“Se Otavio Frias estivesse vivo, ajudaria a derrubar o Bolsonaro”, diz Marilene Felinto

Em entrevista à Pública, a escritora conversou sobre sua participação na Flip, política e cobertura da imprensa no atual governo

Foto: Daniel Barbosa/AP

Por Andrea Dip e Natalia Viana

Da Agência Pública

Marilene Felinto: “Se o Otavio Frias estivesse vivo, ajudaria a derrubar o Bolsonaro”

Na semana passada, por conta da Flip, Festa Literária de Paraty, a escritora Marilene Felinto voltou às páginas da imprensa nacional depois de mais de uma década afastada. Mas, sinceramente, diz que não sabe se gosta da atenção. “Ainda estou nesse estágio da surpresa”, resume.

Marilene vive parte da semana na serra da Mantiqueira, no interior paulista, afastada das redes sociais, e diz que evita até mesmo acompanhar as notícias. “Eu não tenho estômago, eu preciso preservar minha saúde física e mental”, diz. Segundo ela, após ter participado ativamente dos eventos políticos dos últimos anos que levaram à eleição de Bolsonaro, agora a imprensa busca se redimir. “O que aconteceu aqui nessa eleição do Bolsonaro foi uma espécie de guerra dos pobres contra os pobres muito alimentada pela mídia.”

Ao longo da entrevista, Marilene falou ainda da necessidade de escrever ficção – que descreve como “absurda e ridícula ao mesmo tempo” – e sobre o prefácio da nova edição da sua obra Mulheres de Tijucopapo, relançada de maneira independente, no qual narra um estupro que sofreu de um editor que prometera ajudá-la a publicar seu primeiro livro.

Embora diga que vai voltar a publicar livros após essa longa pausa, ela avisa aos fãs: “Não esperem nada de mim, porque eu não sou isso que está na cabeça do fã”. Para quem não vai esquecê-la, seus livros podem ser baixados aqui em formato e-book.

Natalia Viana – A primeira coisa que eu queria perguntar é se você gostou de ir à Flip, porque você disse que estava em dúvida sobre se aceitaria ou não.

Eu ainda não sei se gostei ou não. Achei interessante o número de pessoas que assistiu à minha fala, e as reações foram surpreendentes. Ainda estou nesse estágio da surpresa. Não sei dizer se gostei ou não.

Andrea Dip – Na sua fala da Flip, você comentou que não participou de uma matéria na Globo que era uma conversa com as principais escritoras negras, e que no dia anterior eles tinham feito uma outra matéria que era sobre os escritores mais importantes. Você acha que existe um falso engajamento em pautas como o feminismo ou o movimento negro por parte de empresas na medida em que essas pautas se tornam mais discutidas? Tem uma cooptação dessas lutas?

Não sei se é uma tentativa de cooptação, mas em certa medida parece. Se você observar a presença de negros e negras em novelas ou em anúncios publicitários, aumentou um pouco, isso é inegável. Mas ainda é uma coisa de cotas muito pequenas. Quanto a esse convite da Globo, nada contra aparecer com as escritoras negras, não é isso. Eu acho que a escolha que eles fazem é sempre de um lugar de olhar para o que eles chamam de minoria, quando somos maioria. Sempre colocam as minorias juntas ali num espacinho, uma conversa de 20 minutos para o Jornal da Globo. Não tenho muita paciência para a Rede Globo porque, vocês sabem melhor do que eu, mesmo nesse momento em que temos as revelações da Vaza Jato, eles não dão a mínima importância. Não quero aparecer ali, não tenho por que aparecer ali.

Natalia Viana – Embora você não tenha aparecido na Globo, você foi uma articulista extremamente importante da Folha de S.Paulo por dez anos. Queria perguntar sobre aquele episódio do final da sua saída, e se você acha que mudou alguma coisa nos jornais desde a época em que você saiu. Ou o jogo é mais ou menos parecido?

