O escritor no interior da ampulheta do tempo

ampulheta

Enviado por jns

Do blog A casa de vidro

O escritor no interior da ampulheta do tempo

por Eduardo Carli de Moraes

Uma ampliação da consciência das interconexões que constituem o tecido da realidade parece-me um caminho recompensador para qualquer dentre nós que sente-se como um peregrino buscador de sabedoria. É claro que, como Zaratustra não tardou a descobrir (assim como seu criador, Nietzsche), também há muita solidão e incompreensão na estrada daquele que tenta ficar sábio. Ao seu redor ele tromba com muita frequência com a tolice, a estupidez, a trivialidade, para não falar na perfídia e na crueldade – sabedoria é não pagar na mesma moeda, e responder com razão à desrazão, com doçura à bruteza, com amizade à hostilidade, com fraternidade ao sectarismo, e por aí vai.

Às vezes é mais fácil encontrar sábios entre os mortos do que entre os vivos – muitos “seekers”, para lembrar a canção fodástica do The Who, acabam preferindo a leitura à conversação e preferem a biblioteca ao bar. Eu penso que nada impede aprender sabedoria tanto em bares quanto em bibliotecas – em papos e livros, em filmes e discos, em peças-de-teatro e em palhaçadas – quem é aprendiz aprende até com a sarjeta (todos estamos nela, dizia Oscar Wilde, mas alguns olham para as estrelas ao invés de manter o focinho no vômito…). Gosto da idéia de Simone Weil sobre a atenção, esta virtude subestimada e subpraticada, sem a qual não tem jeito de ficar sábio: prestar atenção, às sinfonias do Schubert e aos pássaros que cantam lá fora,  aos filmes do Bergman e aos cardumes que nadam nos oceanos, aos sonetos de Shakespeare e às palavras de amor que às vezes brotam de lábios humanos como suculentas e nutritivas frutas.

Sabedoria é também saber ouvir os outros, vivos ou mortos, atentando às palavras que escrevem e às palavras que falam, mas também à língua muda, e tão expressiva, da expressão facial e dos trejeitos corporais: às vezes, em silêncio, basta atentar nos olhos de alguém e sabe-se mais do que se poderia após a troca de muitas palavras – o afeto “tá na cara”. Tenho concebido a sabedoria como esforço de ampliação de limites, de busca por melhoria na aposta de que somos perpetuamente perfectíveis e nunca perfeitos. Rompendo a gaiola da verbalidade, percebemos que há muito de expressável que está para além da escrita – que também comunicam, e como, abraços, sorrisos, melodias, batuques, cores, mímicas. Não há escassez de linguagens a aprender e treinar nesta vida que pode ser vista como campo-de-experimentação onde nós, que vivemos em teia, ontologicamente conectados, superemos a falácia ilusória da separação, percebendo-nos cada um e todos como “parte de nós”, para citar um dos achados poéticos do álbum do Diego de Moraes e o Sindicato. Viver até corre o risco de ter sentido se a gente corre atrás de adquirir os meios de expressão que construam pontes e permitam somatórias de forças: aí o túmulo engole a nossa carne, mas não vivemos em vão pois em algo melhoramos o mundo comum, aHannah Arendtiana “esfera pública”.

Leia também:  Genealogia, por Romério Rômulo

 

 

Ultimamente, tenho me sentido movido e influenciado principalmente por autores-ativistas, que li com voracidade e imensos proveitos: penso principalmente em Naomi KleinRaj Patel e Arundhati Roy. Os três são figuras públicas de impacto, ultra-requisitados para palestras e depoimentos a documentários, muito alertas aos acontecimentos contemporâneos, cultos e conhecedores da História, desejosos de fazer uma diferença para melhor e contribuir para um outro mundo possível: para citar o célebre discurso de Arundhati Roy em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial 2003: “another world is not only possible, she’s on her way On a quiet day, I can hear her breathing.” Lendo autores assim, já tão queridos pra mim, como Klein, Patel e Roy, sinto-me preenchido com um grau mínimo de esperança que impede meu naufrágio no iceberg do desespero supremo – como se neles a alternativa sã aos rumos ecocidas e genocidas do capitalismo global já respirasse e nos ensinasse um rumo – mais sábio, decerto, mas difícil. Pois ninguém disse que é fácil.

