectuais de outras regiões do país.”

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora