O Homem Cordial e o Ópio do Povo, por Marco Paulo Bernardino

Enviado por Edsonmarcon

Duas frases muito conhecidas, mas pouco entendidas.

Aliás, eu acho que uma característica “cordialidade” do brasileiro, o “assistencialismo patriarcalista (atribuir ao patrão, governante, chefe, ou superior hierárquico a tarefa de provedor ou salvador)” explica a (falta de) política do povo brasileiro.

Do Bule Voador

O Homem Cordial e o Ópio do Povo

Marco Paulo Bernardino

Minha experiência em debates informais me ensinou que grande parte das vezes as pessoas usam citações sacadas de textos que nunca leram. E frequentemente as usam sem entender, dando a elas uma interpretação diferente da que o autor desejou. Um exemplo clássico é a expressão do historiador Sergio Buarque de Holanda ao se referir ao brasileiro como homem cordial. É comum citarem a expressão, com certo orgulho, como se constatassem uma qualidade referente à educação, um comportamento gentil, do brasileiro. Outra citação mal compreendida é a crítica que Karl Marx faz à religião: ela é o ópio do povo. Na maior parte das vezes, o máximo que as pessoas sabem de Karl Marx é que ele tem alguma coisa a ver com o comunismo. Mas muitos conhecem a famosa expressão que associa o tóxico à religião. Com Sergio Buarque de Holanda ocorre algo semelhante, já que a maioria das pessoas que atribui ao brasileiro uma supostamente polida gentileza não conhece nenhum outro Buarque de Holanda que não seja Chico, seu filho.

O brasileiro é cordial

Sergio Buarque de Holanda nasceu em 11 de julho de 1902, na cidade de São Paulo, onde também faleceu em 24 de abril de 1982. Foi um dos mais importantes historiadores do Brasil, autor de obras clássicas como Raízes do Brasil (1936) e Do Império à República (1972). Atuou como crítico literário, pesquisador, jornalista e professor em importantes universidades Brasil e do exterior. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em 1980.

Em Raízes do Brasil, o autor constatou no brasileiro um “pavor […] em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência” (HOLANDA, p. 147). Uma das causas desse pavor da vida social é a dificuldade que o brasileiro teria de lidar com as formalidades, os ritos sociais e as relações objetivas, racionais e impessoais. O grande valor dado às relações emocionais, em parte devido à forma como a família patriarcal tradicional educa seus filhos, leva a “limitações que os vínculos familiares demasiado estreitos, e não raro opressivos, podem impor à vida ulterior dos indivíduos” na sociedade (HOLANDA, p. 144). A tendência para imprimir intimidade e familiaridade às relações sociais – inclusive nas de hierarquia, nas comerciais e nas empresariais -, a omissão de nomes de família no trato social e, na linguagem, o gosto pelos diminutivos revelam o esforço do brasileiro para suavizar as formalidades e tornar pessoas e objetos “mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los do coração” (HOLANDA, p. 148).

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Nisso consiste a “cordialidade” do brasileiro: a tendência de tudo aproximar do coração (a palavra cordial vem do latim e significa “do coração”). Se, por um lado, poderíamos encontrar qualidades nesse comportamento exacerbadamente emocional, por outro ficam evidentes seus efeitos nefastos. O patrimonialismo (tratar conforme interesses privados e familiares os bens públicos), a corrupção (que também se manifesta como um acerto particular para se evitar uma regra ou obrigação pública), e o assistencialismo patriarcalista (atribuir ao patrão, governante, chefe, ou superior hierárquico a tarefa de provedor ou salvador) são características comuns do brasileiro que podem ser, em grande parte, atribuídas a essa cordialidade.

 

A religião é o ópio do povo

Karl Heinrich Marx nasceu em 5 de maio de 1818, na cidade de Tréveris, Alemanha, e faleceu em Londres, Inglaterra, em 14 de março de 1883. Foi um dos mais importantes intelectuais da Idade Moderna, tendo atuado como economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista. Na política, foi um dos fundadores do primeiro Partido Comunista da história. Teórico do comunismo moderno e perspicaz crítico do capitalismo industrial, seu pensamento e escritos tiveram grande impacto em diversas áreas do conhecimento humano como Filosofia, Geografia, História, Direito, Sociologia, Literatura, Pedagogia, Ciência Política, Antropologia, Economia e Teologia. Outras áreas que também souberam tirar proveito de suas categorias são Biologia, Psicologia, Comunicação, Administração, Arquitetura e Ecologia. Algumas de suas obras mais clássicas são A Ideologia Alemã (1845), Manifesto Comunista (1848), O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852) e O Capital (1867).

Karl Marx era um autor preocupado em entender as origens e formas da opressão e exploração das classes trabalhadoras. A crítica de Karl Marx à religião tem natureza sociológica e histórica. Para ele, “o homem faz a religião, a religião não faz o homem” (MARX, p. 145). Criada pelo homem, em específico pelo homem que domina o homem, a religião constrói um mundo que não existe, um mundo irreal, que é a inversão do mundo real. A religião é uma superestrutura, sistema ideológico, que fundamenta a dominação e exploração do povo. Com efeito, ao ensinar que existe um mundo espiritual estratificado em hierarquias com governantes absolutos, que há valor na submissão, que o sofrimento injusto deve ser suportado como meio de purificação e melhoramento e que o mundo na terra, corrompido e efêmero, é reflexo imperfeito do mundo espiritual, perfeito e eterno, a religião legitima as autoridades e elites, domestica os dominados e sufoca o desejo de revolta do injustiçado, mediante a promessa de felicidade (e, por que não dizer, vingança) numa vida celestial futura, considerada mais real e verdadeira que a terrena presente. Agindo como um anestésico ou um ansiolítico, uma droga que amortece os sentidos, “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo” (MARX, p. 145).

