Polícia conclui, até o momento, que cinco homens estupraram jovem

Os fatos e as discussões sobre o caso do estupro

Ontem, a delegada que comanda o inquérito sobre o estupro coletivo no Rio de Janeiro libertou o terceiro acusado detido. Não encontrou provas de que tivesse participado do estupro.

Com o primado da primeira versão do estupro coletivo, foram presos Lucas Perdomo, 20 anos, Marcelo Miranda da Cruz Correa, 18 anos, Michel Brasil da Silva, 20 anos. Os três detidos, vítimas do clamor popular; os três inocentes. Dois deles divulgaram os vídeos da moça, nua, desacordada. Serão processados e pagarão pelo que fizeram. E só não pagarão pelo que não fizeram porque o clamor popular refluiu, à falta de informações mais consistentes sobre o episódio.

As investigações continuam, há evidências de que mais de uma pessoa participou do estupro – o que caracterizaria a “estupro coletivo”. Com cuidado, sem a pressão da opinião pública, é possível que se chegue aos culpados, e que eles sejam efetivamente punidos, sem a lambança de prender inocentes para atender ao clamor da opinião pública..

O avanço das discussões sobre direitos de oprimidos tem alertado sobre a importância do protagonismo da narrativa ser de quem sofre na pele a discriminação. Ontem, em um debate na Faculdade de Filosofia, Laura Capriglione – da Jornalistas Livres – enfatizava essa questão. E lembrava que, no caso da Escola Base, a revista Veja não embarcou na história devido às desconfianças da repórter em relação ao depoimento da mãe que acusava a escola. Por que essa sensibilidade? Porque a repórter era descendente de japoneses, da mesma maneira que o dono da escola.

Veja não embarcou, mas também não ousou remar contra a maré. Calou-se. O massacre cessou quando alguns jornalistas ousaram fazer jornalismo e apontar as inconsistências das acusações.

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Mas sua posição, sobre o protagonismo da narrativa, é fundamentalmente correta. E aí remete para o caso do estupro coletivo.

Lá, entrelaçaram-se três narrativas distintas: a do delegado inicial, com uma possível conduta machista em relação à vítima; a da vítima e das feministas, transformando a tragédia em bandeira contra a cultura do estupro; e dos jovens favelados, todos eles negros, todos eles pobres, sem ninguém para patrocinar sua causa perante a opinião pública.

Na relação entre eles e a moça, no ambiente sem lei da favela, eles são os machos, ela a vítima. Na hora de se buscar culpados a qualquer preço, eles são as vítimas.

O que fazer em uma quadra dessas? Simples: apurar os fatos, fazer jornalismo. Primeiro, descobrir o que houve, de fato. Depois, abrir as discussões sobre as implicações do que foi apurado.

E aí se entra em uma encrenca colossal.

Há um enorme estoque de argumentos machistas alimentando a cultura do estupro: a presunção de que a culpa é sempre da vítima; a minimização dos abusos, a ponto de não considerar como tal atentados violentos ao pudor, desde que não haja penetração. São preconceitos concretos, que fazem parte do dia-a-dia das vítimas de estupro.

O fato de frequentemente se colocar em dúvida a palavra da vítima, contudo, não pode legitimar o oposto: o de automaticamente aceitar a primeira versão da vítima e sair a caçar culpados antes de uma investigação criteriosa.

Os movimentos em defesa dos vulneráveis conquistaram avanços fundamentais nos últimos anos que consistem em não circunscrever a luta pelos direitos no âmbito restrito de cada grupo.

Há machismo no movimento negro, misoginia na esquerda, misandria no movimento feminista,  preconceitos variados contra os deficientes. Os avanços sociais consistem em combater a discriminação como um todo, solidarizar-se na busca da igualdade e do princípio do tratamento desigual aos desiguais. E conseguir identificar em cada grupo vulnerável, os mais vulneráveis.

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O caso do estupro coletivo pode ser dividido em duas vertentes: a primeira, a apuração efetiva dos fatos, do que ocorreu; segunda, a discussão sobre as implicações de cada abuso ocorrido.

Por exemplo, fato: a moça foi filmada desacordada, com marmanjos mexendo em suas partes íntimas. Há uma discussão sobre se é estupro ou abuso. Tenho para mim que é estupro, mesmo sem penetração. De qualquer modo, o fato comporta discussões e cabe às feministas desmistificar essa ideia de que a única forma de abuso é a penetração.

O  fato é sagrado, e aí reside a relevância do bom jornalismo e da boa investigação.

O bom jornalismo não se pode curvar à visão utilitarista da cobertura. A primeira versão divulgada – de 33 estupradores – criou uma comoção nacional que teve o lado positivo de empinar a bandeira do combate à cultura do estupro. Mas teve o lado negativo de jogar a carga de punição em cima de jovens vulneráveis, sem apurar devidamente suas responsabilidades.

Não se pode embarcar nesse mecanicismo de considerar que a defesa da presunção de inocência dos jovens signifique a presunção da culpa da vítima, ou a condenação do feminismo.

Felizmente, o moderno movimento feminista ganhou uma sofisticação maior, que coloca a maioria de seus integrantes à salvo das simplificações e dos bordões. Independentemente de terem sido 3 ou 30 estupradores, não tira a relevância do movimento contra a cultura do estupro.

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9 comentários

  1. Quanto a “Veja não embarcou,

    Quanto a “Veja não embarcou, mas também não ousou remar contra a maré. Calou-se. O massacre cessou quando alguns jornalistas ousaram fazer jornalismo e apontar as inconsistências das acusações”:

    Documentadamente, nao houve “jornalistas” que embarcaram contra o “caso” Escola Base, houve o Nassif somente.  E Veja nao faz jornalismo.

    Quanto aa garota dizendo que foi estuprada por 85 homens armados com bazucas ou o que quer que seja:  a vitima sabia que tinha sido estuprada e sabia que foi mais de uma pessoa.  E nao tem experiencia de vida suficiente.  Pra piorar, estava drogada involuntariamente e so se lembrava de “garotos” a manipulando ou “homens armados” aa sua volta.

    Quanto aas dezenas, centenas, milhares de pessoas que a estupraram:  nao, nao aconteceu.  Foi no maximo duas pessoas e eles sao parentes ou amicissimos.  Nem mesmo “favelados pretos e pobres e petistas e putos” se rebaixariam a ser o quarto ou quinto estuprador:  isso nao existe exceto em casos rarissimos e extremos, ninguem se descuida do proprio pinto dessa maneira.  Eh impossivel.

    Nai se engane a meu respeito:  eu quero que os culpados sejam fritos e esquartejados.

    SOMENTE os culpados.  A mal-entendidissima opiniao do Nassif em primeiros artigos contrarios eh exatamente a minha!

  2. Não foi o cara que gravou,

    Não foi o cara que gravou, com a língua de fora, que insinuou, ou garantiu, que a menina teria sido estuprada por 30?

    Agora, estou ciente de que a vítima, moça jovem, não pode ter falado a verdade quando disse que acordou em outra casa com um homem embaixo dela, outro não sei onde, e de ter contado trinta; depois, mais de trinta, e parece ter chegado a menos de trinta. 

    Se a moça quis nos fazer entender que fora transportada do local onde esteve primeiro com o namorado para outro, sem saber de nada, e acordado com esse bando de homem a seu lado, eu, de minha parte nãoa creditei de jeito nenhum, pelo seguinte:

    Por  mais liberal que seja uma mulher – de qualquer idade – se for dopada e estuprada por um homem violento – um apenas -, ao acordar vai estar muito tonta, mas também sangrando e cheia de dor, sem reflexo suficiente para ver a cara dele, e tudo mais que está em torno dela, como a porta, a cor da porta, o tipo de maçaneta, por exemplo. E sendo trinta, como contar essa tropa? Tem mais: naquele cubículo filmado o tempo todo para as televisões, não caberia tanto homem em torno daquele colchão. 

