Privacidade – Adriana Avellar

Este texto vem fresquinho e direto do Blog e(fêmea)ra (http://efemeara.blogspot.com/) da minha queridissima Adriana Avellar, roteirista de cinema, teatro e TV. Renovação na cultura.  Leiam o final é surpreendente…

 

A velha, toda excitada. Novos moradores no prédio. Um jovem casal. Apartamento vizinho. Enfim, diversão. Copo emborcado colado na parede. Ouvido colado no copo. Som de TV. Jogo. Droga.
Seu passatempo predileto: ouvir conversas, decifrar sons, desvendar intimidades, reviver seu próprio passado. Passado remoto. 
Do outro lado da parede, apenas um jogo de futebol na TV.

Mulher – Amo-or.

E a velha na torcida.

Mulher – Amo-or. Tô falando com você.
Homem – Hum?
Mulher – Ah, larga esse jogo. Olha pra mim.
Homem – Hum?
Mulher – Sabe aquele negócio que você pediu?
Homem- Ahã!!!
Mulher – Eu topo!
Homem – Aããããããaããããã?!?
Mulher – Eu topo!
Homem – Sério?!?!
Mulher – Sério. Mas tem que ser agora.
Homem – Na hora do jogo?
Mulher –  Aproveita que eu tô animada.
Homem – Agora?
Mulher – Se você acha esse jogo, que nem é do seu time, mais importante.
Homem – Não é por isso. É por causa da hora.
Mulher – Tem que ter hora certa?
Homem – Se a gente fizer muito barulho, os vizinhos vão ouvir!
Mulher – E daí, se ouvir?
Homem – Outro dia reclamaram com o síndico do casal vizinho aí de cima.
Mulher – Nós acabamos de nos mudar. Você nem conhece vizinho nenhum. Como é que sabe disso?
Homem – Ouvi no elevador.
Mulher – Sei… Você prefere o jogo, né?
Homem – Não é isso.
Mulher – O que é então?
Homem – É que aqui ao lado mora uma senhora. Ela pode ficar incomodada.

Se a velha pudesse, gritaria: “incomodada ficava a sua avó!” Mas o anonimato é o segredo de sua diversão.

Mulher – Você acha que ela vai ouvir alguma coisa?
Homem – Não sei. Como vou saber?
Mulher – A gente faz baixinho. E qualquer coisa, põe uma toalha pra abafar o som. Não é você mesmo que diz que a gente deve fazer as coisas na hora que dá vontade?
Homem – Olha, você está me instigando! Você pensou realmente nisso? Tá decidida?

E a velha: “Maricas”

Mulher – O que você acha?
Homem – Você me instiga e depois muda de idéia.
Mulher – Prometo que vou até o fim.
Homem – Tem certeza?
Mulher – Nossa, anjo, você não acredita em mim?
Homem – Eu acredito, mas você mudar de idéia não custa. Depois eu que fico aí, frustrado.

E a velha: “age, rapaz!”

Mulher – Nossa, mas o mundo não vai acabar por isso.
Homem – Tá vendo? Já to percebendo sua intenção.
Mulher – Juro que vou até o fim. Olha, vou beijar os dedos.
Homem – Então tá. Vamos rápido antes que você mude de idéia.
Mulher – Rápido também não, né? Já que eu deixei. Vamos com calma, pra fazer direito.
Homem – Tudo bem. Com calma. Vem cá. Bem devagarinho. Vou lá pegar uns acessórios.

E a velha, expectativa.

Mulher – Já trouxe tudo. Aqui. Não é isso?
Homem – Hum, muito bem. Você tá entendendo do assunto.
Mulher – Aprendi com você.
Homem – Então eu sou seu professor, é?
Mulher – É. Meu lindo professor. Dessas coisas, claro.
Homem – Lógico. Tudo o mais quem ensina aqui é você.
Mulher – Então, pega aqui.
Homem – Onde?

E a velha: “e ele não sabe onde se pega?, ô raios!”

Mulher – Mais ou menos aqui.
Homem – Mais ou menos?
Mulher – Você vai tateando, e eu vou dizendo, até encontrar o ponto.
Homem – Pronto. Lá vem você com essa história de ponto.
Mulher – Assim você me magoa.
Homem – Eu te magoo? Você vive dando ordens! Até parece que eu não entendo do assunto!
Mulher – Também não precisa ficar nervoso!

E a velha: “calma, moço!”

