André Cintra: Na companhia de Paulo Henrique Amorim

Paulo Henrique Amorim morreu na manhã de hoje, vítima de um infarto fulminante, que provavelmente será associado à execrável perseguição da qual ele vinha sendo vítima nesta era bolsonarista

do Vermelho 

André Cintra: Na companhia de Paulo Henrique Amorim

por André Cintra

Era maio de 2010, e meu filho mais velho, o Pedro, acabara de nascer. Eu ainda estava na Maternidade Santa Catarina, na Avenida Paulista, quando recebi o telefonema do Altamiro Borges, o Miro. Com muito jeito (e quem conhece o Miro sabe do que falo), ele perguntou se eu podia interromper por algumas horas a licença paternidade: “É uma coisa meio urgente, papai André. Veja se não vai te atrapalhar”. Respondi que precisava consultar a esposa, mas, no final, deu tudo certo. 

Na tarde seguinte, o Miro e eu fomos ao escritório do Paulo Henrique Amorim em São Paulo. A “coisa meio urgente” era o projeto de um livro de (digamos assim) memórias e denúncias sobre o PiG (Partido da Imprensa Golpista) – a forma como o PHA chamava o conjunto da grande mídia brasileira. Ele pediu ao Miro a indicação de alguém que lesse os originais de forma crítica e rápida, mas sem alarde. Alguém que, após a leitura, checasse as informações, desse uma opinião sincera e ajudasse a transformar o conteúdo num livro.

Foi assim que, com alguns anos de antecedência do público, li boa parte do que viria a se transformar no ótimo “O Quarto Poder – Uma Outra História”. A ideia inicial era lançar o livro em agosto de 2010, durante o 1º Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas. A Editora Anita Garibaldi e a Fundação Maurício Grabois se ofereceram para viabilizar o projeto.

O PHA, no entanto, preferiu esperar um pouco – talvez para ver no que ia dar o futuro governo Dilma; talvez para reler tudo com calma, sem os arroubos da hora; ou talvez porque soubesse que um escrito com tantas denúncias de bastidores merecesse mais cautela, um bom crivo jurídico e muita paciência. Quando foi, enfim, lançado, em 2015, pela Editora Hedra, com 560 páginas, “O Quarto Poder” tinha um texto mais lapidado e preciso – mas igualmente cortante, à moda Paulo Henrique Amorim.

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PHA e eu nos encontramos pela primeira vez em outubro de 2006, em meio ao segundo turno da eleição presidencial, entre Lula e Alckmin. Era a segunda de uma série de três entrevistas que a Priscila Lobregatte e eu realizamos para o Portal Vermelho, a fim de tratar da cobertura eleitoral da grande mídia – os outros entrevistados foram o Luis Nassif e o Raimundo Rodrigues Pereira.

Essa primeira conversa ocorreu na Redação do iG, na Rua Amauri, no Itaim Bibi. Quando a Priscila e eu chegamos, PHA falava ao telefone com Orestes Quércia. Assim que encerrou a ligação, ele nos cumprimentou e disse que, dias antes, elogiara o PCdoB numa postagem no Conversa Afiada. “Vocês leram o que escrevi – que o PCdoB é hoje o único partido que sabe fazer jornalismo na internet?”, repetiu ele. “E você acha que a gente estaria aqui se você não tivesse escrito isso?”, brinquei.

Dois anos depois, fizemos uma nova série no Vermelho com os mesmos entrevistados – mas desta vez a conversa com PHA foi nos estúdios da TV Record, na Barra Funda. Cada entrevista se estendia de uma a duas horas. Fui informado, dia desses, que as duas séries são muito citadas em trabalhos acadêmicos no campo da comunicação – o que dá, claro, uma sensação de recompensa.

Após as entrevistas de 2006 e 2008, Paulo Henrique Amorim se tornou uma figura mais presente no dia a dia do Vermelho e do próprio PCdoB. Em 2009, quando o portal decidiu realizar debates sobre a mídia, sugeri ao Miro que convidássemos o PHA para um dos eventos. Por uma boa coincidência, o debate do qual ele participou ocorreu no dia do meu aniversário, 7 de agosto, uma sexta-feira. Foi a primeira vez que o auditório do PCdoB, na Rua Rego Freitas, lotou, a ponto de parte do público ter sido barrada na recepção. Terminado o bate-papo, tive o privilégio de contar com o PHA, por alguns minutos, na comemoração dos meus 29 anos, num boteco ali perto.

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Se o Miro me chamou para organizar o livro do PHA, meses depois, não foi à toa: embora eu já tivesse razoável experiência em projetos editoriais e fosse editor de “Mídia” do Portal Vermelho, o fator mais decisivo para o convite foi, sem dúvida, minha ótima relação com o próprio Paulo Henrique Amorim. Numa época pré-redes sociais, volta e meia eu discava para o celular do PHA e fazia perguntas sobre posts dele no Conversa Afiada, buscava sugestões sobre matérias que eu estava fazendo ou mesmo tomava breves depoimentos dele.

Ficamos ainda mais próximos entre 2010 e 2011, devido à organização do Encontro dos Blogueiros Progressistas e à fundação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé – duas iniciativas com que me envolvi pela retaguarda, sobretudo na fase de divulgação. As reuniões eram quase semanais e reuniam, além do Miro e do PHA, nomes como Luiz Carlos Azenha, Renato Rovai, Rodrigo Vianna, Eduardo Guimarães e Conceição Lemes. O Luis Nassif, mais esporadicamente, também comparecia. Eu era uma testemunha privilegiada, quase invisível, acompanhando tudo e curtindo a turma.

A fotografia que ilustra este texto é de um daqueles dias. PHA estava de passagem na Redação do Vermelho, assim como meu filho Pedro, já com alguns meses de vida. Encontrei Paulo Henrique de saída, um pouco apressado, mas “exigi” o clique, tirando onda: “Como você me afastou da maternidade quando ele nasceu, ao menos bata esta foto, vai…”.

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Deixei o Vermelho e os encontros com os jornalistas-blogueiros um tempinho depois, ao me tornar assessor da Prefeitura de São Paulo. Só voltei a ver Paulo Henrique Amorim poucas vezes – três ou quatro –, e deixo aqui registrado que ele sempre me tratou com educação, simpatia e, acima de tudo, bom humor. Era um piadista de primeira!

Paulo Henrique Amorim morreu na manhã de hoje, vítima de um infarto fulminante, que provavelmente será associado à execrável perseguição da qual ele vinha sendo vítima nesta era bolsonarista. Para mim, o que fica são boas lembranças e saudade. Para o jornalismo, resta uma amarga sensação de que, como na “Divina Comédia”, estamos, agora, um pouco mais “perdidos na selva escura”.

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