A mídia empresarial e a corrosão dos valores democráticos, por Gaudêncio Frigotto

Latuff

da Carta Maior

A mídia empresarial e a corrosão dos valores democráticos

O Brasil prova a frase de Joseph Pulitzer: ‘Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma’

Gaudêncio Frigotto

Um dos temas mais cruciais hoje para a vida democrática no Brasil é a necessidade inadiável de assumir o debate sobre as corporações empresariais que detém o monopólio da informação. Não por acaso, um tema que, de imediato, essas próprias corporações esgrimam em suas redes de TV, rádio e seus jornais, no esforço de convencer mentes e corações que a censura voltou  e  se está cometendo o maior atentado contra a democracia. Democracia por elas entendida como defesa do mundo privado.

O filme documentário de Camilo Galli Tavares – O dia que durou 21 anos,mostra o quanto foi decisiva a grande mídia no golpe civil e militar de 1964. O que se revela no documentárioé que estamídia agiu nos bastidores com políticos brasileiros e dos Estados Unidos e, diretamente, com as pautas diárias induzindo a opinião da classe média e das grandes massas, a respeito da suposta ameaça comunista, que estaria às nossas portas.

Mas valeria, também, analisar os tempos que precederam a morte de Getúlio Vargas.  Esse retrospecto pode nos ajudar a ver com meridiana clareza que esta mesma mídia está implicada diuturnamente em fomentar asmassas para manter privilégios de grupos e, no momento, legitimar o golpe institucional que está em processo e que representará um retrocesso pior, porque mais profundo, do que o golpe de 1964.

As consequências sociais e políticas podem ser dramáticas, pois as três décadas de frágil ordem democrática permitiram formar sindicatos, organizações científicas, culturais e movimentos sociais e populares que não existiam em 1964 e que certamente não se calarão. Osefeitos podem não ser no dia seguinte ao golpe se consumado, mas logo quando  grandes massas se perceberem da manipulação a que foram submetidas por uma minoria rica, cínica e prepotente representada em todas as esferas institucionais do país.

Pela Constituição brasileira, os meios de comunicação são concessão do Estado e deveriam atender aos interesses universais e não privados. Portanto, interesses democráticos. Mas a imprensa empresarial privada e monopolizada é, por definição, anti democrática. Vale dizer, atende aos interesses  de grupos e não aos interesses da  sociedade no seu conjunto.  O argumento de que o controle social da mídia é censura dissimula o caráter de censura da grande mídia empresarial ao pensamento divergente, fermento da ordem democrática.

Os estudosacadêmicos sobre o caráter parcial, direcionado, seletivo da grande mídia monopolizada são abundantes. No plano internacional, as análises de um dos maiores sociólogos do Século XX, o francês Pierre Bourdieu, e do linguista e cientista político Noam Chomsky, mostram o quão parcial e demolidora dos direitos à informação livre é a mídia monopolizada mundialmente. 

No Brasil poucas vozes de juristas, políticos e intelectuais  têm  se manifestado sobre o risco da manipulação midiática para a manutenção e aprofundamento da ordem democrática e, conseqüentemente,  para avanços  nas reformas estruturais historicamente postergadas e que nos constituem como uma  sociedade das mais desiguais do mundo.  Desigualdade que está na origem de todas as formas de violênciatão banalizadas pela mídia empresarial.

O que se está presenciando pela pauta dominante da grande mídia empresarial, sem dúvida o maior partido ideológico atual no Brasil, torna mais que atuais as afirmações feitas pelo jornalista húngaro Joseph Pulitzer. “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma (grifos meus).”

Na mesma direção, de candente atualidade, é o destaque que o Eric Hobsbawm dá  em seu livro Tempos Fraturados (Companhia das Letras, 2013)  ao que o escritor  alemão Karl Kraus observou sobre o papel da mídia no contexto da primeira  Guerra Mundial. Hobsbawm destaca que “a imprensa não só expressava a corrupção da época, mas era, ela própria, a grande corruptora, simplesmente pelo “confisco dos valores através da palavra”. E apoiado em Confúcio sublinha que quando não “se diz tudo o que deve ser dito e se quer dizer, o que precisa ser feito não será feito; se isso não é feito, a moral e a arte se deterioram; se a justiça se extravia, o povo esperará em impotente confusão”( p.162)

Por fim, em meados do século XX, na coletânea de textos de Pier Paolo Pasolini, publicada em 1990 pela editora  Brasiliense com o título  Jovens Infelizes , este autor de vasta obra, observando o papel da imprensa no pós Segunda Guerra Mundial assinalava que o fascismo arranhou a Itália, mas o monopólio da mídia arruinou. O magnata da mídia Berlusconi é a expressão políticamais candente da ruína a que foi submetida a Itália.