Ah, eu acho que o jogo é bem parecido. Eu tô muito por fora, perdi o contato com esse mundo jornalístico. Todas as pessoas com quem eu me relacionava, eu só fui reencontrar aqui na Flip. Pessoas que eu não via há 15 anos! Era um grupo de amigos cujo centro de gravidade era o Otavio [Frias Filho], e eu era um ponto fora da curva. Quando eu me afastei do Otavio, eu sabia que tinha que me afastar de todo mundo porque eles iam continuar orbitando em torno dele. Eu tinha muito contato com os bastidores. Eu conheço o que eu vivi ali na Folha, mas pelos relatos que eu ouvi nesses 15 anos acho que a coisa mudou muito pouco. Piorou em certo sentido porque a própria Folha virou um jornal de direita, né? Agora parece que tá correndo atrás do prejuízo, como alguns outros. O Estadão era também um jornal que não me publicava, até publicou algumas resenhas de livros meus, publicou essa minha fala da Flip. Até me surpreendeu um pouco.

Natalia Viana – Você falou que havia uma manipulação, uma censura… O que a incomodava ali?

Na verdade, eu posso dizer que eu tinha alguma liberdade para dizer o que eu dizia ali, mas no dia seguinte eu levava dura, entendeu? Eles não liam minha coluna antes, mas no dia seguinte eu era abordada. Eu tinha uma liberdade, até falava muita besteira, uma coisa muito louca, sempre me colocando nessa postura de quem escreve ficção, que é uma coisa muito sem amarras. Isso num jornal soava muitas vezes violento. O Otavio várias vezes me chamou. Poucas vezes, acho que só duas, ele disse que o texto não ia sair por causa disso, disso e disso, porque eu devo satisfação a não sei quem. As outras vezes eram pós-publicação, que ele não tinha lido o texto antes. Então isso me enchia um pouco o saco, era ruim, mas eu era tida como alguém com uma liberdade lá dentro. Quando eu saí, quando o Lula foi eleito, que a coisa explodiu. O cara disse com todas as letras: “Tudo o que você escrever vai passar por mim”. Aí eu caí fora.

Natalia Viana – Você era elogiosa ao governo Lula, era isso? Sua visão era positiva?

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Não. O Lula foi eleito em 2002, e eu fui acusada pelo Otavio de fazer campanha para o Lula. E o jornal fazia campanha clara para o Serra. Ele odiava o Lula, pessoa física. Então todo o ódio dele contra o Lula se expressou ali naquela coisa contra mim. Eu escrevi uma coluna, que tá publicada no livro Fama e infâmia. Nessa minha última coluna, eu comemorei mesmo a eleição do Lula. Aí ele ficou puto, falou que eu tava atuando contra o jornal, por isso ele queria me censurar dali pra frente.

Natalia Viana – Como você avalia a cobertura da imprensa sobre a situação do Brasil hoje? O governo Bolsonaro, primeiro governo de ultradireita desde a redemocratização.

Andrea Dip – E se puder acrescentar também, não só no que a imprensa publicou, mas nesse próprio jogo que você fala, dos bastidores da imprensa.

Eu acho que a imprensa teve todo o peso, em conluio com o interesse econômico. Vendo de longe e sendo leiga, acho que aconteceu o contrário do que aconteceu nas quatro eleições petistas, em que a internet teve um papel fundamental para que ele se elegesse. Agora aconteceu o contrário: a direita usou a mesma ferramenta, e a imprensa corporativa atuou junto com o interesse econômico. Inclusive, soube agora que amigos que eram muito próximos do Otavio afastaram-se dele porque a Folha deu uma guinada absurda à direita. Eu até já disse isso em entrevistas, mas não publicaram. Eu disse que, se o Otavio estivesse vivo, da mesma maneira como ele fez campanha para o Collor na primeira eleição – ele fez campanha para o Collor claramente, falava que o Brasil ia ser modernizado, que aqui só tinha carro velho e o Collor ia colocar carros fantásticos – e depois que o Collor invadiu a Folha, ele ajudou a derrubar. Ele tinha essa esquizofrenia básica [risos]. Hoje ele saberia que o jornal ajudou a eleger esse fascista escroto que tá aí, e ele ajudaria a derrubar. Os caras que tão lá não têm peito para fazer isso, também não têm autonomia, porque não são donos do jornal.

Natalia Viana – Quando você fala que a mídia deve uma reparação histórica aos brasileiros, você está falando desse momento do impeachment para cá? Como seria essa reparação histórica?

É do impeachment para cá. A eleição desse cara. Não sei como seria essa reparação, mas acho que com essa história da Vaza Jato e do Intercept, eles [a imprensa] estão tentando corrigir alguma coisa.

