30 de junho de 2026

Comparações entre o integralismo original, o bolsonarismo e os terroristas de hoje

Enquanto os integralistas do passado eram intelectuais - e atraiam juristas, acadêmicos, escritores para o movimento -, o bolsonarismo prega a superficialidade de um meme

Jornal GGN – Pedro Doria escreveu no jornal O Globo desta sexta (27) um artigo traçando paralelos entre o movimento integralista dos anos 1930, o bolsonarismo e os autoproclamados integralistas de hoje, que atacaram a sede do Porta dos Fundos e invadiram uma universidade no Rio de Janeiro.

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Em síntese, o integralismo original guarda duas grandes diferenças em relação à extrema-direita que está no poder, e outra incongruência com os terroristas que queimam bandeiras antifacistas e lançam coquetel molotov contra produtora de vídeo.

O movimento que tinha Plínio Salgado como expoente era intelectualizado. Atraia para suas fileiras os grandes juristas, acadêmicos, jornalistas, escritores da época. Já o bolsonarismo desacata a universidade pública, rivaliza com dados científicos, alimenta teorias da conspiração em vez de racionalidade. Contra discussões aprofundadas, incentiva a superficialidade dos memes.

“A extrema direita brasileira dos anos 1930 não era como a de hoje. Plínio leu poesias suas durante a Semana de Arte Moderna de 1922 . Foi um romancista de importância no Modernismo. [Gustavo] Barroso já era membro da Academia Brasileira de Letras e fundador do Museu Histórico Nacional quando a AIB nasceu. ]Miguel] Reale foi talvez o maior jurista brasileiro do século 20. Eram, no comando, todos intelectuais. E atraíram gente do mesmo quilate. Foram integralistas o futuro bispo dom Helder Câmara, o folclorista Câmara Cascudo, o político trabalhista San Tiago Dantas e o poeta Vinícius de Morais”, escreveu Doria.

Além disso, enquanto o bolsonarismo finge que a democracia não é um obstáculo ao seu projeto autoritário de poder, os integralistas “consideravam o regime democrático fracassado, consideravam que o liberalismo político não tinha a força necessária para fazer frente ao avanço comunista. O exercício das eleições livres, um autoengano, um fracasso. Defendiam abertamente um regime autoritário.”

Já os integralistas de hoje têm uma característica similar aos do passado: são midiáticos. Mas diferem na defesa da volta da monarquia.

“Plínio era republicano e boa parte da AIB [Ação Integralista Brasileira, o maior movimento político de massas à direita, até o bolsonarismo] era republicana. Mas eles incorporaram em certo momento um movimento ultracatólico monarquista chamado Patrianovismo. Então o pé no catolicismo fundamentalista ancorado na imagem do imperador existia. Mas era um grupo pequeno.”

Doria ainda chama atenção para o “paradoxo” no integralismo. “O fascismo é revolucionário. Isto quer dizer que pretende uma mudança radical no Estado, no país. O patrianovismo era reacionário — queria um retorno ao Brasil agrário monárquico e distância daquele país industrial e urbano que se consolidava no início do período Vargas. Mas esta é mesmo uma característica da nova extrema-direita que aflora no mundo. Este paradoxo de ser simultaneamente revolucionário e reacionário.”

“Mas terrorismo não era da sua prática”, conclui.

Redação

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8 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    27 de dezembro de 2019 12:05 pm

    Há bem pouco tempo a PF me tratou como terrorista por causa de um Twitter.
    https://jornalggn.com.br/ditadura/de-quem-e-o-novo-dops-federal-do-temer-ou-da-embaixada-dos-eua/
    Agora ela não quer perseguir o terrorismo de extrema direita.
    Atirar coquetéis molotov numa produtora de vídeo inimiga do vagabundo Jair Bolsonaro é bem menos perigoso do que espalhar piados indesejados na rede internacional de computadores.
    O ciclo está completo.
    A liberdade de expressão é proibida e o crime praticado contra ela é premiado (senão patrocinado) pelos agentes do Estado.
    Estamos diante do mesmo fenômeno que Hannah Arendt relatou acerca do Nazismo: uma inversão completa da moralidade. No entanto, na Alemanha de Hitler isso foi obtido mediante a promulgação de Leis. No Reich bananeiro esse fenômeno se caracteriza pela interpretação criminosa da legislação que garante a liberdade de expressão e reprime a violência política.

  2. Ricardo CP

    27 de dezembro de 2019 12:09 pm

    Pessoal, não há perigo. Afinal, é terror do bem, é terrorismo gospel….

  3. Estraga-prazeres

    27 de dezembro de 2019 2:01 pm

    Pessoal gastando muito tempo com política comparada – o que não tem colocado à luz fenômenos atuais e específicos.
    Mas é interessante exercício de pensamento.
    Debruçar-se sobre o destroçamento da economia industrial em privilégio à economia da banca, never.
    Mesmo que esse fenômeno tenha dado base a elementos tão aparentemente (sic) dessemelhantes, como a eleição do Trump, o aumento da extrema-direita em países como a Inglaterra, à eleição de Trump, ao Brexit… e ao Bolsonaro. Sim, àquilo que só agora descobriram, a nova direita (que existe desde o Nixon)…
    Quem percebeu parte do problema foi o Michael Moore. Remando contra a maré da opinião geral.
    Esquerda brasileira: equivocando-se desde 2013.

  4. peregrino

    27 de dezembro de 2019 2:47 pm

    Um deus que precisa de uma defesa tão feroz e terrorista nunca foi Deus…
    ou responder assim à liberdade de expressão dos outros, explodindo-a, é coisa de quem não respeita sequer a própria liberdade religiosa que prega. O mesmo que explodir a própria fé

    são mais terroristas da fé do que seus defensores

  5. Pedro Mundim

    27 de dezembro de 2019 2:53 pm

    Bem mostra como termo “fascismo” foi deturpado. Bolsonaro nunca foi fascista, e nem ele nem a maioria dos comentaristas daqui parece ter uma noção exata do que foi o fascismo, um movimento revolucionário, totalitário, ultranacionalista e belicista. Hoje em dia, “fascista” virou um mero xingamento.

    1. peregrino

      27 de dezembro de 2019 3:32 pm

      sempre os vi como terroristas disfarçados…………………….
      aqueles que respeitam as leis de um país, mas que se julgam sem obrigação nenhuma de aceitá-las

      mil vezes mais perigosos que os fascistas históricos quando chegam ao poder por vias legais, pelo voto

  6. Anônimo

    27 de dezembro de 2019 4:49 pm

    Elemento central do fascismo é o apelo a um passado glorioso, um povo uma raça fundadora que deve ser restaurada. O integralismo era branco, bem branco e elitista.

  7. Marvado

    27 de dezembro de 2019 8:44 pm

    Caro Pedro Mundim, conceda-nos o benefício da carência de recursos conceituais personalizados. Na verdade, continuaremos a usar o termo fascismo até que seja, gradativamente, substituído por ” bolsonarismo”, como definição do mal em si para toda esta devastação que a má sorte nos legou…

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