Homem – Eu não tô nervoso!
Mulher – Então me dá um beijinho para provar que não tá nervoso.
Homem – schuuuuuuuuuuf. Então, onde é o ponto?
Mulher – É bem aqui, ó, no meinho.
Homem – Aqui?
Mulher – Só um pouquinho para o lado.
Homem – Assim?
Mulher – Não do lado de lá.
Homem – Lá onde?
Mulher – Lá onde, como assim?
Homem – Esquerda ou direita?

E a velha: “não sabe tatear não, molenga?”

Mulher – Não sei.
Homem – Como não sabe?
Mulher – Depende do ponto de vista.
Homem – Ahn?
Mulher – O meu ou o seu?
Homem – Ahn?
Mulher – Você está de frente pra mim. A minha direita é sua esquerda. Você quer qual?
Homem – O seu.
Mulher – Mas em relação à sua mão ou ao meu lado direito ou esquerdo?
Homem – Não acredito!
Mulher – Tá vendo? Você se irrita a toa! E olha que eu estou atendendo um pedido seu! Ficou mais de um mês só falando nisso!

E a velha, impaciente: “mas nem eu e o falecido!”

Homem – Tá bem. Quando você falar pra ir pra esquerda é para o lado do seu coração, tudo bem?
Mulher – Tudo bem. Parece até que eu sou burra.
Homem – Burra não. Confusa.
Mulher – Daqui a pouco eu mudo de idéia.
Homem – O que não ia ser novidade. Você vive mudando de idéia!
Mulher – Tá vendo? Você não me entende mesmo!

E a velha: “nessa parte tá igual”.

Homem – Não precisa fazer drama. Tá, pra que lado?
Mulher – Pra direita. Pra minha direita.
Homem – Aqui?
Mulher – Foi muito. Agora para a esquerda.
Homem – Assim?
Mulher – Um pouco pra cima. Não, agora pra baixo. Tem que ser bem o meinho. Só mais um pouquinho pra esquerda. Direita. Não, baixo. Não falei diagonal, falei pra baixo. Aí você está pegando uma diagonal ao contrário. Ah!!!!!!!!!!
Homem – Ah, o quê?
Mulher – Tô te indicando tudo direito, mas você não encontra o ponto exato! Não consegue!

E a velha: “Esse aí nem com mapa!”

Homem – Eu não consigo? Agora a culpa é minha!
Mulher – Não é questão de culpado. Você sempre quer encontrar um culpado! Eu estou falando direitinho onde é. Milímetro a milímetro. É só ter sensibilidade e seguir o que eu estou dizendo.
Homem – Você sempre quer que eu siga o que você está dizendo!
Mulher – Mas você mesmo tinha dito pra eu indicar!
Homem – É só não ficar me pressionando.
Mulher – Eu só quis ajudar.
Homem – Também não precisa fazer essa cara.
Mulher – Eu não tô fazendo cara nenhuma.
Homem – Você não vai chorar por isso.

E a velha: “pronto, melou!”
Mulher – (…).
Homem – Tava bom demais pra ser verdade.
Mulher – Tava bom mesmo? Sério?
Homem – Claro, amorzinho, você tava mostrando o ponto direitinho. E eu quero muito isso.

E a velha: “então vai, filho, não desiste”.

Mulher – Mas você só fica criticando…
Homem – Tá bom. Eu não falo nada. Eu deixo você guiar. Você faz o que quiser. Eu faço o que você quiser. Vamos de novo?

E a velha: “Isso, meu filho”!

Mulher – Agora perdi o clima…
Homem – Perdeu o clima?!? Você me faz largar o jogo, chegar até aqui pra me dizer que perdeu o clima?!?
Mulher – É isso mesmo. Perdi o clima.
Homem – Eu nem tava a fim! Foi você quem insistiu. E agora vem dizer que perdeu o clima?!? Olha como eu tô todo suado desse sobe e desce.
Mulher – Toma um banho!

E a velha: “coitada”!

Homem – Você tem noção?!? Nós estamos há duas horas nessa! Por mim, podia ir de qualquer maneira, que tava bom. Mas você não! Tem que encontrar o ponto exato! Eu estou aqui há duas horas seguindo suas instruções pra encontrar esse raio desse ponto! Exatamente “O Ponto”!
Mulher – Você tá nervoso?
Homem – O que você acha?
Mulher – Vem cá. Deixa eu te dar um beijinho. Acho que isso não foi uma boa idéia. Vamos namorar um pouquinho.Vamos deixar pra pregar esse quadro dos 100 anos do Corínthians na parede outro dia.

E a velha?

FIM

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