Do péssimo jornalismo ao suicídio, panorama traçado pela ombudsman da Folha

Foto Isabelle Araujo/MEC

Jornal GGN – Na morte de Cancellier a constatação de que jornalismo carece de seriedade, de mais responsabilidade e de respeito aos cidadãos e instituições. Em síntese, esta é a análise da ombudsman da Folha, Paulo Cesarino Costa, que inicia com o que não deveria ter acontecido, o suicídio de Cavallier, para chegar ao motivo: a falta de profissionalismo da imprensa em caso incrementado por holofotes da Lava Jato.

Para ela, a aceitação passiva do discurso policial aliada à pressa por encontrar culpados e a imperícia no mais básico do jornalismo contribuíram para a morte “de cidadão privado do direito à presunção de inocência”. Abre-se aí um grande leque. E a Folha precisa ler sua ombudsman.

Leia o artigo a seguir.

na Folha

Jornalismo de ouvidos moucos

por Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha

O corpo no chão do shopping tornou-se trágico sinal de alerta.

A aceitação passiva do discurso policial, o açodamento na busca de culpados por desvios, a imperícia nas técnicas elementares de reportagem e a irresponsabilidade de agentes públicos contribuíram para a morte de cidadão privado do direito à presunção da inocência.

Por mais incisiva e rigorosa que seja a autocrítica da cobertura da imprensa na acusação e morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, já se terá mostrado tardia, insuficiente e assustadora do viés punitivo de algumas das principais instituições sociais do país.

É preciso reconstituir o episódio. No caso da Folha, o jornal mantém à disposição do leitor a seguinte notícia : “Reitor da UFSC é preso em operação que apura desvio de verba em cursos”. A abertura do texto diz: “A Polícia Federal prendeu o reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, e outras seis pessoas ligadas à instituição nesta quinta-feira (14/09). Segundo a PF, o grupo é suspeito de desviar recursos que deveriam ser investidos em programas de Educação a Distância.”

Leia também:  Festival de Direitos Humanos de SP debate a situação do jovem no mercado de trabalho

Só no parágrafo seguinte esclarece que o reitor é, na realidade, suspeito de tentar barrar investigações.

A pedido de delegada da Polícia Federal que preside o inquérito, uma juíza que atuou em casos da Operação Lava Jato determinou a prisão de Cancellier e a sua proibição de entrar no campus. A operação foi batizada de “Ouvidos Moucos”.

Em depoimento, o reitor negou que tentasse barrar a apuração. Ficou preso um dia. Em artigo, escreveu que se sentia perplexo e amedrontado, submetido a humilhação e vexame sem precedentes.

Menos de 20 dias depois, Cancellier se atirou do alto da escada rolante de shopping, em Florianópolis. No bolso, um bilhete: “A minha morte foi decretada quando fui banido da universidade!!!”

Em sua versão eletrônica, a reportagem de setembro tem hoje um sinal de Erramos, produzido 23 dias depois de sua publicação: “A reportagem deixou de informar que o reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, era investigado por suspeita de interferir na apuração sobre o desvio de recursos na universidade, e não pelo desvio em si”.

A admissão do erro foi direta, mas insuficiente e demorada.

Em 7 de outubro, o jornal publicou reportagem que afirmava que, em carta enviada em julho à Polícia Federal, o corregedor da UFSC disse que vinha recebendo “os mais diversos tipos de pressão por não aceitar ser subserviente ao gabinete do reitor” da instituição. O advogado do reitor contrapunha que Cancellier agira dentro da lei e buscava informar a Capes sobre o episódio.

Leia também:  STJ derruba prisão de Pezão na Lava Jato

O editor do núcleo de Cidades, Eduardo Scolese, explicou que, sem correspondente em Florianópolis, as informações da primeira reportagem haviam sido apuradas por telefone e e-mail, sem contestação.

Não se trata aqui de discutir se o reitor estava de fato fazendo ouvidos moucos aos pedidos da polícia ou tentando interferir na investigação. O que interessa é refletir sobre a maneira como a mídia tem lidado com operações policiais que buscam holofotes em investigações ainda em andamento.

