4 de junho de 2026

Oração, por Fernando Pessoa

Fernando Pessoa cresceu na África do Sul e era fluente na língua de Shakespeare. Este poema foi escrito originalmente em inglês, a tradução, não integral, é de Jorge Pontual

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Oração

Fernando Pessoa

Tradução de Jorge Pontual

 

Nossa Senhora das lágrimas vãs,

Dai ao meu coração o vosso ninho.

Adoeço em infindáveis manhãs

E me embebedo com o amargo vinho

De só conhecer  angústias mal sãs,

De não saber senão viver sozinho.

 

Reconheço que imploro a vós em vão,

Mas meu coração só conhece a dor.

Um vosso olhar seria a salvação,

Mesmo que seja um olhar de horror.

Concedei-me que eu volte a ser irmão

Do vosso menino, Nosso Senhor.

Meu sentido de mim é todo pranto,

De mim mesmo só tenho muita pena.

Oh colo dos meus medos acalanto

Agarro-me a vós, criança pequena.

Quisera vos ver viva por encanto

A minha mão na vossa mão serena.

 

Há muito tempo perdi o sabor

Da fé, e tenho ânsia de oração

Meu coração é um jardim sem flor,

Nos meus brancos cabelos, vossa mão

De mãe deixai repousar com amor

E deixai-me morrer por compaixão.

 

 

17 – PRAYER

 

Our lady of Useless Tears,

        Thine is my heart’s best shrine.

I am sick with the gorging years,

        I am drunk with the bitter wine

Of having but cares and fears,

        Of knowing but how to pine.

 

It is useless to pray to thee,

        But my heart is full of pain.

Thy glance would be charity,

        Even if the look were disdain.

Give me that I may be

        A child like thine again.

 

My sense of me is all tears.

        I pity my heart too much.

O a cradle for my fears

        And the hem of thy garment to clutch!

O wert thou alive and near us,

        And thy hand a hand that could touch!

 

l do not know how to pray.

        My heart is a torn pall.

See how my hair grows gray.

        O teach my lips to call

On thy name night and day

        As if that name were all.

 

My fathers’ faith doth rise

        To my lips this sick hour.

I pray to thee with mine eyes

        Rosaries of anguish. O dower

My soul.with a least sweet lies

        Of thy suffering son’s power!

 

 

I have forgotten the taste

        Of faith, and ache for prayer.

My heart is a garden laid waste.

        O thy hand on my hair

Like a mother’s hand let rest

        And let me die with it there!

 

…………………………………………………………………………………………………………………………..

1913

«The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995.

  – 352.

1ª publ. in O Louco Rabequista. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de José Blanc de Portugal.) Lisboa: Presença, 1988.

 

Fonte: Arquivo Pessoa – Obra Édita

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3 Comentários
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  1. maria rodrigues

    1 de outubro de 2014 12:17 pm

    Poema lindo, como lindo é

    Poema lindo, como lindo é tudo que escrveu Fernando Pessoa. 

  2. José Luiz Amzalak

    1 de outubro de 2014 2:02 pm

    Sugestão para corrigir o título da obra.

    O título do livro é Poemas Ingleses e não Poesia Inglesa.

  3. Anna Paula Dutra

    1 de outubro de 2014 2:26 pm

    “Se te é impossível viver só,

    “Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

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