Ler um romance como The God Of Small Things (O Deus Das Pequenas Coisas) foi para mim um deleite indizível, um banquete verbal delicioso, mas também é sofrido, para alguém com sonhos de um dia vir a escrever algo que preste, testemunhar a senhorita Roy em toda sua genialidade e graça, esmagando auto-estimas de escritores quem piores do que ela e que jamais conseguiriam tecer uma tapeçaria narrativa tão brilhante. Foi, no entanto, inspirador ao extremo: preencheu-me com os mistérios da Índia, com os fascínios pela linguagem, com as indignações fecundas, e posso dizer que sem dúvida nunca mais serei a mesma pessoa que fui antes de devorar, na sequência, todos os livros dela – e aqueles de “não-ficção” são líveis com um grau de prazer equivalente ao que sentimos com os mais gostosos dos poetas (Manoelzin de BarrosAlberto Caeiro,Mário Quintana…).

Peguei-me perguntando-me o que é que torna tão raro um talento literário como este que se manifesta no Deus Das Pequenas Coisas. No meu caso, sinto que ainda há muito chão pela frente até que eu atinja tais poderes de expressão. Percebo que existe dentro de mim uma aporrinhante censura interna, ativa mesmo quando escrevo para mim mesmo, em um caderninho que pretendo conservar secreto  e engavetado. Há confissões que não faríamos em um texto a ser tornado público; mas há também confissões que é difícil de articular até mesmo na solidão de um texto privado. Senti muitas vezes que eu me utilizava da escrita como uma escola de autenticidade, como experimento de sinceridade, como treino na arte de ser verídico. Isso só exacerbou minha suspeita de que somos em geral bem pouco inclinados a admitir toda a verdade sobre nós mesmos (supondo que a conheçamos, o que é supor demais); somos cheios de máscaras e poses; queremos aparecer bem na foto e preferimos a maquiagem ao nu-e-cru.

Leia também:  Desventuras de dois moleques cariocas no Morro do Livramento, por Sebastião Nunes

Call Me Burroughs

Um texto também funciona como uma espécie de selfie em que procuramos excluir da percepção do Outro – o leitor – aquilo que consideramos um chulé psíquico, um cabelo desgranhado na nossa constituição moral ou estética, um sentimento cancerígeno, um desejo feio feito pústula. O escritor “seleciona-se” e silencia muito de si – tudo aquilo que considera que iria chocar, desagradar ou gerar chacota nos leitores. Um pouco do charme punk das obras de Célineou William S. Burroughs é que eles não estão a fim de mentirem que são melhor do que são, não tem pudores de vomitarem no papel suas nóias, seus ódios, seus vícios, seus pensamentos secretos mais inconfessáveis. Sem dúvida, por mais que me desagrade o anti-semitismo célineano ou uma certa glamourização da junkidade em Burroughs, lê-los representou para mim experiência libertária. Aprendi que havia uma escrita que queria revelar os lados sujos e sanguinolentos de nossa existência cheia de som, fúria e hostilidades – que recusavam-se ao kitsch, descrito por Milan Kundera como aquela tendência de varrer a sujeira para baixo do tapete. 

Também andei matutando que os textos podem ser diferenciados, distinguidos, a partir do seu endereçamento: para quem se escreve, e em que “tom-de-voz”? Há quem escreva como quem fala do alto de uma torre de marfim, pontificando da cátedra ou do púlpito; há quem escreva como quem acabou de encontrar um amigo na fila da padaria e quer só “jogar conversa fora”; há quem escreva para lidar com a ameaça da loucura, para pôr ordem no caos interior, realizar pela linguagem alguma catártica terapia; e a panóplia de múltiplas escritas poderia seguir sendo enumerada sem fim em vista. Um texto pode ser mercadoria ou pode recusar-se a ser monetarizado; pode ser um convite ou um tabefe; talvez convoque à ação (como um panfleto anarquista) ou seduza à preguiça (como um anúncio de poltrona); entre os efeitos que podem ser gerados por um texto também reina grande diversidade – inclusive há a chance, terrível, do texto sem efeito. Inútil. Aquele que a ninguém toca e a nada muda. Que é engolido pelo esquecimento, apagado pelas imensas borrachas do tempo. Que leitor algum julga digno de lembrança. E às vezes não é garantido que basta a gente se esforçar para conseguir criar algo digno de sobreviva na posteridade: tem muito texto que os vermes engolem inteiro.

Leia também:  “Os fatos são coisas duvidosas. Contra argumentos não há fatos. Os dilemas da prova penal”, diz Geraldo Prado

De todo modo, acho que ainda vale ouvir a dica de Newton, que só foi quem foi pois subiu nos ombros de gigantes. Ninguém vê longe sem auxílio – de gênios e poetas, de músicas e filmes, de papos e porres, de telescópios e microscópios. Às vezes, bem raramente, um mortal consegue, depois de muito escalar os corpos dos gigantes para observar mais longe lá das alturas, atingir aquela sabedoria que eu evoquei no primeiro parágrafo deste texto aqui… que lanço agora como um pergaminho de bits, numa cybergarrafa, ao oceano da Internet. A que destinos o levarão as marés das vias informativas digitais? De todo modo, não sei existir senão no ímpeto de buscar sabedoria comunicável – e fico replenificado de vida e esperança quando encontro palavras preciosas como estas próximas, que só não grafitei nas paredes do meu quarto pois moro de aluguel e também porque já estão pixadas nas paredes do coração:

“If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers because they know that the forests, the mountains and the rivers protect them. The first step towards reimagining a world gone terribly wrong would be to stop the annihilation of those who have a different imagination—an imagination that is outside of capitalism as well as communism. An imagination which has an altogether different understanding of what constitutes happiness and fulfillment. To gain this philosophical space, it is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past, but who may really be the guides to our future.” —Arundhati Roy

Sabedoria é isso.

Roy

Leia também: In Praise of Arundhati Roy’s “The God Of Small Things”

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15 comentários

  1. Nossa!
    Como eh bom escrever!
    Como eh otimo sairmos deste mundinho, que pelo oficio ou a vida que colocamos somos solitarios, as vezes ate acompanhados com muitos. Como eh gratificante sair da nossa solidao e reencontra em outras solidao.
    Como tem gente inteligente nos fazendo mergulhar em aguas claras da nossa existencia.
    como o texto eh bom de mais!
    Gostaria que nao acabasse mais.
    obrigado!
    bom dia.

    • É necessário…

      Padre Vieira questiona o porquê da Palavra de Deus “fazer pouco fruto”.

      Como é comum nos sermões, o pregador faz uso de perguntas que ele mesmo responde, recurso que permite conduzir o raciocínio lógico do ouvinte.

                                              

      Ele atribui a este questionamento três possibilidades de resposta: as falhas podem ser do pregador, do ouvinte ou de Deus.

      Na busca de encontrar a resposta de seu questionamento, o pregador apresenta sua alegoria, esquematizada da seguinte maneira:

      Para que uma alma se converta

           Pregador – apresentar a doutrina, persuadindo.
           Ouvinte – compreender a mensagem.
           Deus – permitir a compreensão

      Para o homem ver-se a si mesmo

           Olhos – para enxergar
           Espelho – para refletir sua própria imagem
           Luz – iluminar o ambiente para que se veja.

      http://www.infoescola.com/religiao/sermao-da-sexagesima/

    • Fofoca

                          O Mineirinho em sua melhor forma

                          já foi pra dentro pra dentro e pra fora da Norma,

                          uma minha vizinha sem sal, sem tempero e muito morna.

