Imprensa não deve temer reportar mentiras e ofensas de Bolsonaro, por Antonio Prata

Dizer que uma mentira proferida por Bolsonaro é "polêmica" é o mesmo que dar "50% de credibilidade”; "Se o mundo está ficando louco, não convém à mídia enlouquecer para acompanhar a tendência"

Foto: Agência Câmara

Jornal GGN – O colunista da Folha de S.Paulo, Antonio Prata, em artigo publicado neste domingo (28), chama a atenção para a resistência de alguns veículos de comunicação, incluindo a Folha, em reportar as falas e ações violentas do presidente Jair Bolsonaro da maneira como estão dadas.

“As falas de Bolsonaro sobre o Inpe e Miriam Leitão são mentirosas. A fala sobre a Ancine é autoritária, dirigista, censora, abusiva. A fala sobre os governadores nordestinos é preconceituosa, ofensiva”, pontua o colunista lembrando que a Folha definiu às declarações de Bolsonaro como “controversas” e como “polêmicas”.

“Talvez por receio de parecer partidária ao qualificar as declarações do presidente com os adjetivos acima [‘controversas’ e ‘polêmicas’], tanto a Folha quanto outros veículos de comunicação acabam tomando o partido oposto, normalizando seus absurdos”, completa Prata.

“Se eu disser que os brancos são superiores aos negros e que as mulheres são burras, terei sido ‘controverso’ e ‘polêmico’, claro, pois a ciência diz o contrário. Se quisermos ser mais precisos, contudo, devemos afirmar que fui racista e machista”, exemplifica Prata explicando, em seguida, que usar o termo “controvérso” torna legítimo os “supostos dois lados da moeda”.

Ao mesmo tempo, dizer que uma mentira proferida por Bolsonaro é “polêmica” é o mesmo que dar “50% de credibilidade para o fato e 50% para a fraude”.

“Os termos não são apenas vagos, eles deturpam a realidade que o jornalismo precisa reportar”, alerta.

Entre os impropérios, ditos mais recentemente por Bolsonaro, estão que no Brasil as pessoas não passam fome (5.653 pessoas morreram no país em 2017, segundo dados oficiais), que os cientistas do Inpe forjaram seus estudos a serviço de ONGs e, ainda, que a jornalista Miriam Leitão participou da luta armada da ditadura e mente sobre ter sido torturada.

“Há tanta ‘controvérsia’ sobre estes fatos quanto há sobre a segurança das vacinas e a circunferência da Terra. Cabe ao jornalismo afirmar com todas as letras que os que discordam de tais afirmações estão errados —e quando eles sabem que estão errados e mesmo assim emitem tais opiniões, é preciso dizer que eles mentem”, reflete Antonio Prata.

Ele lembra, entretanto, que, por trás dessas questões, existe uma tentativa de os jornais alcançarem o maior número possível de pontos de vistas, uma vez que vivem também de assinaturas, audiência e publicidade.

Mas o colunista pondera que, “numa época em que estes pontos de vista incluem movimentos antivacina, terraplanismo (!), machismo, racismo, homofobia e até mesmo Olavo de Carvalho (!!!)”, o jornalismo não deve agir “alargando as fronteiras do aceitável, mas fincando os pés na tradição iluminista, democrática, civilizatória”.

“Se o mundo está ficando louco, não convém à mídia enlouquecer para acompanhar a tendência”, prossegue lembrando que justamente a imprensa, as artes e a ciência, são os principais alvos do populismo autoritário. Logo, lhe abrir espaço é conceder mais munição para ganhar corações e mentes.

“A imprensa, a ciência e a arte, os três maiores alvos do populismo autoritário que se espalha pelo globo, têm entre si um denominador comum: a busca pela verdade. Nestes seis meses de obscurantismo galopante, no Brasil, a Folha tem sido um pilar fundamental deste tripé: que não tenha medo de reportar a mentira, a ofensa, a burrice e o autoritarismo nos próximos três anos e meio”, concluiu.

Para ler a coluna de Antonio Prata na íntegra, clique aqui.

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