Andrea Dip – Você também dedicou sua fala na Flip, entre outras pessoas, à Dilma. Tanto a esquerda como a direita citam muito pouco a Dilma. Quando se fala dos governos, geralmente se pula do governo Lula para o atual. Você acha que a Dilma foi e é injustiçada, e você acha que é por ela ser mulher?

Eu tenho certeza que é por ela ser mulher. Certeza absoluta. Eles tiram de cena como se ela não existisse. A eleição dela foi fundamental, acho que a gente deveria celebrar sempre que uma mulher ocupou a Presidência da República num país como esse. Hoje eu nem acredito muito [risos]. Acho que ela cometeu erros muito primários no governo dela, com conchavos. Mas não sou especialista e não sei avaliar isso. Mas tenho certeza de que ignoram o governo dela porque ela é mulher.

Foto: Daniel Barbosa

Em entrevista à Pública, a escritora Marilene Felinto, falou sobre política e a nova edição de seu livro Mulheres de Tijucopapo

Natalia Viana – Aproveitando – naquela época que você escrevia na Folha, na revista Caros Amigos –, eu queria perguntar se você não tem saudade de escrever artigos de opinião e de estar mais ali no meio do debate, da política do dia a dia.

Nenhuma saudade. Graças a Deus não estou, não quero mais. Acho pouco saudável. Encontrei esse pessoal de que eu falei agora que eu não via há 15 anos, todos jornalistas, e eu acho que eu tô bem. Eu não quero. Acho que eles sofrem mais que eu, sabe, assim uma coisa tensa que eu, graças a Deus, não tô tendo nesse momento da minha vida. Eu leio pouquíssima imprensa hoje em dia no que se refere a política porque eu não tenho estômago. Eu preciso preservar minha saúde física e mental.

Andrea Dip – Você comentou um pouco que muito desse burburinho e dessa fama não tem a ver com o silêncio necessário pra escrever ficção. Eu queria perguntar se esse silêncio é possível em tempos tão barulhentos que a gente vive hoje, em que as notícias gritam, as pessoas nas redes sociais escrevem gritando. São tempos barulhentos. Como e se você consegue se manter afastada dessa gritaria e se você consegue manter de fato um silêncio para conseguir escrever em paz.

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Eu consigo, sim. Depois de 15 anos afastada disso – e quer dizer eu moro metade da semana fora de São Paulo, no alto da serra da Mantiqueira, que é um lugar super silencioso. E esse silêncio que eu falo não é nem um silêncio físico, entende?, é um silêncio interior. E eu escrevo não porque eu goste, eu escrevo ficção não porque eu ache uma maravilha, nada disso, mas é porque é uma necessidade absurda e ridícula ao mesmo tempo, de botar no papel algumas coisas que eu vivencio que são difíceis de suportar se você não transforma aquilo numa outra coisa. E mesmo tendo redes sociais, eu sou muito leve assim em redes social, eu tenho dois sobrinhos que tomam um pouco de conta disso pra mim. Eu tinha cem amigos só no Facebook, agora eu tenho 400, em dois dias aumentou pra 400. Depois dessa Flip, o negócio foi exponencialmente crescendo. Meus sobrinhos tão tocando esse negócio, fazendo umas postagens, aí me jogaram no Instagram, que eu nem tinha. Eu até gosto muito da tecnologia, de informação, eu sou bem ligada na coisa de como é que funciona, eu gosto de saber, eu sei bastante até. Mas essa coisa de ficar postando, de ter 1.500 amigos não sei onde e mais 3 mil não sei onde, eu nunca tive…. Agora eu tô chocada, porque já tô com 400.

Natalia Viana – Então, a gente queria comentar um pouquinho o prefácio do seu livro. O prefácio traz a público várias violências que você sofreu para publicá-lo, e é inclusive muito corajoso. Você acha que daquela época para hoje mudou alguma coisa para as mulheres escritoras e jornalistas nessa relação de poder, no mundo dos editores, homens brancos e tal?

Difícil responder isso, pra mim. Porque eu também estava longe do contato com editoras. Mas eu, aqui no Brasil e também fora, acho que o predomínio ainda é masculino nesse universo. Eu tive uma grande editora que foi a Luciana Villas-Boas, da editora Record, uma mulher fantástica, e ela tinha poder ali dentro. Agora, a editora não era dela, mas ela era a editora executiva, uma mulher admirável, muito sensível. Foi a minha primeira experiência com uma editora que era de fato uma mulher, que conseguia fazer as coisas. Agora, hoje eu não sei.

