Sobre o que estamos falando? A cegueira que persegue o Brasil, por Camila Koenigstein

No momento vemos um país moralmente dividido, mas unido pela cortina que sempre escondeu o que acontece lá fora

Sobre o que estamos falando? A cegueira que persegue o Brasil

por Camila Koenigstein

O início do século passado foi fortemente marcado por diversas modificações no âmbito social, entre essas mudanças podemos citar uma alteração significativa no que tange práticas sanitárias.

Esse movimento que se iniciou em 1900, gerou novas práticas sobre saúde e rapidamente uma série de medidas foram adotadas no que tange o cuidado com o corpo, higiene, com a finalidade de determinar um novo tipo de homem, mais limpo, fortalecido e saudável. Ser saudável era ser moderno o contrário era o pobre e fraco, aquele que ainda carregava traços e doenças oriundas da Idade Média.

Como bem relatou Peter Cohen em seu documentário, Homo Sapiens 1900, vemos o nascimento do discurso sobre pureza e superioridade racial entre os homens, esse amparado pela ciência e não mais pela religião. Os estudos feito por médicos e cientistas, que posteriormente desenvolveram um corpo teórico sobre o tema, possibilitou à ascensão do nazismo e os discursos criados para justificar a “inferioridade” dos judeus, negros, gays, ciganos e pessoas doentes.

Entre essas doenças que persistiram através do tempo, está a hanseníase, nomenclatura criada como forma de diminuir o estigma que a palavra lepra criava. A hanseníase é uma doença causada por um bacilo, que se manifesta através da pele, comprometendo o aspecto físico do indivíduo. Em cada momento histórico a hanseníase/lepra foi retratada de uma forma. Com a ascensão da ciência houve uma mudança comportamental em relação aos enfermos, principalmente porque, até a década de 60 não existiam tratamentos efetivos, tampouco cura.

No Brasil, por volta de 1910, alguns segmentos da sociedade (como as instituições filantrópicas e os médicos sanitaristas) dão início a um movimento no sentido de olhar os doente com maior atenção: o que antes era digno de pena agora era uma ameaça real ao desenvolvimento social e à saúde da sociedade. E desse novo olhar criou-se uma situação que não mais permitia a convivência entre doentes e sãos.

Assim, a partir de 1930, o governo paulista institui, via decreto, o “isolamento compulsório de todos os doentes de lepra do Estado de São Paulo”. Tal atitude é reflexo de toda essa alteração na forma de ver e sentir a presença da doença. Para proteger a “sociedade saudável” são edificadas instituições asilares destinadas a abrigar os doentes. No Estado São Paulo foram construídos cinco asilos colônias. Entre eles, o Sanatório Padre Bento de Guarulhos, inaugurado em 1931. Repleto de singularidades, entre elas, o isolamento de doentes sem as marcas físicas características da lepra, essa instituição sinalizou a atribuição de novos significados para a doença. O diagnóstico que anteriormente era feito a olho nu, agora é realizado em laboratório; já não é mais necessário aguardar as manifestações físicas, a estética viria a se tornar só mais uma face da moléstia. E desse novo olhar se originam ações severas em relação aos doentes.

A análise do caso dos hansenianos é uma importante ferramenta para que possamos entender como se dá a construção dos discursos que promovem a exclusão social e a ascensão de comportamentos discriminatórios.

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A difusão de teorias científicas acerca da forma de contágio (a doença era em muitos casos relacionada a comportamentos promíscuos e pobreza) e a propaganda preconceituosa, criou sentimentos muitos mais complexos do que somente o medo do contágio: gerou a formação de juízo de valores quanto à própria conduta moral do doente, chegando muitas vezes o mesmo ser responsabilizado por sua enfermidade.

Falamos sobre estruturas de poder e por isso podemos dizer que se mantém atual, pois dadas as devidas proporções, tal forma de dominação e elaboração de discursos segregacionistas são análogas, ou seja, geram discursos que visam à manutenção da ordem social a qualquer preço. Traçando um paralelismo, estamos vendo no Brasil e em outras partes da América Latina, à ascensão de discursos de ódio parecidos com os portadores de hanseníase. O fato de não existir cura ainda para o COVID-19, ressalta com mais frequência o ódio contra aqueles que não podem ficar em casa por sua condição social.

É comum escutar que entregadores estão sem máscara, portanto, irresponsáveis, que moradores de comunidades necessitam entender a importância do isolamento, embora os trabalhadores tratam de explicar que R$600 reais não é uma soma suficiente para manter uma família.

Dizem que pobres e negros estão morrendo por não obedecerem às regras sanitárias, mas se usam máscaras correm o risco de serem assassinados pela polícia que segue sua política de extermínio de jovens negros e pobres. Tal realidade é ignorada por grande parte da população.

Então do que estamos falando?

No continente americano, exceto Cuba, nunca existiu planos de combate para doenças endêmicas, muito menos preparo para uma pandemia, visto o caos no âmbito sanitário em quase todos os países.

Na Bolívia, a presidenta interina, Jeanine Añez, começou a usar um cartão bloqueador contra o vírus, que pode ser encontrado na internet por 15 dólares. O que expõe um, dos vários casos, sobre a precariedade do sistema de saúde pública na América Latina.

Até mesmo na Argentina, vista como modelo de ação atual no combate ao COVID-19, já apresenta falhas dentro das comunidades carentes, que necessitam todos os tipos de recursos. Os contágios nas villas portenhas já representam 35% dos casos na cidade de Buenos Aires, fato que foi ignorado tanto pelo prefeito, como pelo presidente.