                          (não é poesia, porque agora tô desesperado fugindo da Norma)

                          

      • JNS

        JNS,

        há alguma coisa específica que você queira me dizer além de expor a moça, Norma né, à apreciação pública e insinuar que você é o pavão – ô – misteryozo, sestrozo e gostozo do pedaço e que também ela não pode viver sem você?

        Eu tenho passado muito bem …

        Diga, meu Rei, em que eu posso ser útil?

        • .

                               SÃO POEMAS NÃO CONFESSIONAIS E SEM NORMAS

           

                              

                               NÃO HÁ EXPLICAÇÃO; NÃO ACREDITO EM “NORMAS”

                               NÃO EXISTIRÃO RIMAS COM UM BARULHO DESSES!

  2. Olá, Pessoal
     
    Gostaria de

    Olá, Pessoal

     

    Gostaria de expressar minha alegria em saber que ainda existe VIDA na terra!!

    Obrigado pelo texto!

     

    Um abarço atodos e a todas!!

    • ensurdecedor

                        

                         daquela bandinha fui um bestial baixista

                         mas o excomungado metal pesado me fez autista

                         por tocar apenas as véinhas daquele incensado coralista

      [video:https://youtu.be/jTI4imB0kkY width:600]

      Em 08/07/2011, com a ajuda de um amigo, Luciano Hortêncio editou o primeiro vídeo e inaugurou o seu canal lucianohortencio. A ideia inicial se cingia tão somente a divulgar os CDs do Coral do Estado do Ceará e do Coral de Câmera do Ceará, dos quais Luciano Hortêncio participara como coralista.
      Dizem que “comer e coçar é só começar”. Ao ter o prazer de assistir ao primeiro vídeo postado no YouTube, o frevo “Vassourinhas”, ele sentiu que não poderia mais parar. A oportunidade de dividir a emoção de ouvir as músicas de sua preferência com os internautas era algo que o instigava a prosseguir. Ele foi em frente.
      Com pouco mais de um ano de existência do canal, e com o número de visualizações aumentando consideravelmente, graças à força recebida dos participantes do Blog Luis Nassif Online, Luciano Hortêncio alcançou a meta de postar o 1.000º vídeo.
      Ontem, (08/07/2013) o canal lucianohortencio, comemorando o seu segundo ano de existência, postou o 2.000º vídeo. Escolheu para celebrar este feito a composição mais cantada e gravada do idioma espanhol, “Besame Mucho”, de autoria da compositora mexicana Consuelo Velázquez, na interpretação magistral de Leny Eversong, ainda no começo de sua carreira.

      [video:https://youtu.be/VHHcvmq6WMg width:600]

      Info: http://blogdopg.blogspot.com.br/2013/07/o-canal-de-luciano-hortencio.html

  3. J N S tem cada sacada digna

    J N S tem cada sacada digna de registro.

      No meu entender, vc está entre os 5 melhores que trazem ÓTIMAS contribuições para o blog.

              É uma delícia ler seus escritos.E assistir tbm.

                Parabéns !

    • Ronda Anárquica

                          Numa da minhas trêbadas rondas pela cidade

                          o Vampiro de Curitiba me convidou pra fazer um despacho,

                          mas o desnaturado Samurai Malandro me alertou:

                          não é por aí velho, “o meu destino eu mesmo traço”.

                          A atrevida a Anna me acompanhou e descobriu que

                          “quando eu vou eu vou sem pena, pena vai ter quem ficar”

                           anarquizando seriamente esse lugar.

      [video:https://youtu.be/7QMpdu0RdjQ width:600]

    • Acredite se quiser

                         Nem cabritos

                         Nem os Beatles

                         Só meu São Benedito

                         Viram o pau comer

                         Neste mirante infinito

      [video:https://youtu.be/l_lrs3aruEw width:600]

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