O sofrimento e a canção

Na sua fase áurea, nunca cheguei a me tornar um fã de Maria Creuza. Era a figura bonita que enfeitava as apresentações de Vinicius e Toquinho, com uma voz bonita, mas uma interpretação que não chegava a me sensibilizar.

Fui vê-la, quase por acaso, no “Vinicius”, casa de shows em frente o Garota de Ipanema. Quando entrou no palco, estava irreconhecível. Imensa, envelhecida, um tanto alcoolizada. Entrou com um copo de vodka que fez questão de passar para os demais músicos. Um garçom diz que ela lava com vodka e enxágua com caipirinha.

Mas quando começou a cantar, levei um susto.

É voz de uma pessoa sofrida, a aparência é de uma pessoa sofrida. Mas a voz mudou.Em alguns momentos é mais seca e precisa do que antes. Em outros, consegue uma reverberação que lembra as grandes cantoras trágicas dos anos 50, como Dalva de Oliveira, mais contemporânea e com interpretação bem mais contida (e intensa) que a Maria Creuza dos anos 80.

Vale a pena entender como a saga de Billie Holiday e Orlando Silva da segunda fase, do sofrimento esculpindo um grande intérprete.

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