Há sim que denunciar e combater a corrupção, mas não seletivamente e sim sob todas as formas e todos os envolvidos. Corrupção por propinas a políticos, corrupção por evasão fiscal, corrupção da dívida pública, etc. Para aqueles que lutam pela efetiva democracia e o esforço de construir uma nação não é termos uma imprensa monopólio estatal ou empresarial, mas uma imprensa com controle social de forma institucionalizada para que, sobre todos  os temas  de interesse universal, não se diga  apenas meias verdades, pois isto é pior que a mentira.

Gaudêncio Frigotto – Filósofo e doutor em Educação, História e Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de  São Paulo. Atualmente professor na Faculdade de  Educação e no Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

8 comentários

  1. Dizer que a mídia é manipuladora…

    Dizer que a mídia é manipuladora é o mesmo que dizer que o povo é retardado e manipulável. Acaso é a favor do povo quem o vê desta maneira? Ao contrário, há nessa postura um enorme desprezo pela inteligência do povo.

    Os fatos estão à vista em qualquer banca: os jornais da esquerda estão lado ao lado do O Globo, da Folha, do Estadão. Se o povo prefere os jornalões aos jornalecos é porque tem um motivo. Talvez porque prefira uma gama variada de informações, bem redigida e diagramada, ao invés de editoriais rançosos.

    Há liberdade de imprensa enquanto jornalões e jornalecos estiverem lado a lado nas bancas, e o povo for livre para escolher qual vai ler. O dono do jornalão não tem poder para obrigar ninguém a ler o seu jornal, nem a assistir sua programação televisiva. Está certo, a principlam fonte de renda da mídia não é a venda avulsa, e sim os anúncios. Mas colocar assim é esquecer que apenas os veículos de mídia de larga circulação dispõem de bons anunciantes. Então, a quantidade de leitores e telespectadores é a verdadeira e única fonte do sucesso financeiro da mídia comercial. Sempre foi assim.

    Vocês dizem, a mídia não é democrática porque seus donos são poucos. Mas toda grande empresa em geral tem poucos donos, porque poucos possuem o capital necessário para montá-la. Há poucos grandes veículos de mídia pelo mesmo motivo porque há poucos grandes fabricantes de caminhões. Mas isso não importa, porque os donos das empresas, sejam jornais ou fábricas de automóveis, não produzem para si mesmos, mas para os consumidores. Os donos dos jornalões podem até ter suas opiniões políticas conservadoras, mas se quiserem vender seus jornais, têm que imprimir aquilo que o o povo deseja ler. O mercado é a expressão do Desejo Coletivo, e como tal, um vigoroso instrumento de democracia.

    • Midiotas são como mortos….
      Ser um midiota é o mesmo que estar morto!
      O morto não sofre, não entende, não vê e não sofre como seus entes queridos.

      Um midiotizado não sabe que é idiota, manipulado e boçal.
      Não vê, não entende, não sente a Realidade.
      Só o que seu patrão mídia comanda!

      Aliás, mandaram usar “preto” e na quinta-feira parecia um bando de urubus, babando de raiva, ódio e fome. Se tivessem mandado os midiotas tomarem veneno que no outro dia Dilma cairia, TOMAVAM, com limão e creolina!

    • Midiotas são como mortos….
      Ser um midiota é o mesmo que estar morto!
      O morto não sofre, não entende, não vê e não sofre como seus entes queridos.

      Um midiotizado não sabe que é idiota, manipulado e boçal.
      Não vê, não entende, não sente a Realidade.
      Só o que seu patrão mídia comanda!

      Aliás, mandaram usar “preto” e na quinta-feira parecia um bando de urubus, babando de raiva, ódio e fome. Se tivessem mandado os midiotas tomarem veneno que no outro dia Dilma cairia, TOMAVAM, com limão e creolina!

  2. Ha alguns anos enviei ao blog

    Ha alguns anos enviei ao blog do Luis Nassif um comentario contestando um post, assinado por ele, criticando o emprestimo do Banco do Brasil a Samuel Wainer, para a constituição do jornal Ultima Hora, durante o governo de Getulio Vargas.

    Vou repeti-lo:

    “As vezes quando se fala de Samuel Wainer, pode ficar a erronea impressão, para quem não vivenciou aquele periodo da historia,de que se tratava de alguem ligado a trambicagens.

    Se hoje seria dificil um jornalista conseguir manter um jornal independente e defensor dos interesses do pais, imaginem esse feito nos truculentos anos 50..

    A Ultima Hora foi uma obra de importancia fundamental para o Brasil.

    La trabalhei,la aprendi. Alias, como a maioria dos grandes jornalistas do pais.

    E la vi uma luta maravilhosa de brasileiros de muito valor, liderados por Samuel, meu grande e inesquecivel amigo.

    Ele morreu pobre, mas com enorme dignidade, em um pequeno apartamento,que muito frequentei.