Assim, para Karl Marx, criticar a religião é expor as injustiças e provocar a mudança deste mundo, o único real. “A exigência de que [as pessoas] abandonem as ilusões acerca de uma condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões” (MARX, p. 146), ou seja, pela desconstrução das ilusões a que o povo está submetido pelas religiões, o homem descobre a situação de exploração a que está submetido e pode assumir a responsabilidade pela mudança de sua condição. “A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não gira em torno de si mesmo. […] A crítica do céu transforma-se, assim, na crítica da terra, a crítica da religião, na crítica do direito, a crítica da teologia, na crítica da política” (MARX, p. 146).

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O homem cordial e a religião

A religiosidade do brasileiro não poderia estar imune à influência de sua cordialidade. Ao tempo em que na Europa não Ibérica a religiosidade é mais afeita aos ritos e praticada numa perspectiva mais comunitária, no Brasil, assim como na América Latina, a religião tende a ser vivenciada como experiência individual e emocional. Isso produz uma religiosidade mais pessoal, flexível e superficial. Sergio Buarque de Holanda sustentou que o brasileiro pratica “uma religiosidade de superfície, menos atenta ao sentido íntimo das cerimônias do que ao colorido e à pompa exterior” (HOLANDA, p. 150). Ele tinha em mente a prática do catolicismo, mas podemos estender o mesmo diagnóstico às igrejas evangélicas. A religiosidade do homem cordial é resultado de um acordo direto entre o crente e seu Deus, que se torna seu amigo íntimo, um protetor e provedor particular.  Esse crente tende a se desconectar dos assuntos da vida pública, se desinteressando da política. Sua religiosidade, não só o aliena de sua situação social e econômica, como também enfraquece o poder político das igrejas institucionais (o atual fenômeno de crescimento de influência política de alguns líderes religiosos conservadores é somente outro sintoma do enfraquecimento de poder político das instituições religiosas).

Quando Karl Marx deu seu diagnóstico sobre os efeitos opiáceos da religião, tinha em perspectiva a que é praticada na Europa. No Velho Continente a crítica da religião levou à desilusão e ao crescimento do agnosticismo e ateísmo nas últimas décadas. Mas a religiosidade do homem cordial é mais flexível, o que a torna mais resistente à crítica do materialismo histórico. A crítica da religião no Brasil, em alguns casos, tem levado a formas alternativas de religiosidade, na melhor expressão individualista da frase “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”.

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Se tivesse visitado o Brasil, Karl Marx provavelmente teria constatado que o homem cordial é muito mais susceptível ao vício do ópio religioso.

REFERÊNCIAS

HOLANDA, Sérgio B. O Homem Cordial. Seleção SCHWARCZ, Lilia M.; BOTELHO, André. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
MARX, Karl H. Crítica da filosofia do direito de Hegel. 2ª ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010.

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2 comentários

  1. Pauta

    Que tal analisar semanticamente a frase de FHC, antes que este nos peça que a esqueçamos: – “Nunca como antes se roubou tanto na história deste País.” Deve ter sido um “ato fálico” igual aos atos falhos em série perpetrados pelo Aécio, mas ninguém atentou à descuidada confissão do octogenário…

  2. Batuque na cozinha sinhá num qué….

    Bom texto meu caro debatedor autor.

    Estou aqui, na minha biblioteca, consultando estes  livros – também já os li  –  e vejo que suas citações foram honestas.

    O  seu pararelo  entre Marx e Buarque de Holanda foi, digamos, interessante.

    Isso porque, pelo que já tive acesso, o Buarque de Holanda estaria mais para um  “Max Weber” do Brasil a um Marx brasileiro.

    Marx brasileiro foi, entre outros, e curiosamente, o Prado. ( sei que você não disse que este seria aquele ou vice versa. Só estou desdobrando sua provocação)

    E Max Weber não segue bem assim, um karl Marx da vida né mesmo? Ética protestante com ou sem espírito é bem diferente de “escravos do mundo, uni-os. rsrsr

    Por outro lado, essa “cordialidade brasileira( que você mencionou e explicou com propriedade e honestidade intelectual) parece-me ainda mais profunda. 

    Há, salvo engano, mudança do pensamento do próprio Buarque de Holanda, na edição dos anos de 1940. Ou dele ou do Freyre.

    Noutra linha, o Freyre teria vindo antes e teria sido algúem que o “inspirou”. Mas, antes do Freyre tem outros. E antes destes outros tem mais uma infinidade  de outros  autores, sobretudo,  estrangeiros que interpretaram o Brasil e publicaram  mais de 400 livros, salvo engano. Ou seja, o Brasil parece ser mais conhecido por estrangeiros do que por brasileiros “cordiais”.

    As ruas tortas das cidades brasileiras , a la portugal, não me parecem  espelhar o “positivismo” da ordem e do progresso. Eis aí um momento de “turbulência” da década de 1930  na tentativa de ” apaziguar” ou explicar nosso “patrimonialismo” familiar “cordial” que se encontrava em “turbulência” com a quebra do “café com leite”.

    Lado outro, o mundo duro de Max Weber não me parece combinar com isso. Lembrando aqui do paralelo com  o mundo de Niklas Luhamann aitopoiético, feito, magistralmente por ninguem menos que Gabriel Cohn.

    Mas, a vida continua.

    E continua agora com o outro lado da “cordialidade” . 

    Ou talvez, quem sabe, com alguns indícios do “presidente negro” do Lobato.

     

    Cordialmente…

     

     

     

     

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