Eu não procurei editora nesses 15 anos. Então, assim, quando eu decidi agora fazer isso por causa da Flip, eu tive essa ideia via meu sobrinho, que é dessa área de TI, que já tava fazendo e-books dos meus livros, de publicar sozinha e vender sozinha. Ele que vende pelo site da Amazon. Então, por enquanto tá assim. Eu não sei direito se o poder mudou de foco para as mulheres. Eu acredito que ainda não, sabe.

Natalia Viana – Você está feliz com a experiência de relançar? Está vendendo?

É, feliz eu não sei, porque eu publiquei poucos exemplares de cada título meu. Que agora você faz assim: se vendeu tudo, aí você reimprime, porque já tá pronto. Custa menos uma segunda impressão. Então, eu fiz poucos exemplares e vendeu. Essa Flip aí é uma vitrine absurda, né? Você tem um aumento de amigos seus na internet, você vende livro [risos]. Eu vendi muitos livros, vou ter que reimprimir, vendeu quase tudo, praticamente.

Andrea Dip – E por que você decidiu relançar de forma independente?

Eu nem tinha pensado nisso, mas pelo incentivo do meu sobrinho que faz e-books. E ele falou: “A gente pode fazer impresso também. A gente faz impresso e bota pra vender, o dinheiro é todo seu”. Eles ficam lá com uma porcentagem mínima. Esse mundo editorial sempre foi muito cruel, eu acho. Decidi meio assim, a toque de caixa, numa solução muito familiar, muito caseira. Foi assim.

Natalia Viana – No seu prefácio, você acabou enumerando duas violências que você sofreu de editores homens e um acolhimento das editoras mulheres. Eu queria perguntar se isso foi uma percepção que você teve já naquela época ou se é uma reflexão a posteriori, talvez influenciada pelo movimento feminista de hoje.

Na época em que esses fatos aconteceram, eu não tinha exatamente consciência do que estava acontecendo. Eu era muito jovem ainda e eu peitava os acontecimentos ao meu modo. Eu era meio louca assim nas minhas atitudes juvenis, mas eu sempre fui feminista. Isso, pra mim, é claríssimo. Mas eu não abordava essas afrontas que eu sofri pela via do feminismo, mas pela via de “porra, foda-se, eu sou uma pessoa e você é um escroto”. Eu sou uma pessoa antes de ser uma mulher, que é atacada, que é estuprada. Então eu sempre agi por essa via, que é uma defesa que eu adquiri desde menina por causa da pobreza na família. Tive que me defender sempre, né?, em todas as instâncias.

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Agora, esse feminismo jovem de hoje, com o movimento #MeToo, que eu acho o máximo, eu aposto nisso, nesse novo movimento. Não sei se me impactou, se me influenciou. Mas é um pouco por aí o meu caminho. Eu apoio, acho importante, mas eu nunca agi exatamente por essa via, embora eu seja feminista. Eu acho que o mundo tem que mudar em relação às mulheres, cada vez mais.

Natalia Viana – Você tomou a decisão de não publicar o nome desse editor, que acho que todas estamos bastante revoltadas com o que ele fez. Por quê?

Não sei. Podia ter falado na época, né? Esqueci. Na época ia ser um boom. Ia ser legal, mas eu hoje não vou falar o nome do cara. Não sei por que exatamente. Não tenho vontade de levantar a bola do cara, e falar o nome do cara é levantar a bola dele, eu acho. Deixa ele lá. Ele é um coitado.

É assim, eu não tenho saco pra ficar no foco. Se eu dou o nome desse cara, todos os holofotes vão se virar pra mim, né?

Andrea Dip – Você teria que reviver isso…

Não é nem reviver, porque quanto a isso eu não tenho medo. Eu ia gargalhar na cara do cara e dizer: “Tá vendo como você é babaca? Olha aí o que aconteceu. Agora eu tô te denunciando, babaca. Eu sou do #MeToo”. Não é que eu tenha trauma de reviver isso. Mas é que eu não tenho saco de que de repente eu dou o nome do cara e aí vem gente me perguntar, me entrevistar, não sei o quê. Eu não tô a fim de estar no centro do turbilhão.