As reportagens de diferentes veículos eram quase iguais, feitas exclusivamente com base em poucas e confusas informações divulgadas pela Polícia Federal. Não identifiquei nenhum órgão de imprensa que tenha levantado inconsistências ou ao menos tentado relativizar as acusações apresentadas.

Esse comportamento não é exclusivo desse caso. Tem sido rotineiro diante de tantas investigações.

Questionei o secretário de Redação Vinicius Mota sobre a forma como o jornal vem abordando investigações recentes: “A Folha se preocupa, como está em seus documentos públicos, em não ser veículo involuntário de injustiças contra pessoas ou empresas. Para isso se compromete com protocolos como a necessidade de ouvir e destacar o outro lado e a correção explícita de erros detectados, como foi feito nesse caso”, respondeu.

O ambiente punitivo nascido da espetacularização da ação policial e dos procedimentos judiciais tem reflexos e responsabilidade da imprensa. Jornais e jornalistas não podem aderir a ondas nem de condenação de acusados nem de ataque aos investigadores. Precisam refletir sobre seu trabalho, reavaliar as ferramentas de controle, insistir na busca do relato jornalístico mais preciso e plural.

Leia também:  As "provas" da Lava Jato contra o filho de Lula

Certo comportamento de manada, em que um faz algo porque outro fez, deve ser vigiado e combatido.

Em alguns momentos, é preciso ter coragem para publicar. Em outros, a ousadia de não publicar.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

17 comentários

  1. De madrugada iria colocar

    De madrugada iria colocar esse artigo.Não coloquei esse e nenhum.

    Não estava no barato.

    Iria colocar com esta linha em destaque:

    ”Em alguns momentos, é preciso ter coragem para publicar. Em outros, a ousadia de não publicar.”

  2. Nojo e asco

    A FOlha já mereceu mais respeito.

     

    Vejo hoje que era indevido.

     

    É que a Folha e aqueles Frias ( o nome já diz tudo) são gente que se amolda à contribuição pública ao jornal e portal etc.

    Quanto mais pagam, mais a coisa está bem.

     

    Espero que a Folha e os Frias acabem em pouco tempo como aconteceu com o Mappin, Mesbla, Vasp e outras empresas grandes que se foram.

     

    É um absurdo esses Frias acharem que entrgando uma ou duas colunas a pessoas ‘boas’ está tudo resolvido.

    As manchetes mentirosas estão na conta do destino que os Frias irão pagar. Uma hora ou outra será esse fim. 

    E que venha a vagar pelo ‘inferno’ por séculos, tal o mal que produziram. 

    Mercenários fdp. 

  3. A capa da Folha com a enquete

    A capa da Folha com a enquete se Lula deveria ser preso, lembrando aqueles dedos para cima ou para baixo dos coliseus romanos, foi outro de seus momentos baixos. 

  4. E daí? A família Frias

    E daí? A família Frias deixará de dar boas gargalhadas?, deixará de continuar publicando o que, como e quando quiser? Nada, parece texto de puta querendo se converter.

  5. Fascistas não são Democratas

    Não adianta nada a ombudsman criticar. O sr. Otavinho Frias (como seu pai) não é um néscio, um estúpido, um idiota. Todos os seus empregados fazem exatamente o que lhes é determinado. Os jornalistas são cúmplices.

    Não caiam na ilusão de que houve um deslize. Não houve. Diariamente as grandes empresas de mídia promovem o assassinato de reputações para atender seus objetivos políticos. A Folha apoiou o golpe de 64 (Frias pai) e apoiou o golpe de 2016 (Frias filho).

    O projeto político que os Frias defendem tem por objetivo tornar o Brasil uma dissimulada colônia dos EUA e tornar os brasileiros em escravos pós-modernos.

  6. Lembrei do Vampeta agora, que

    Lembrei do Vampeta agora, que sem receber salários em dia no Flamengo, debochou: “O Flamengo finge que me paga e eu finjo que jogo”

    Não necessariamente por cinismo, o onbudsman da Folha deve ter consciência da enganação que representa o seu papel no jornal…..

    Ele finge que leva a sério os alertas que faz….. A Folha finge que lê e melhora seu jornalismo…… 

  7. Pobrezinha da folha…. era

    Pobrezinha da folha…. era só consultar pela internet o q havia sido veiclado pela imprensa local…mas decerto estavam sem conexão.

