A morte de Fernão Bracher, o irmão mais velho dos Cruzados

Teve papel relevante em uma fase complexa da vida nacional, no plano Cruzado.

Morto ontem, aos 86 anos de idade, Fernão Bracher foi identificado pelos jornais como pai de Cândido Bracher, presidente do Itaú. Foi mais que isso. Teve papel relevante em uma fase complexa da vida nacional, no plano Cruzado.

Nossos caminhos se cruzaram de forma curiosa. No início dos anos 80 houve reunião anual do FMI. Como ocorria em quase toda reunião, Mário Garnero, do Brasilinvest, promovia um almoço concorrido, com autoridades brasileiras, do FMI e banqueiros em geral. 

Garnero me informou do almoço e perguntou se eu tinha interesse em alguma informação. Disse-lhe que teria todo o interesse se passasse um questionário entre os comensais. No questionário, perguntava quem os banqueiros preferiam como negociador da dívida externa brasileira: Delfim Neto, Ernane Galveas, Ernesto Albrecht ou Fernão Bracher, os dois últimos diretores do Banco Central. Houve votação maciça em Bracher, o mais diplomata de todos, em um período em que Delfim e Galveas peitavam os credores. A reportagem deu repercussão e custou uma bronca eterna de Delfim com Garnero.

Bracher havia passado pelo Banco da Bahia. Especializou-se em câmbio. Mais tarde, foi para o Bradesco. De lá, para o Banco Central.

O segundo contato foi em 1985, quando caiu o Ministro da Fazenda Francisco Dornelles e o presidente do Banco Central. Eu já mantinha meu programa Dinheiro Vivo na TV Gazeta, o único que falava ao mercado. Chutei que o escolhido poderia ser Bracher. Foi.

No dia seguinte ele me ligou agradecendo.

Após o Cruzado, Bracher me procurou uma vez, perguntando se podia receber um jovem economista, recém-chegado de Harvard. A ideia era acabar com o Banco Nacional da Habitação e passar a parte imobiliária para o Banco Central. Na época, eu tinha me especializado na matemática financeira do SFH e Bracher perguntava se podia conversar com ele sobre o sistema. O economista era Daniel Dantas. Nunca houve a conversa.

Tempos depois, foi em sua casa, em Brasília, que aconteceu um jantar no qual compungidos economistas do Cruzado tentaram me explicar porque assinaram uma carta de apoio ao Ministro da Justiça Saulo Ramos, no processo que me movia devido a denúncias que fiz, tendo como fonte os próprios economistas.

Com o tempo, Bracher se tornou uma espécie de irmão mais velho dos economistas do Real. E tinha especial apreço pelo papel das instituições públicas. Algumas vezes se queixou da maneira como sucessivos governos vinham achatando os salários do Banco Central, comprometendo sua eficácia.

Com a flexibilização das cartas patentes de bancos de investimento, Bracher logrou se associar a um banco austríaco e montar o BBA Credinstantalt, tendo como sócio um vice-presidente do Bradesco, Beltran Martinez. Em pouco tempo o banco ganhou musculatura, cresceu vertiginosamente, até ser incorporado pelo Itaú.

6 comentários

  1. Pode ter sido seu amigo e uma pessoa adorável e inteligente, porem não podemos esquecer como este grupo de “cruzadista” enriqueceu com informações confidenciais e “ferrou” a população brasileira, mais uma vez, em prol dos banqueiros ricos.
    Desculpe-me, mas foi muito tarde!

  2. deus me livre falar bem de banqueiro, mas acho que, pelo descrito no corpo da matéria, fernão bracher devia ser identificado no titulo como o irmão mais velho “dos economistas do real” e não dos “Cruzados”, né não?

  3. Prezado Nassif

    Não seria possível retornar com o blog para o formato anterior? Em especial para celulares, a navegação anda muito difícil e encontrar os seus textos não tem sido fácil.

    Edson Dias

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