Natalia Viana – Você acha que o recado foi dado a ele com essa publicação?

Ah, eu nem sei, cara, não sei. Não tenho ideia. Nem me interessa, pra dizer bem a verdade.

Natalia Viana – Nesse prefácio, você falou também que confia a tarefa a mulheres mais jovens, que aposta nas gerações mais novas. Eu li isso, achei muito otimista da sua parte. Queria perguntar qual é a sua visão sobre os jovens de hoje politicamente e qual sua percepção sobre a penetração dos grupos de direita e de ultradireita nessa juventude, que é um fenômeno dos dias de hoje.

Eu acho que tem um fato muito positivo, que é a negação. E eu vejo pela geração dos meus sobrinhos, porque eu não tenho filhos. E a geração até um pouco mais nova que eles. Eles negam esse sistema político partidário. Eles não acreditam nisso, eles não confiam mais nisso, embora muitos deles ainda votem numa posição de esquerda. Mas eles têm altas críticas que eu acho muito saudáveis. Mas, por outro lado, eu acho que é difícil eles se envolverem a ponto de mudar essa situação, de batalhar por um outro sistema político. Eles estão perdidos nisso. Eles não confiam mais naquilo, eles acham podre. Mas eu não vejo envolvimento suficiente para optar por uma outra coisa, ou criar outra coisa.

A outra coisa é que, como eu disse nessa minha fala da Flip citando o Jessé de Sousa, acho que o que aconteceu aqui nessa eleição do Bolsonaro foi uma espécie de guerra dos pobres contra os pobres muito alimentada pela mídia. Então a infiltração desses grupos de direita nessa camada social tem a ver com isso. Quer dizer, a mídia insuflou, via ideologia de direita, uma guerra dos pobres contra os pobres. Então os caras estão atuando contra os seus melhores interesses. Eles estão completamente manipulados, eles não sabem mais nada.

Natalia Viana – Para terminar. Quem é seu leitor, quem é seu fã, o que deve esperar? Você vai lançar outro livro, vai voltar a dar entrevistas?

Escrever, eu continuei escrevendo normalmente. Publiquei muito pouco, talvez volte a publicar agora porque tem esse outro canal possível e que eu tenho controle sobre o que eu publico. Isso é um incentivo grande, embora não pareça. Mas é. Devo publicar mais coisas daqui por diante nesse esquema muito pequeno de, sabe, on demand, quando tem pedidos. Então você faz um número pequeno de exemplares, você imprime poucos exemplares e, se acabar, você imprime de novo. Então, uma coisa mais saudável.

Agora, fã, não espere nada, porque eu não sou isso que está na cabeça do fã. Infelizmente eu acho esse negócio de fã muito complicado, porque eu sempre tive enorme dificuldade com isso. Hoje em dia eu tô mais tranquila com isso, assim, de ser abordada: “Ai, você é linda, você é maravilhosa, você escreve não sei o quê”. Mas eu sempre tive enorme dificuldade. Tive até que fazer um pouco de terapia pra ver se melhorava. Mas, hoje, velha, eu não tô nem aí. Eu só falo: “Ó, não espera nada, não sou eu que está dentro da sua cabeça. Não sou eu essa pessoa”.

