Miriam Leitão: “Não existe ditadura suave e a dinâmica do caminho autoritário é incontrolável”

Em artigo sobre os 51 anos do AI-5, tom da jornalista de O Globo é de lamento, por ainda ter de lembrar das consequências nefastas da Ditadura para a sociedade

Jornal GGN – Há 51 anos, no dia 13 de dezembro, caiu sobre o Brasil, “como um viaduto”, o Ato Institucional número 5. Pelas consequências avassaladoras para o País, deveria ser, assim como a Ditadura como um todo, um assunto estudado e superado. Mas para o Brasil de 2019, onde presidentes e ministros falam com naturalidade incabível sobre censura e tortura, ainda é necessário lembrar do que se trata.

A jornalista Miriam Leitão, que foi vítima dos anos de chumbo, dedicou sua coluna em O Globo, nesta sexta, a para tratar do AI-5 e das falácias sobre a ditadura. Indicou, em seu texto, que o País cresceu, sim, mas com desigualdade e apesar do golpe militar, e não exclusivamente em função dele.

A certa altura, Miriam endereça àqueles que tratam o AI-5 com saudosismo: “Não existe ditadura suave e a dinâmica do caminho autoritário é incontrolável.”

“O general Castello Branco dizia que o regime seria temporário e ele durou 21 anos. O primeiro Ato Institucional foi apresentado como sendo o único e houve 17. O AI-5 duraria um ano, durou 10”, lembrou.

“O SNI seria apenas um pequeno serviço de inteligência e, como registra Elio Gaspari, virou um ‘monstro'” com mais de 6 mil funcionários espalhados por toda a esfera pública”, narrou.

Miriam reconheceu que, ao contrário do que o bolsonarismo diz, o Brasil “não estava ‘indo para o comunismo’, mas sim vivendo um governo de muita instabilidade e que se aproximava do seu final. No ano seguinte haveria uma eleição em que se enfrentariam Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, com grande chance de vitória do primeiro. Os dois se juntaram depois na Frente Ampla, que incluiu também João Goulart, uma aliança impensável entre o golpista Lacerda e o presidente deposto. Eles passaram por cima das diferenças pela causa comum do retorno à democracia. A frente foi proscrita pelo governo no interminável ano de 1968.”

Na parte econômica, a “coincidência entre o melhor momento da economia e o pior período da repressão é até estranha.”

O PIB cresceu em média 11,2% de 1968 a 1973, mas o País continuou desigual. A parcela da riqueza nacional apropriada pelos 1% mais ricos subiu de 17,7% para 25,8% entre 1964 e 1970. “O tempo de forte alta do PIB é apenas uma parte dos 21 anos. Ficou restrito ao final dos 60 e começo dos 70. Houve o período de recessão, inflação, dívida externa e bagunça fiscal.”

De acordo com Miriam, dos brasileiros de hoje, 76,21% não haviam nascido antes do AI-5. “São 160,2 milhões de brasileiros nascidos depois daquele dia. Pelo tempo passado e pela renovação populacional, esse deveria ser um assunto esquecido e pacificado. Mas o AI-5 foi um dos assuntos mais falados no país este ano, em função do estranho sonho autoritário de pessoas que hoje ocupam posição de poder.”

Por isso, infelizmente, “ainda é preciso lembrar como foram terríveis aqueles dias, aqueles anos, que começaram numa sexta-feira 13, há 51 anos.”

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