    Poucos brasileiros partiram para o descanso eterno com a consciencia tão tranquila como ele, apos uma vida tão digna e brilhante.

    Que terrivel teria sido a nossa historia  sem um homem com a coragem e astucia do Samuel. Ela teria sido escrita e marcada apenas pelos chateaubriands, que existiam e continuam existir, vendendo suas almas ao diabo.

    Uma das mais belas paginas do jornalismo brasileiro foi escrita no nosso triste 31 de março de 64

    Correndo todos os riscos,com a redação destruida, os veiculos incendiados, os jornalistas não abandonaram seus postos e fizeram uma edição extra do jornal, anunciando a tragedia que havia caido sobre o Brasil.

    Não foi por nada que o nome do inesquecivel Samuel era o quarto da primeira lista dos cassados.

    Foi por sua  coragem, talento, brilho. Que guerreiro.

    Quanto as malas de dinheiro, que voce diz que o Samuel carregava, caso ele tivesse solicitado a minha ajuda, certamente o teria feito e hoje não carregaria nenhuma culpa por isso.

    Poucos dinheiros foram tão bem empregados em toda a nossa historia.

    Ajudou a consolidação dos direitos trabalhistas, a construção de Brasilia, a Petrobras, ao surgimento da bossa nova,do cinema novo, as conquistas das copas, ao esporte em geral, etc, etc, etc, etc.

    O Brasil de hoje certamente seria diferente se ele estivesse vivo.

    Ele estaria revelando verdades, anunciando o novo, desvendando segredos, impedindo muitas grandes e 

    nocivas trambicagens, que rolam soltas, sem nenhum grande jornal e sem ninguem com tanto brilho para denuncia-las”.

     

    Não adianta mais, como no post de hoje, continuarmos nessa mesma ladainha que o PIG é isso e aquilo.

    Todo mundo ja sabe.

    O problema e como sair dessa rede,dessa armadilha.

    Falta hoje uma Ultima Hora.

    O PT não entendeu a lição do Getulio.

    A historia seria outra se os petistas  tivessem repetido o lance do genial Getulio.

  3. Quanta asneira

    Com todo o respeito , é muito cinismo e cara de pau da sua parte !

    Quer dizer que uma empresa como a Carta Capital dá para competir com o imperio que a Globo !

    O cidadão comum ( pobre e classe media ) com o nosso atraso cultural não é passivel de lavagem celebral pelo lixo e desonestidade q a Globo joga insistentemente no ar  !

    Editoriais dessa porcaria de midia são maravilhosos e honestos !

    O resto das barbaridades e desonestidades intelectuais do seu comentario não dá nem para discutir de tão raso , pueril !

    Francamente , ou vc é um ou pensa que aqui só tem gente burra , ignorante !

    Só não te mando catar coquinho em outras paragens ou procurar sua turma , porque aqui é um espaço democático e aberto à diversidade . Mas recomendo mais inteligência e substância nos seus comentarios , e , principalmente , honestidade !

    Mesmo que discorde da maioria dos comentaristas e da filosofia que pauta o blog !

    Saudações de um esquerdista liberal .

     

     

  4. Esta pauta precisa sair às ruas.

    De há muito falamos sobre isto. Temos sempre criticado governos e partidos.  Devemos continuar fazendo, mas esta pauta precisa sair às ruas. Precisa mobilizar corações e mentes. Precisamos exigir uma imprensa de qualidade ética, que respeite a pupulação. As concessões publicas, não podem ser privatizadas. As licenças não podem ser eternas.  Mais do que nunca neste país se vê a necessidade de uma imprensa livre. Imprensa livre não é criada por um bando de  mercenários que obedecem figuras como Kamel , Frias e outros editores. A televisão não pode ser um circo  onde se julga que o povo gosta apenas de lixo. A televisão não é um play ground da propaganda. 

    Estou feliz nos meus blogs, mas quero mais, quero uma imprensa livre, cheia de contraditório, que reflita a cultura a arte e  a vida e não apenas o consumo. E nem muito menos a manipulação da realidade para servir interesses sórdidos. 

    Mas é preciso criar um movimento , criar uma saída,  reunir forças  e não esperar apenas por  ações formais legais ou partidárias. Não sou o mais adequado para propor,  pois temos aqui jornalistas , escritores, cineastas , poetas, sonhadores, administradores, experts em informatica, advogados, artistas, e pessoas apenas pessoas que querem, que necessitam disto quase como necessitam do ar. Podemos também ir para as ruas, e até pedir leis e até exigir dos partidos, eles também estão conosco, mas será que não há nada mais a fazer.  Precisamos criar uma alternativa ao que está aí.  Blogueiros como Nassif tem feito como podemos ir além?  O que podemos fazer Eu preciso de uma imprensa livre  como eu preciso de ar. A imprensa de hoje faz mal a saude.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome