Xadrez das investigações contra a Lava Jato, por Luis Nassif

Dois fatos centrais vieram à tona ontem. Uma, a possibilidade de uma delação de Queiroz. Outra, a atuação da Procuradoria-Geral em relação à Lava Jato

Dois fatos centrais vieram à tona ontem.

Uma, a possibilidade de uma delação premiada de Fabrício Queiroz. Outra, a atuação da Procuradoria Geral da República em relação à Lava Jato.

Vamos ao nosso Xadrez para entender os desdobramentos.

Peça 1 – a visita da subprocuradora a Curitiba

A subprocuradora geral da República, Lindora Araújo – pessoa de confiança do PGR Augusto Aras – foi a Curitiba analisar arquivos da Lava Jato.

Foi uma medida algo imprudente, já que tal trabalho cabe apenas à Corregedoria, quando instruída por desconfianças em relação ao procurador investigado.

De seu lado, a Lava Jato do Paraná passou a divulgar a versão de que se tratava de uma operação a serviço de Jair Bolsonaro, rompido com Sérgio Moro desde sua demissão.

O jogo é muito mais complexo.

Peça 2 – as investigações contra a Lava Jato Paraná

Há em curso, de fato, uma investigação ampla contra a Lava Jato Paraná, mas sem nenhuma relação com Bolsonaro.

O caso surgiu com as investigações da Lava Jato Rio de Janeiro, que foram bater no doleiro Dario Messer.

Considerado o doleiro dos doleiros, Messer sempre foi poupado pelo grupo do Paraná desde a Operação Banestado. A atitude era inexplicável. Por duas vezes, a Lava Jato Paraná valeu-se de Alberto Youssef, doleiro inexpressivo perto de Messer, deixando o doleiro carioca livre, leve, solto e atuante.

No ano passado, a Lava Jato Rio de Janeiro mirou Messer e o deteve, depois de mapear seus contatos com uma namorada em São Paulo. Em seu celular, descobriu mensagens falando em uma mesada de US$ 15 mil bancadas pelos doleiros para garantir blindagem no Paraná. O nome do intermediário, segundo o celular, seria  Januário Paludo, o mais experiente e mais influente dos procuradores da Lava Jato.

As investigações levaram a mais provas, que foram mantidos em sigilo. A Lava Jato Rio encaminhou os dados, então, para a PGR.

Ao mesmo tempo, a PGR decidiu ouvir Tacla Duran, o advogado que acusou os procuradores de Curitiba de oferecerem acordos indecorosos, através do primeiro amigo de Sérgio Moro, advogado Carlos Zucolotto. Mediante pagamento de US$ 5 milhões, por fora, Zucolotto garantiu uma proposta da Lava Jato, de reduzir a multa de US$ 15 milhões para US$ 5 milhões.

A proposta veio acompanhada de um e-mail da própria Lava Jato, com a nova proposta de acordo.

Todos esses pontos foram denunciados por Duran, e também a perseguição movida pelos procuradores, acionando a Interpol e o MPF espanhol – e ambos, segundo Duran, inocentando-o.

Quando Aras decidiu ouvir Duran, o procurador Celso Três – figura chave na Operação Banestado, mas não alinhado com o grupo de Paludo e Dallagnol – escreveu artigo na Folha manifestando estranheza pelo fato e Duran nunca ter sido ouvido pela Lava Jato.

Há mais elementos de posse do PGR.

A visita de Lindora a Curitiba visou, obviamente, levantar mais dados. Como os suspeitos são os próprios procuradores, Lindora não explicitou o que procurava. Mas há em andamento um inquérito bem fornido na PGR para pavimentar uma denúncia próxima.

Há um enorme cipoal a ser pesquisado, da milionária indústria das delações premiadas às inconsistências nas multas aplicadas, na qual o poder do juiz Moro e dos procuradores era suficiente para definir os valores.

Há também as inúmeras ligações de Rosângela Moro, a esposa de Sérgio Moro, com figuras polêmicas, como Zucolotto e Marlus Arns, um advogado parceiro dela nas ações da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do Paraná) que ganhou um bom naco das delações premiadas, substituindo a pioneira Beatriz Catta Preta.

 

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Leia também:  O lançamento de Em Busca de Kardec – um documentário de que fiz parte, por Dora Incontri

Peça 3 – Entendendo episódio recentes

As descobertas da Lava Jato Rio e as investigações da PGR ajudam a entender alguns episódios políticos recentes.

Um deles é o afastamento entre Bolsonaro e Sérgio Moro. Para Moro é muito mais prático pedir demissão de um governo que o desrespeitava e se apresentar como vítima política do governo, nas investigações da PGR.

Entende-se, também, a recente aproximação de Aras com o Supremo Tribunal Federal, e de medidas contra figuras do governo Bolsonaro, como o enquadramento do Ministro Augusto Heleno, depois de bazófias dele sobre crises políticas.

Para ganhar legitimidade política para avançar sobre a Lava Jato, Aras terá que mostrar independência em relação a Bolsonaro. A luta contra a corrupção ganha nas duas frentes.

Nos próximos meses, Aras enfrentará o maior desafio de um Procurador Geral da República, o de cortar na própria carne, em cima da operação que lançou definitivamente o Ministério Público Federal no mundo da política.

Peça 4 – a cadeia improdutiva da Lava Jato

Não será tarefa fácil.

A Lava Jato criou uma cadeia improdutiva, com chupins de toda ordem.

Conseguiu um impeachment de presidente da República. Desfraldando sua bandeira, Ministros do Supremo Tribunal Federal, procuradores, jornalistas, jornais, emissoras saíram sambando e faturando em palestras, reputação, audiência.

E ajudou a lançar Moro como a esperança branca para 2022.

Por isso mesmo, vindo à tona, haverá uma enorme guerra de narrativas. Daí a importância de um trabalho isento e tecnicamente bem feito.

A visita de Lindora a Curitiba visou, obviamente, levantar mais dados. Como os suspeitos são os próprios procuradores, Lindora não explicitou o que procurava. O sucesso da empreitada dependerá de Aras se cercar de procuradores profissionais e isentos, que não cometam erros básicos durante as investigações.

De qualquer modo, os episódios desta semana dão um xeque em duas figuras chaves para as próximas eleições. Uma, Sergio Moro. Outra, o próprio Bolsonaro que, em breve, terá que enfrentar a delação premiada de Fabricio Queiroz e, provavelmente, de Frederick Wassef.

2022 começou esta semana.

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15 comentários

  1. Nassif,
    Acho sua hipótese é mais plausível, mas o Eduardo Costa Pinto tem outra hipótese para a ida da Sub Procuradora a Curitiba. Segundo ele é para “que possa levar adiante via PF investigações para atacar os inimigos políticos” do governo.
    Isso porque, segundo ele: “O mecanismo da Lava Jato continua operando só que agora com outros atores”.
    No caso do Moro, ele seria apenas mais um a ser investigado (o feitiço virando contra o feiticeiro), os outros seriam, p. ex. os governadores.
    Enfim, o objetivo da Sub Procuradora seria ir a Curitiba a pedido do Aras e, indiretamente, do Presidente para pegar elementos visando instrumentalizar a PF como braço político do governo.
    https://www.youtube.com/watch?v=lnsff-RtASc

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  2. Muito boa interpretação, como de costume. Favor alterarem o ano das eleições presidenciais no texto. Aparecem duas vezes citado 2002, quando é 2022. Estes anos malucos de lavajatismo, morismo e bolsonarismo, formaram um amontoado de amadorismo, autoritarismos e atrasos que deu ao menos para muitos se apaerceberem que pior que encontrar outras hipóteses e apostas para bons candidatos para a elite dona do país, é continuar a tentar tirar algo de bom no bolsonarismo ou no morismo, nem aantes, nem agora e quem dirá em 2022.

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  3. Fosse verdade, que se trata de um conjunto de ações da pgr com o objetivo de expor toda fraude embutida no pseudo combate a corrupção protagonizado pela turma da farsa-jato e cujos resultados mais visíveis foram a destruição de nossa maior empresa, Petrobras, e a ascensão ao poder de um grupo descompromissado com o direito, com a democracia e com a constituição.
    Segundo Jose Saramago “A única maneira de liquidar o dragão é cortar-lhe a cabeça, aparar-lhe as unhas não serve de nada” e pelo que foi visto recentemente no caso do Zero senador e nas conversas de “Brasil melhor através da junção harmônica dos poderes”, que só ocorreram apos o freio de arrumação sobre a turma das fakes, do “gabinete do odio” e dos generais (de chinelo ou não), enfim, por tudo isso, me parece que o dragao apenas passou pela manicure.

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  4. A Lava Jato sempre agiu na legalidade e conforme a Constituição,nunca saiu uma vírgula das regras constitucionais!
    Obs: “Visão profética”de minha parte em relação ao q vai dizer um certo futuro presidente da área jurídica !!

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    • isso. a narrativa imposta é de que a palavra corrupção refere-se somente a desvios de dinheiro, e não a desvios de condutas ilegais (tautologia imposta). ou seja, para se chegar à punição dos “corruptos”, pode-se corromper quaisquer mecanismos legais, à lógica justaposta da mídia oligarca. pode-se dizer, numa paráfrase alterada (portanto corrupta), de Andrea Camilleri (“o amor é uma palavra tão genérica onde cabem todas as torpezas”): a corrupção é uma palavra tão genérica onde cabem todas as torpezas.

      um exemplo é o movimento #metoo onde atrizes denunciaram investidas sexuais da indústria de hollywood. e nem uma única denúnica nesses tristes trópicos…

  5. Ora, o judiciário impediu o legislativo de receber doações de empresas afirmando que interferiam na atuação democrática daquele poder…..mas o mesmo não foi aplicado ao próprio judiciário…..o legislativo já deveria ter criado legislação nesse sentido, proibindo palestras pagas a membros do judiciário, bem como a proibição de recebimentos de prêmios ou patrocínio de eventos, o princípio é o mesmo e deve valer para todos…..
    Fico estupefato ao ver que a oposição sonolenta e preguiçosa não propôs uma cpi para a caixa econômica, e não só por causa do auxílio emergencial….ou não querem derrubar coiso e levar o tchutchuka junto?

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  6. Nassif, você é um sonhador a despeito de ser descendente de sírios-libaneses.
    O que o Aras está produzindo é uma contra-ofensiva para chantagear e coagir o moro e manter o bozo com alguma bala na agulha.
    Só isso, se não fosse tudo as claras e com dinheiro público, muito dinheiro público.
    Mas o moro ser a esperança branca cabe menos ainda dado que o moro é somente um disfarce da direitona ultra-conservadora a serviço do establishment. É só olhar tudo que está sendo INCRIVELMENTE EXPOSTO na grande mídia e várias canais da elite.

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  7. E o sumiço de dois Guardiões? Como fica? Quem sumiu com os ditos cujos pode estar ouvindo muita gente sem que ninguém saiba, ou não? Isso sim pode deixar todos os bandidos que estão no poder com a “pulga atrás da orelha”. Muita gente pode ficar com o rabo preso por algum gaiato? Ou…

  8. Boa, Nassif!
    Exatamente, “Nas duas frentes”.
    Têm que colocar cada um na sua caixinha, se não o dinheiro no exterior vai continuar manipulando os interesses nacionais, por meio de Juízes e Procuradores. Acredito que os Militares estão sustentando as investidas contra a turma do Moro na farsa-jato, isso é o mais correto, consigo perceber patriotismo em muitos generais.
    Cada qual na sua caixinha para o País crescer, é assim que tem que ser.
    Catta Preta, coitada dela, engolida pela Mulher do Moro. Sabe como é vida de advogado, ganha aqui, perde alí. Foi ameaçada e tudo mais, a bichinha…
    Vamos simbora, o Brasil não pode mais esperar, tô louco pra ver o Guedes auditar a dívida, mas nem com Coronavírus o danado faz. Militar que é patriota tb apoia a auditoria na dívida pública!
    Já imaginou se toda boa notícia na economia tivesse a cara dos militares discutindo o assunto? Os banqueiros tremeriam as pernas!
    Taxação de grandes fortunas… Depois da reforma previdenciária tudo é possível!
    O “Plano Marchel Brasileiro” do Gen. Braga Netto já deu uma cutucada, acho que é por aí mesmo, botar a turma pra trabalhar o crescimento do Brasil.
    Esperar por 2022 nao vai rolar, o que ficar ruim Ciro Gomes e a turma do Ceará ruma um jeito de consertar em 2023! 😉👍

  9. O Brasil se tornou o pais do ver para crer. Nao da pra acreditar em justica alguma mais. Bolsonaro continua no poder, apesar de tudo que ja foi dito, inclusive aqui, de que ele estaria para cair. Convem fazer menos previsoes e se preparar para o pior.

  10. + comentários

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