  8. Operação “Boca Fechada”: Não Dá Para Aceitar Tamanha Sordidez

    Paula Cesarino Costa aborda a operação “Ouvidos Moucos” de “olhos velados” ao tratar apenas da prisão e da queda para o alto do reitor da USC, cidadão estuprado em seus direitos básicos de cidadania e justiça, esquecendo-se, após o corpo quedar-se ao chão, da continuidade do “assassinato” do reitor Cancellier, onde a Folha é mais que cúmplice, é sócia da organização formada para desinformar os cidadãos brasileiros visando a tomada e conservação do poder pela classe dominante, no caso sobre o “assassinato” do reitor.   

    Tão grave quanto a prisão coercitiva, a humilhação da cerimônia de ser trancafiado em presídio, a soltura no dia seguinte com a proibição de adentrar o Campus, foi a operação “Boca Fechada” empreendida pelo monopólio da mídia, Folha inclusa, visando impedir que o Brasil soubesse de forma clara sobre o fato do “suicídio” do reitor assassinado no primeiro ato, o da prisão/proibição, pois com mais esse ato confessam escancaradamente saberem que as práticas jurídicas lavajateiras, além de estarem fora da lei, colaboram, induzem, provocam, para que cidadãos subtraídos em seus direitos básicos, garantidos pela constituição, percam a vida, inclusive literalmente como nos casos do reitor Cancellier e de Marisa Letícia, para atender caprichos, interesses e convicções, de desajustado por ora jurídico, ungido a “farol da justiça brasileira”, cujas práticas disseminadas protegem cerceando o direito de todo cidadão a livre informação. 

    Cidadã e jornalista Paula Cesarino, quando a Folha bem afinada com os demais “músicos do millenium”, esconde o “suicídio” de Cancellier morto, em sua real dimensão factual, o faz com objetivo não de informar, mas de primeiro proteger seus interesses e isso não é jornalismo, é organização criminosa, no caso, dando continuidade ao “assassinato” do reitor Cancellier para esconder outros assassinatos de lesa pátria, o das instituições jurídicas e da mídia, pelos responsáveis. 

  9. A quanto tempo isso acontece?

    A quanto tempo isso acontece? Ficarmos reclamando aqui ou ali e não fazer nada de que adianta? Eu assistia JN, Jornal da 10 da G. News, não perdia um, lia tudo que é jornal. Hoje, não assisto nada e não leio nada, encheu o saco, não se faz mais jornalismo. Prefiro ler uma opinião aqui outra ali debater e pronto. Agora quando a justiça e as instituições como PF e MPF, hoje fazem o que fazem graças a Lula, Dilma e o PT que lideram asas. Do jeito que está, era preferível na época de FHC que varriam tudo para de baixo do tapete, pelo ao menos reitores não se suicidavam.

  10. Apesar de NÃO ACREDITAR,

    Apesar de NÃO ACREDITAR, gostaria muuuito de ver a atitude dessa imprensa(?), se caso essa lava-jato, agisse da mesma maneira com um dos seus. Iram concordar com a pf, mpf ou judiciário ? Será? Duvido. Imprensa que não trabalha, não ouve o outro lado, não procura ser investigativa, compra literalmente o que é vendido por essas instituições(????). “Isso” é a imprensa (imprensa????) brasileira. Que lastima.

  11. A hipócrita

    Tudo tem limites. Até a hipocrisia.

    A figura do ombudsman na Folha, se não me falha a memória, surgiu quando o Jornal se repaginou, renegou a Ditadura e o patrocínio à Oban, virou progressista e vestiu-se de moderninha e democrática. O gene não muda, está lá, na matriz original. Tanto que, no primeiro sinal de direita-volver, lá se foi, para os velhos e saudosos tempos. No estudo das organizações a causa disso se atribuiria à resiliência da cultura organizacional, na linguagem coloquial é safadeza, hipocrisia ad eternum.

