“Janot tentou derrubar Temer para impedir escolha de Dodge à PGR”, diz Elio Gaspari

Articulista pondera que entrelinhas da conversa de Dallagnol com os colegas da Lava Jato revelam que Janot expressou desejo de bloquear a escolha de Dodge para o seu lugar

Michel Temer e Rodrigo Janot. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Jornal GGN – Em maio de 2017, o principal projeto do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não era matar o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, mas sim impedir que Raquel Dodge se torna-se a nova PGR. A análise é de Elio Gaspari, na coluna deste domingo (20), na Folha de S.Paulo.

Na segunda-feira passada, 14 de outubro, o site The Intercept Brasil divulgou mais uma reportagem da série “Vaza Jato”, mostrando que a força-tarefa da Lava Jato no Paraná programou a divulgação de denúncias contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no caso do sítio de Atibaia.

Nos trechos revelados, porém, saltam aos olhos a seguinte mensagem do coordenador da Lava Jato Deltan Dallagnol aos colegas: “Janot me disse que não sabe se Raquel é nomeada porque não sabe se o presidente não vai cair”.

A mensagem foi escrita no dia 17 de maio de 2017. Poucas horas antes dessa conversa havia explodido o escândalo do grampo do então presidente Michel Temer com o empresário do grupo JBS Joesley Batista.

Gaspari lembra que a conversa, entre Janot e Joesley, tinha acontecido em março daquele ano. “Janot conhecia o áudio e, desde o início de maio, sabia também que o repórter Lauro Jardim recebera uma narrativa da conversa gravada”, completa.

O articulista avalia que as entrelinhas da conversa de Dallagnol com os colegas da Lava Jato, no dia 17 de maio, revelam que Janot expressou o desejo de bloquear a escolha de Dodge para o seu lugar.

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Possivelmente, Janot achou que a divulgação do áudio entre Temer e Joesley levaria à renúncia do então presidente.

“Antes da explosão do grampo de Joesley Batista, Janot teve pelo menos duas conversas com Temer, tratando da sua substituição na procuradoria-geral, pois seu mandato ia até setembro. Em ambas, criticou os colegas que provavelmente viriam na lista tríplice da guilda de procuradores, esperada para junho. Seu desapreço pela doutora Dodge era enfático”, conta Gaspari.

“Na segunda conversa, Temer cortou a manobra dizendo-lhe que se estivesse interessado em ser reconduzido, seria melhor que se inscrevesse como candidato”, completa o articulista destacando, em seguida, que a conversa de Dallagnol sobre Janot aponta que dificilmente o então procurador-geral iria ao Supremo no dia 11 de maio decidido a atirar em Gilmar Mendes e depois atentar contra a própria vida.

“[Primeiro] que ele [Janot] não estava em Brasília, mas em Belo Horizonte”, observa o repórter. “Ele tinha outro projeto: soltar o grampo de Temer, derrubá-lo, impedir a escolha de Raquel Dodge e, quem sabe, ser reconduzido para a procuradoria-geral”.

O caso sobre a intenção de Janot atirar contra Gilmar Mendes se tornou conhecido pelo público em geral com o recém lançamento de um livro de memórias do ex-PGR. Na biografia, Janot disse que cometeria o crime porque o ministro do Supremo sugeriu que o procurador era suspeito para tratar da Lava Jato por ter uma filha que advogou para a OAS, empreiteira envolvida no escândalo.

3 comentários

  1. Atenção: “, mas sim impedir que Raquel Dodge se torna-se a nova PGR.”

    O correto: “, mas sim impedir que Raquel Dodge se TORNASSE a nova PGR.”

  2. Todo dia consolida-se com mais força a certeza de que o Ministério Público está dominado por pessoas ordinárias, desqualificadas à defesa do interesse público, concurseiros medíocres, interessados em dinheiro e poder político sem voto.
    Por isso, defendo que o atual MP seja extinto e seus membros demitidos para o bem da sociedade. Alguns, como Dallagnol e seu bando, devem ser processados e punidos exemplarmente (prisão + multa milionária) pelos estragos que fizeram na vida dos brasileiros.

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  3. Janot e Dodge: ambos péssimos PGRs. Ambos parciais, ideológicos, representantes de interesses corporativos, de suas panelinhas e disputas internas. Não estiveram à altura do cargo nem honraram a instituição que dirigiram. Passaram longe da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos direitos sociais e individuais indisponíveis.
    Vão ser lembrados pela história como golpistas, medíocres e covardes.

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