Somente com a morte de uma grande líder comunitária no dia 16/05, vizinha da villa 31, foi que Alberto Fernandez convocou um dos representantes comunitários para entender o impacto da pandemia nas comunidades. A morte de Ramona Medina, gerou comoção, portanto, a necessidade de uma resposta para a série de negligências nas villas e bairros pobres.

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No Brasil, medidas de isolamento sempre foram adotadas, e os problemas sociais resolvidos jogando o tapete por cima ou literalmente exterminando o indesejado, que tem nome, raça e classe.

O que até então era escondido, agora é televisionado, os discursos do presidente contém alto teor de indiferença, mas, ainda assim, tem apoio de parte significativa da população, essa denominada reacionária, bolsonarista e favorável ao retorno das atividades e normalidade. A outra parte, os progressistas, que apoiam o isolamento total, o tal lockdown, expressão americana usada em um país de língua portuguesa, portanto, sem sentido, mostra mais uma vez a total ignorância da população brasileira sobre a configuração social, econômica e sanitária do país.

Pedir para ficar em casa, para muitos cidadãos é uma sentença de morte. A fome e a insalubridade, sempre presentes, mas ignoradas, seguem no mesmo lugar, mas agora simbolizam o risco para o outro, justamente pelo rápido contágio entre cidadãos.

Os chamados progressistas defendem que o isolamento é para o bem comum, quando na verdade se escondem atrás da comida que recebem em casa, saídas de carro, álcool gel, máscara, ou seja, todos os cuidados necessários, mas seguem com o discurso do isolamento total, só não sabem definir exatamente para quem, já que continuam usando mão de obra dos cidadãos que necessitam trabalhar, o que mostra o peso de toda uma cultura apta à esconder a realidade, o que ocorre por todo o continente.

Do outro lado, uma parcela da população acredita no uso da cloroquina, que gerou mortes e mais mortes, mas como tem o aval do presidente, é a saída, considerando o COVID- 19 somente uma “gripinha”. Geralmente são pessoas mais agressivas, que defendem a economia como fator predominante.

Nesse cenário dicotômico, Bolsonaro, nada mais é que a personificação de séculos de práticas voltadas para oprimir e esconder os problemas “incômodos” não importando a forma.

Estamos vivenciando uma enorme crise no âmbito da saúde, mas, mais que isso, um encontro frontal com o que a sociedade brasileira tentou esconder há séculos: seus pobres, negros, enfermos, presos, indigentes, a classe de pessoas que antes bastava jogar uma moeda ou ver uma pequena ascensão para ter a consciência limpa.

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Tanto progressistas, como reacionários, cada qual com seu discurso, nunca desejaram enxergar verdadeiramente as estruturas desiguais para exigir medidas sólidas dos governantes. Tanto que uma parte votou em um homem que já era prenúncio do retrocesso e a outro aceitou sem grandes mobilizações. A maioria das críticas nunca saiu da esfera virtual.

Hoje, o problema não pode mais ser encarado assim, os corpos são muitos. Pandemia, violência, descaso, falta de condições mínimas para à população carente, somado com um presidente completamente descomprometido com os valores que seu cargo necessita, expõe que a realidade é muito  complexa, não podendo ser analisada com rapidez, sem compreensão dos processos sócio históricos.

O isolamento total é pedido, o Estado não pode realizar, vez que nunca foi presente em temas que envolvem saúde e proteção de pessoas vulneráveis, sempre adotando a postura do “mais fácil deixar morrer”, ou medidas paliativas, só que agora  estamos vendo esse processo, que podemos denominar de necropolítica sem máscaras.

Passado décadas o Brasil  ainda consta entre os países com mais hansenianos, ou seja, mesmo com tratamento e cura, não existe interesse na erradicação. Esquecer sua presença funcionou perfeitamente. E apagou um dos piores episódios da História do Brasil.

No momento vemos um país moralmente dividido, mas unido pela cortina que sempre escondeu o que acontece lá fora.

Afinal, sobre o que estamos falando?

Bibliografia

  • Documental Homo Sapiens 1900. Recuperado de:

https://documentaryheaven.com/homo-sapiens-1900/

  • Público (28/01/2018). Brasil e Moçambique entre países com lepra em que ONU diz ser prioritário agir. Recuperado de:

https://www.publico.pt/2018/01/28/mundo/noticia/brasil-e-mocambique-entre-paises-com-lepra-em-que-onu-diz-ser-prioritario-agir-1801075

  • Clarín (17/05/2020). La presidenta de Bolivia usa una “tarjeta bloqueadora del virus” que se vende en Internet por 15 dólares. Recuperado de:

https://www.clarin.com/viste/presidenta-bolivia-usa-tarjeta-bloqueadora-virus-vende-internet-15-dolares_0_ughnVQ6rY.html

  • MONTEIRO, Yara Nogueira. 1995. Da maldição divina à exclusão social: Um estudo da hanseníase em São Paulo. Tese apresentada à Faculdade de filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

*Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

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1 comentário

  1. Me fez ver e pensar coisas para as quais eu estava desatento, obrigado!!! Partilhei em meu Face com o comentário abaixo:

    “Uma reflexão simples mas bem aprofundada sobre como Casa Grande & Senzala persiste de modo perverso no Brasil, e o quanto isso pode ser perpetuado até mesmo nos chamados “segmentos progressistas da sociedade”….. Faz a gente pensar no quanto isso é cultural, forte, marcante em nossa nação e como se manifesta de modo perverso na pandemia……”

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