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9 comentários

  1. Algumas coisas interessantes da entrevista:

    1- sobre vender na Amazon: é interessante que mesmo pessoas tão conscientes sobre os males do mundo ainda não saibam o que é a Amazon; eu entendo porque também demorei a descobrir, e hoje me arrependo de ter descoberto tarde, porque financiei como consumidora, a máquina de escravidão que eles são; hoje não sou mais cliente e acho importante que pessoas como ela pensem melhor se querem alimentar uma plataforma que contraria seus valores políticos – vê como é o capitalismo: aperta o dono do jornal para não dar voz a ela quando, como jornalista, pode “formar opinião pública” diretamente; num ambiente onde suas ideias estão diluídas e acessíveis, como luxo ou souvenir em forma de livro “cult”, é aceita porque pode servir de isca para que se consumam outros produtos mais rentáveis do catálogo tão extenso que sua força crítica fica restrita “on demand” – desnecessário apertar o editor para abafar sua voz, a cacofonia dos muitos produtos o faz de maneira sutil; o que interessa é que ajude a diversificar e fidelizar a clientela… Capitalismo é bicho esperto, rs.
    2 – sobre silêncio e gritaria: falei dessa disputa em outro comentário hoje mais cedo, sob outros aspectos, porque me parecem as duas forças sociais e psicológicas mais características do tempo presente, como resposta recíproca ou não; no meu comentário, o silêncio como alienação (o povo que não reage) ou indiferença (o povo que não é ouvido quando fala), a gritaria como reação quase desesperada ao caos (eu, rs, brincadeirinha pero no mucho; as pessoas querendo atenção no mundo da hiperdispersão e da hiperconcorrência, o excesso que produz falta e vice-versa), e como forma premeditada e industrial, psy-op para produzir cacofonia, confusão, desorientação e ops, “sorria, você foi fraudado e não pode se defender”. O problema é menos sobre silêncio ou barulho, porque ambos necessários, mas a maneira como eles refletem nossa realidade, pessoal e coletiva, como se relacionam – silêncio nem sempre é bom e barulho nem sempre é ruim, como as perguntas da entrevista e nosso senso comum sugerem -, o que dizem e o que calam quando ambos se manifestam, e como são instrumentalizados pela indústria da comunicação e da cultura.
    3 – vaidade: me chamou a atenção que mesmo dizendo que não gosta de atenção, ficou mexida com os 400 “amigos” e com a repercussão de seu reaparecimento, rs. Por essas e outras que as redes sociais lucram bilhões e seus inventores são gênios da manipulação psicológica: disseram os Beatles que “tudo de que precisamos é amor”, e Miguel Falabella, que novela boa é “beijo na boca”, ou seja, somos emocionalmente primitivos e se apertarem os botões certos, nenhum de nós resiste aos apelos de Narciso…
    4 – o mais importante de toda a entrevista: a questão das novas gerações e a transição civilizacional que vão protagonizar – querendo ou não, estão historicamente condenadas a isso, rs -, e a falta de direcionamento de que padecem porque as gerações anteriores, com quem deveriam dialogar, não parecem interessadas na tarefa… ou as novas gerações sejam arrogantes demais – a onipotência hormonal agora tem seu equivalente cultural, as tecnologias que digitalizam a vida… – para lhes dar ouvidos. Com as muitas rupturas nas tradições culturais, talvez a mais perigosa e menos percebida seja o desamparo a que tantos jovens estão sendo submetidos, e talvez porque educados por gerações avessas, ou descomprometidas, com o empenho individual na vida coletiva, apresentem o que ela apontou – o desengajamento juvenil – com uma precisão que me alegra, não em si porque é um prognóstico trágico mas pela partilha de percepção; em conversa há algumas semanas com um livreiro “de esteira” (vendedores de rua), de gerações anteriores à minha, falei exatamente da minha desconfiança, e dela decorrente um temor maior pelo futuro que pelo presente, de que as novas gerações no Brasil não tenham a capacidade nem o interesse de se engajar em causas, políticas, sociais ou ambientais como as que construíram, bem ou mal, um Estado de Bem Estar Social e identidade cultural que flertou com a independência e a autonomia nacionais e populares. Se com a história acumulada de sacrifícios de tantos não conseguimos impedir a recolonização do Brasil, o que o futuro nos reserva – exposições de selfies da desgraça, festivais de funks proibidões da milícia bolsonarista, partidos políticos resumidos a facções do mbl, de igrejas pentecostais e representantes assumidos do crime organizado, alexandre frota querendo ser presidente em disputa com luciano huck?- e é tão ruim que não está longe da realidade e logo alguém começa a levar a sério o que era pra ser uma piada ridícula e de mau gosto, socooooorro! Virar um Porto Rico – com todo respeito ao povo de lá -, um anexo dos USA, pode ser menos pior do que o que as elites fdp pretendem.
    Quem lida com essas novas gerações, pais, parentes e professores, o que têm a dizer?
    Jovens, enquanto ainda o são… o que dizem em sua defesa, rs?
    Uma curiosidade: sempre que a vejo – e apesar de ter sido leitora da Folha não costumava acompanhar suas colunas – lembro de uma crítica mal humorada que fez de um disco da Legião Urbana, e de como ali se apresentou mais forte algo que se fortaleceu, graças a Deus, com o passar do tempo, a dessacralização do impresso, o questionamento de sua força diante da própria consciência e intuição. A lembrança com o tempo perdeu o gosto amargo e ficou apenas a lição. Grata por isso. Ela deveria pensar em voltar ao jornalismo, quem sabe um blogue – mais que silêncio ou barulho o que interessa é a sinfonia, ou cacofonia, de vozes plurais.