    E por que, a moça que hoje se presta ao papel de ombudsman, naquela Folha, seria hipócrita? Ela parece exercer a função do cargo, de tempos em tempos a vejo criticar o Jornal por seus editoriais e matérias publicadas. Quando tem a oportunidade se pronuncia publicamente pelo real jornalismo, pela defesa da pureza da notícia e por aí vai. E, então? Por que a chamar de A Hipócrita?

    Por que é, ora bolas. É outra que joga para a torcida, que faz de conta, que brinca de jornalismo. Provavelmente, se questionada, esconder-se-ia (ops, ato falho de mesóclise) por trás de desculpas com a necessidade de se manter a função viva, apesar do resultado inócuo ou, então, que na trincheira da resistência, lutando brava e incansavelmente pelo Jornalismo e pelo direito do leitor à boa informação, muitas vitórias gloriosas não são dadas a conhecer. Se assim o for é proselitismo hipócrita.

    A pergunta que precisa ser feita é outra. Se o Jornal não lhe dá a mínima e se, em nenhum momento que possamos registrar, seus apelos e críticas tiveram qualquer efeito palpável na linha editorial do pasquim em questão, o que ela continua fazendo lá?

    Qualquer pessoa com brio profissional e respeito próprio, qualquer um que não tivesse se prestando a uma pantomina da propaganda, já teria entregue o chapéu há tempos. Se não o fez é hipócrita. Ajuda a construir, perante o público, a imagem de que há algum controle sobre a ética jornalística naquele “papel de embrulhar peixe”. Aliás, até essa função foi perdida por conta das normas sanitárias e, dado o acesso geral e irrestrito ao papier toilette, nem para essa derradeira utilidade se presta mais.

    O trecho em que cita, entre aspas, o secretário da redação cujo teor, pelo que consta, ela aceitou, vai além da hipocrisia, é a mais pura desfaçatez.

    H-I-P-Ó-C-R-I-T-A, hipócrita!

    Ok, mas por que tamanha a minha revolta? Simples, essa hipócrita, A Hipócrita, ao nos apresentar o texto acima, cheio de “nossa culpa, nossa máxima culpa, mas eu aponto e reconheço o erro” desrespeita a nossa inteligência. Pressupõe sermos antas pantagruélicas que, vorazmente, iriam comer com farofa essa baboseira. Ora, vá se catar.

  12. Reitor da UFSC

    Esse caso me lembrou a época da Ditadura, tudo muito parecido. A arbitrariedade que foi tratado o Reitor nada a deferencia dos milirares. Um horror!

  13. Quanta inocência…

    Até parece que a pobre Folha foi enganada pelos, procuradores, juízes, policiais malvados.

    Se eu fosse bem bobinho e crédulo jamais pensaria que há uma gostosa associação entre a mídia, Folha inclusa, e estes citados antes, para vazar, prejulgar e precondenar, funcionando como um capanga que ameaça com difamação e desonra públicas.

    Sim, se eu fosse inocente, jamais pensaria isso.

    Só que não…

  14. No tempo da Ditadura,

    Havia aqueles que a criticavam como o tempo todo, mas colaboravam com ela incansavelmente. E usufruiam dissso.

    Quando questionados da diferença entre o discurso e a prática se saiam com: “estou atacando o sistema por dentro”.

    Ombudsmen…

    Sei…

  15. Mouro
    Qual é a pauta que o

    Mouro

    Qual é a pauta que o ombudsman do jornal deve seguir ???

    Estão usando esta coitada para se desculpar, mas seus leitores são acefalos, nem perceberão !!!

     

  16. A Folha atualmente mais erra

    A Folha atualmente mais erra do que acerta , mas sempre para os adversários e inimigos . Para os amigos e aliados não sai nada sem que o dono Otávio verifique , esse é o jornalismo ” profissional ” da Folha. Fui assinante por varios anos deste jornal , parei por não suportar tantos fatos e reportegens deste nivel que a Folha praticou e pratica , quando lhe interessa . O ombudsman é pro forma , prega no deserto e ninguém la dentro leva a sério , pois continuam com este jornalismo de guerra . Se fosse considerado a presença do ombudsman no jornal , não cometeriam tantos erros e asneiras na area economica e politica do jornal , então concluimos que a opinião do ombudsman e sua presença são descartáveis e sem importancia para o resto da redação.

  17. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome