O raciocínio plano de Magnolli, o Bolsonaro com notas de rodapé, por Luis Nassif

O raciocínio de Magnolli é plano: é pau pau, pedra pedra. Para cada fenômeno há uma única causa. Se colocar duas, atrapalha o raciocínio e a pregação. É a mesma lógica de Bolsonaro e da ultradireita terraplanista, com notas de rodapé.

Sabido é quem tem  bom estoque de informações. Esperto é quem sabe relacionar bem as informações. Em Minas Gerais, se diria que Demétrio Magnolli é sabido, mas não é esperto. 

O raciocínio de Magnolli é plano: é pau pau, pedra pedra. Para cada fenômeno há uma única causa. Se colocar duas, atrapalha o raciocínio e a pregação. É a mesma lógica de Bolsonaro e da ultradireita terraplanista, com notas de rodapé.

Hoje ele publicou um artigo na Folha reproduzindo a lógica de Bolsonaro em relação ao isolamento social. 

Invoca o santo nome da sociologia em defesa de sua tese. Logo a sociologia, que exige análises de tendências, que tenta buscar explicações para realidades complexas, sem se curvar ao tatibitate dos idiotas da objetividade, que só conseguem enxergar a superfície e o momento zero e não conseguem avançar em mais de uma causa para um mesmo problema .

Magnolli e as cotas raciais

Exemplo maior foi sua posição em relação às cotas raciais, como ghost writer do senador Demóstenes Torres.

Sua lógica era plana: criando cotas raciais, se tirariam as oportunidades dos melhores, reduzindo o nível do ensino.

A santa sociologia, invocado por Magnolli, iria além. 

Negros e brancos saem de pontos de partida distintos, devido à todo histórico de segregação. As cotas permitem compensar um pouco essa diferença inicial na porta de entrada. Depois, incluídos no sistema, após um período inicial de adaptação haverá condições de uma competição isonômica entre todos. A Unicamp demonstrou cabalmente que, após ingressarem na Universidade graças aos pontos adicionais proporcionados pela política de cotas, os negros tiveram desempenho superior à média.

Mais ainda. A sociologia discutiria os impactos da inclusão no próprio processo de racismo, os efeitos sobre outros negros, que passam a acreditar na possibilidade de acesso à universidade e a outros ambientes de brancos; nos colegas brancos, que passam a naturalizar a inclusão; na melhoria do ambiente geral, com o exercício da sociabilidade e a superação dos preconceitos.

Mas Magnolli é pau-pau pedra-pedra: no momento 0, as cotas colocaram no cargo uma pessoa menos capacitada. E não se fala mais nisso.

É o pensamento padrão da ultradireita que emergiu nos últimos anos, uma parte sob o manto da religião, outra – como Magnolli – no manuseio plano de conceitos, sem nuances, sem relativizações, sem generosidade.

A crítica ao isolamento

Vamos aos argumentos de Magnolli contra o isolamento e os epidemiologistas, invocando a vã sociologia.

A sua lógica é bolsonariana.

  • Nenhum dos países que fez isolamento logrou reduzir a mortalidade do COVID. Falso.
  • As maiores aglomerações são em baladas, mas os governos estaduais querem investir contra os comerciantes.
  • A ditadura dos epidemiologistas quer o impossível: lockdown até liquidar o último virus.
  • A sociologia diz que é impossível manter tanta gente isolada por tanto tempo.

A lógica do isolamento é objetiva. O maior fator de óbito é a a falta de vagas em UTIs. O isolamento visa atrasar pontualmente a curva da doença quando a ocupação das UTIs for muito alta. Simples assim. É uma estratégia provisória, não uma luta final contra o vírus, como afirma Magnolli.

Toda a lógica de Magnolli limita-se a um enunciado: apesar da política de isolamento praticada por alguns prefeitos e governadores, a incidência de Covid-19 é alta. Logo, o isolamento falhou.

Não ousa discutir uma hipótese óbvia, que deve soar muito abstrata para seu cartesianismo de foco único: de quanto seria a pandemia sem os milhões de brasileiros que se precaveram com o isolamento graças aos alertas dos epidemiologistas.? Tenho inúmeros exemplos, na própria família, de isolamento severo que impediu a contaminação de todos, de tias idosas a sobrinhos e netos pequenos.

Mas  Magnolli recorre a correlações tolas para combater o isolamento. Há milhões de pessoas que frequentam os transportes públicos, que são obrigados a ir para as ruas para sobreviver. Logo, o isolamento é impossível.

Uma mente um pouco menos tacanha discutiria maneiras de amenizar essa exposição – como, por exemplo, a manutenção da renda básica para os economicamente vulneráveis. Mas Magnolli vai em outra direção: se o isolamento não pode proteger essas pessoas, que se acabe com o isolamento para todas.

Equivale a um salva vidas na praia argumentando que, como não pode salvar todos os que se afogam, não salvará nenhum.

Outro raciocínio plano é a comparação entre as milhares de pessoas que se acotovelam nos réveillons, nas praias, e nas baladas com os comerciantes. Se os governos não conseguem segurar as aglomerações espontâneas, não deveriam impedir as aglomerações no comércio. É um raciocínio fantástico! É o mesmo que dizer: como não é possível vacinar todos, que não se vacine ninguém. 

Argumenta ele que, apesar do isolamento, os índices de mortalidade dos países europeus foram altos. Ora, analise a curva de mortalidade e verá uma queda gradativa do índice de mortalidade em todos os países desde o início da doença – quando os hospitais ficaram lotados. Só agora voltam a lotar com a segunda onda. O que levou à queda da primeira onda? Um trabalho rigoroso de isolamento, como o aplicado pela Itália.

Para confirmar a síndrome de escorpião, Magnolli precisa investir contra quem pensa diferente, as  “hordas de “influenciadores digitais” fantasiados de santos, lamentam terem sido ignorados e retomam o antigo discurso”.

É o mesmo Magnolli, que em pleno macarthismo, usou um espaço na Folha para tratar como “quadrilha” repórteres do próprio jornal que ousaram criticar o discurso no Supremo do senador Demóstenes Torres contra as cotas raciais, cujo ghost writer era o próprio Magnolli.

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Ele não pode se dizer geógrafo, pois esse é um termo de quem tem graduação em Geografia, mas ele não tem. Aliás, em 2010, mais ou menos, fiz uma série de postagens no Twitter falando sobre ele e abordei essa questão. Na época, ele havia aparecido no Jornal da Cultura e, bem na sequência à polêmica da entrevista do Bolsonaro ao CQC, quando argumentou que Preta Gil era uma perigo à sociedade, pois estaba deliberadamente atacando o direito à livre expressão. Lembram da polêmica? Ele, à época, havia afirmado que filho seu não namoraria uma negra, pois tinha tido boa educação, algo assim. Cereja do bolo: quando apontei que era questão de jogar fora os livros que tenho dele, li dele próprio que, uma vez que eu já tinha pago, não faria diferença pra ele.

Gustavo