    Fiqiuei mais impressionada com a declaração dela sobre esses trinta homens. Não acreidtei. Por outro lado, é tão nojento, tão deplorável a cena dos moleques durante a filmagem da menina despida, que só de ouvir falar – nada vi – me sinto nauseada.  

    Houve crime; houve estupro. Isto é ponto final? Não é, porque, diz bem o Jornalista Nassif, que é preciso cuidar para não atacar, humilhar e prender jovens inocentes. 

    Que essa história tenha um desfecho legal para que estupradores cumpram suas penas e para que esss jovem, mãe de uma criança, com uma vida pela frente, possa ainda ser muito feliz, e quem sabe, ajudar a outras mulheres que passem por problemas semelhantes.

  3. Então quer dizer que se a

    Então quer dizer que se a jornalista não fosse descendente de japoneses ela embarcaria na história da Escola Base?

    Como podemos dizer qual será o comportamento de uma vítima logo após o estupro? 

    Tive caso na família e a pessoa, apesar de todo o trauma, se lembrava dos detalhes, do rosto da pessoa e do local para onde foi levada. Passou tudo isto pro delegado que simplesmente ignorou e durante muitos anos dava de cara com o monstro em todos os lugares, sendo obrigada a ver seu sorrisinho cinico.

    Vamos parar de simplificar e sistematizar as reações pós-traumáticas.

  4. Clamor

    Note que, no Brasil, policia só investiga o que causa comoção. Já prestei queixa por roubo (furtaram meu notebook de dentro do meu carro quando parei para almoçar) e a policia civil não tirou digitais, não investigou nada, limitou-se ao boletim de ocorrência e só.

    Suzane on Richthofen e Isabela Nardoni teriam como destino o ostracismo se não fosse a repercussão dos seus casos.

    • Voce infelizmente está certo,

      Voce infelizmente está certo, e eu tambem já passei por situação identica. E mais infelizmente ainda é que a polícia simplesmente não tem como investigar a fundo todos os casos de furto e roubo.

  5. O peace maker

    Os fatos nunca surgem isolados. O julgamento destes também não. Assim nasce um misto de conceito e preconceito que é dificil controlar.  E isto contamina a todos, midia e população. E assim, o julgamente de todos os envolvidos, culpado(s) e vítima ocorre na velocidade da luz. Pelo menos não houve linchamento… ainda. Se tivesse acontecido na West Country Side, ou velho oeste, em meados de 1800, na ainda não inteiramente colonizada América do Norte, estariam os 30 ou 33, balançando todos na ponta de uma corda. Todos talvez não, pois alguns estariam crivados de balas .45 das Colt ou das Winchesters.

    Hoje isso não acontece mais no interior americano, acontece é nos bairros pobres de Los Angeles. Só que lá agora usam pistolas semi automáticas, escopetas e facas de assalto militares.

    Na Inglaterra provavelmente resolveriam com soco ingles, estiletadas, ou a porrete mesmo.

    No Oriente Médio seriam executados a pedradas, e na Rússia, seriam fuzilados e depois enviados à Sibéria, como provisão de inverno para os Sakha (tribos Yakuts) . Na China, virariam recheio de pastel e na India talvez fossem até condecorados. Na França, perguntariam se antes de estuprar eles beijaram e na Alemanha iriam saber quantas cervejas a vítima tomou antes do fato. Os italianos diriam va benne. La vita è una bruta merda putana. Che cosa possiamo fare?

    O ser humano não é um delícia de pessoa?

  6. Engraçado…

    Engraçada essa lógica da Justiça arrolada pelo Nassif. Mais parece uma disputa pra ver quem é o mais oprimido.

    Será que é realmente com isso que conseguiremos fazer justiça? por via do particularismo identitário do “oprimido”? Isso é Justiça ou oportunismo piegas?

    Ou será que a “libertação” (das opressões) não seria a ampliação da cidadania, num horizonte em que todos são partícipes dela?

    A “distribuição desigual de desigualdades” é apenas a última lorota liberal para não pôr jamais as relações em questão, é a transformação (utilitária) da “identidade” em “utilidade”:

    http://jornalggn.com.br/comment/931787#comment-931787

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