Um olhar de corredor na manifestação da 3ª ponte no ES

Terceira Ponte ES

É fim de tarde em Vila Velha(ES), e uma noite agradável adentra neste dia 20 de junho de 2013. Chego em casa por volta das seis da tarde e estou animado para uma corrida. Penso em fazer o percurso rotineiro, dez quilômetros na orla da Praia da Costa, Itapoã e Itaparica.

Saio de casa e por um instinto qualquer tomo a direção contrária da praia. Caminho uns quatrocentos metros e estou na ponte que liga Vila Velha à Vitória. É chamada de terceira ponte e tem extensão de três quilômetros e meio. O vão central da ponte tem setenta metros de altura o que provoca uma agradável subida de quase dois quilômetros e depois a conseqüente descida.

O vento predominante é nordeste, mas hoje é bastante suave com apenas cinco quilômetros de velocidade. Inicio a subida de forma discreta, já tem alguns dias que não corro, subida então nem me lembro. Não vejo carros nem ônibus, as duas pistas estão repletas de pessoas caminhando em direção à Vitória. Muitos fazem o percurso contrário. A grande maioria são jovens e muitos casais de namorados. Durante todo o percurso caminham devagar, e assim como eu, curtem a maravilhosa paisagem do canal que adentra Vitória.

Empolgado com o local e com a satisfação das pessoas, encontro um ritmo de corrida de cinco minutos e trinta segundos por quilometro.  Fico muito feliz com esta média. Com alguns minutos de corrida, o batimento cardíaco se estabiliza e começo a perceber o efeito da endorfina. É o momento em que deixa de existir passado e futuro e uma noção extrema de realidade aflora. É o puro presente.  Passo a perceber melhor o que surge ao redor.

Vejo máquinas fotográficas. Gosto de namorar máquinas fotográficas na internet. Por conta disto, conheço vários modelos. Percebo que muitas pessoas estão com ótimas e valiosas máquinas, com algumas marcas em destaque. Fico impressionado com quantidade de Nikon e Canon.  E no meio de uma multidão, pessoas portando objetos de desejo e valiosos. Fico feliz, estou em um lugar seguro.

Se as máquinas fotográficas eram muitas, não preciso nem falar sobre os telefones celulares.  Todo mundo tinha um celular na mão e em uso. Muitas filmagens,  fotos e publicações instantâneas na internet.

Venço a subida e agora vem o descanso com a descida. Sou acompanhado pela turma do skate e de algumas bikes.  Chego na praça do pedágio em Vitória e tenho que retornar. São mais três quilômetros de subida e descida.  A quantidade de pessoas aumenta, mas em número que não preciso ficar me desviando de ninguém. Há espaço para todo mundo.

Alguns pais trazem crianças  e carrinhos de bebês em uma ocupação do espaço público reservado à carros e agora deliciado por pedestres.  Neste momento, algumas utopias surgem no pensamento. Sempre surgem utopias após alguns quilômetros de corrida. Observo a largura da ponte. Vejo espaço para um VLT,  duas pistas para carros e ainda uma ciclovia e uma calçada para pedestres.  Confesso que enxerguei espaço para isto tudo. É claro que muitas  pessoas teriam que trocar o carro pelo VLT ou a bike.

Termino o retorno e descido repetir o percurso. Não sei quando terei esta oportunidade novamente. Uma ponte inteira para prática de corrida pelo tempo que eu conseguir correr?   Vou e volto pela ponte, subida e descida, e novamente subida e descida. Acho que completei uns treze quilômetros. Um presente no dia 20 de junho de 2013.

É claro que tinha mais do que pessoas felizes na ponte. Observei muita gente que portava e usava as chamadas coisas ilícitas de todo o tipo. Daquelas que se bebe, que se fuma e que se cheira. Tinha gente de cara feia, gente que queria passar medo só pela cara. Mas era uma minoria e não foi suficiente para tirar a serenidade da noite.

Cheguei em casa, cansado pelos quilometros,  e liguei a televisão. Estava passando a reportagem local. Não era a mesma coisa que vi e senti.  Na televisão sempre tem alguém querendo interpretar em poucas palavras um universo de sensações. Isto é impossível.

O leitor já deve ter notado que eu estava em um trecho da manifestação popular da Grande Vitória, dentre muitas que aconteceram no Brasil nos últimos dias. Nasci e cresci em uma época que as vitórias políticas e sociais foram conquistadas pelo voto. Não será diferente agora e o povo brasileiro sabe disso e deseja que assim continue. Mas isto é assunto para outro texto e outros minutos que agora não tenho. Tenho dois filhos me esperando para dormir. 

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