    Sampa/SP, 19/07/2019 – 20:14

    • Fui brindado, ao final dessa bela entrevista, com o seu ótimo comentário. Parabéns e obrigado (digo sem ironia).

    • Cristiane, também considerei a fala sobre os jovens a parte mais importante e a descrição mais precisa da realidade. Eu penso que a falta de propostas dos jovens (tem exceções, claro) advém da falta de responsabilidade com que foram criados. Os da classe média, seja alta, média ou baixa, estão irremediavelmente perdidos. Já os pobres sempre terão a realidade da pobreza a desafiá-los, o que fez surgir algo como a proposta dos mandatos coletivos. Se os jovens se sentem desamparados, eu digo que sinto não ter para quem passar o bastão.

  2. Otavio Frias está morto então dizer o que ele faria é tão válido quanto dizer o que meus também falecidos bisavós fariam. Ademais, considerando o retrospecto da dinastia Frias eu suponho que qualquer um deles emprestaria alegremente as peruas do jornal, de novo.

  3. Sejamos sensatos…

    Olha como o Brasil tem Racismo Estrutural embutido! Esta senhora, com tudo que representa, com todo o poder social que tem (embora não saiba), com toda a vivência para ser uma líder agora, roga para que um desses RICOS RACISTAS DO BRASIl que tantos golpes deram, volte a viver para golpear mais! NÃO SENHORA FELINTO! A Senhora pode mais! A SENHORA SABE QUE REPRESENTA AS MATRIARCAS DESTA NAÇÃO? SABE BEM O QUE A SENHORA REPRESENTA EM UM MOMENTO EM QUE UM RACISTA LESA PÁTRIA NOS GOVERNA?

    Isso é racismo estrutural! Viram como o Brasil é? Esqueçam Gilberto Freyre! Tragam Stan Lee! Precisamos de Panteras Negras aquí! O Caveira Vermelha nos governa e nem nos damos conta!

  4. Sejamos sensatos…

    Olha como o Brasil tem Síndrome Social de Racismo Estrutural Embutido (SSREE)! Esta senhora, com tudo que representa, com todo o poder social que tem (embora não saiba), com toda a vivência para ser uma líder agora, roga para que um desses RICOS RACISTAS DO BRASI, que tantos golpes deram, volte a viver para golpear mais! NÃO SENHORA FELINTO! A Senhora pode mais! A SENHORA SABE QUE REPRESENTA AS MATRIARCAS DESTA NAÇÃO? SABE BEM O QUE A SENHORA REPRESENTA EM UM MOMENTO EM QUE UM RACISTA LESA PÁTRIA NOS GOVERNA?

    Isso é racismo estrutural! Viram como o Brasil é? Esqueçam Gilberto Freyre! Tragam Stan Lee! Precisamos de Panteras Negras aquí! O Caveira Vermelha nos governa e nem nos damos conta!

    UMA PRESIDENTE FOI DERRUBADA POR SER MULHER! ALOU! ESTE GOVERNO CORTA RECURSOS QUE IRÃO IMPACTAR MAIS NA POPULAÇÃO NEGRA! ESSA DESGRAÇA É RACISTA! O DEMENTE DO BOLSONARO É RACISTA!

  5. Duvido muito que esse Otávio Frias faria algo fora do script golpista, escravocrata tupiniquim, alimentado pela empresa dele mesmo!

  6. A FOLHA me convenceu a votar em Lula. Felinto engana-se, o jornal não apoiou Collor.
    “Na campanha de 1989, o candidato Fernando Collor de Mello (então no PRN) foi foco de reportagens sobre indícios de irregularidades em suas gestões como prefeito de Maceió e governador de Alagoas.

    Em 23 de março de 1990, oito dias depois de tomar posse, Collor determinou que a Receita e a Polícia Federal invadissem o jornal, sob a alegação de uma devassa fiscal.”
    Antes da eleição a Folha também distrinchou a fantasia da ” caça aos marajás “

  7. isso que é respeito a democracia…sobre retirar o bolsonaro só pq não gostam dele…de resto parece um “cavalo” (incorporação de um espirito de porco) da Dilma..não entendi nada.

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