A Esquerda diante da paralisação dos caminhoneiros, por Henrique Medeiros

“A esquerda não vai dirigir a paralisação, mas a direita pode ter atiçado um formigueiro que poderá fugir a seu controle” / Divulgação

do Brasil de Fato

A Esquerda diante da paralisação dos caminhoneiros

Transportadoras trancam o país e aprofundam crise política; a esquerda deve aproveitar a brecha e politizar o movimento

por Henrique Medeiros

A paralisação dos motoristas de caminhão certamente é o elemento conjuntural que tem gerado maior perplexidade e polêmicas no seio da esquerda, nos últimos tempos. Mesmo com a nota da Frente Brasil Popular e de outras organizações políticas e sindicais, é patente a confusão no seio das vanguardas de forças do campo democrático e popular. É sensível a falta de uma avaliação política e de uma diretriz tática clara diante dessa conjuntura.

O descompasso inexorável entre a realidade e a análise que dela se faz, todavia, não deve paralisar as direções políticas, uma vez que lhes cabe exatamente buscar superar esse fosso projetando cenários e fazendo “apostas” políticas.

A paralisação é claramente dirigida por setores empresariais, o que revela uma contradição a ser explorada no bloco burguês. Por outro lado, esse movimento parece dar sinais de desbordar essa direção política, diante dos sinais de legitimidade popular que alcançou e de certo espontaneísmo que começa a se somar.

Claro que, num primeiro momento, tendo em conta a memória coletiva da experiência traumática da apropriação, pela direita, das manifestações de junho de 2013, bem como as crescentes manifestações de facistização na sociedade brasileira, se justifica a preocupação. Diante de um possível aprofundamento e radicalização desse explosivo movimento, num cenário em que a direção política não é do campo de forças populares, o Temer possa ser usado como “boi de piranha” para uma saída autoritária. Não se pode descartar a possibilidade de sua queda junto com o adiamento das eleições. 

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No entanto, para as organizações políticas o fundamental é reconhecer os flancos que se abrem com a agudização de uma crise que, ao aprofundar-se, passa a ser mais do que uma mera crise política. Caminha para uma crise institucional, uma vez que a ela se somam a crise econômica, engendrada pelo neoliberalismo, e uma crise social sem precedentes. Tal crise institucional pode, inclusive, abrir portas para uma crise de regime. O desfecho dela, todavia, não é dado a priori, como algo inexorável. 

O que cabe às esquerdas nesse momento é disputar a legitimidade social do movimento, ainda que o movimento em si seja dirigido por setores burgueses. Fazer penetrar sua leitura da conjuntura e as alternativas que apresenta. Politizar o processo apostando na polarização social, com clareza de que o fundamental é acumular forças no plano organizativo para o cenário que vier, inclusive se ele for o do adiamento das eleições ou coisa pior.

Aplicar na prática política o conceito de defesa ativa nesse cenário de derrota estratégica, após o golpe de 2016, implica fustigar o inimigo em seus pontos frágeis. A disputa intraburguesa revelou essa fratura. A esquerda não vai dirigir a paralisação, mas a direita pode ter atiçado um formigueiro que poderá fugir a seu controle. 

Lembremos que em janeiro de 1905, na Rússia tsarista, um certo Padre Gapón, representante da Igreja Ortodoxa (a qual dava sustentação ao regime autocrático), dirigente de um sindicato amarelo, decidiu organizar uma manifestação pacífica para que os trabalhadores levassem uma petição ao “papai” Tsar Nicolau II, solicitando-lhe que destinasse mais atenção à vitimas da fome e de frio no contexto de crise econômica e derrota militar na guerra contra o Japão. Ao receber a manifestação debaixo de bala, com inúmeros mortos, o Domingo Sangrento desatou um conjunto de greves e manifestações de solidariedade espontâneas que fugiram ao controle e aos planos de quem dirigia o movimento até ali. 

Não, nós não estamos na Rússia. Não, nós não estamos em 1917. Não, nós não estamos diante de um regime autocrático. Não, nós não estamos às portas da Revolução, muito pelo contrário, vivemos um cenário de cerco e aniquilamento.

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Não é intenção aqui fazer qualquer derivação ou comparação histórica mecânica. Apenas chamar atenção para certas lições históricas. Em primeiro lugar, para o fato de que as manifestações espontâneas podem surgir de contextos dos mais improváveis, e que cabe aos partidos políticos politizá-las se somando, vinculando-se à classe. Em segundo lugar, de que foi o aprendizado nas ruas e nas greves que fez o proletariado e o campesinato russos reconhecerem as palavras de ordem das suas vanguardas políticas.

Ou seja, se há um enorme grau de imprevisibilidade do movimento dos caminhoneiros, não cabe a posição de neutralidade ou de afastamento (defesa passiva). Qualquer que seja o desfecho, o importante é que tenhamos acumulado um mínimo de forças para resistir ao que virá, ou para ampliar nossa capacidade de fustigamento no contexto de resistência (retirada estratégica) em que vivemos. É imperativo, no plano tático, a defesa ativa, aproveitando a brecha nas fileira inimigas para furar, ainda que temporariamente, o cerco.

Nesse sentido, é de fundamental importância iniciativas como a greve dos petroleiros, por exemplo. A ordem agora é fustigar, politizar e resistir. 

Henrique Medeiros – Médico da Rede de Médicos e Médicas Populares e militante da Consulta Popular

 

 

 

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16 comentários

  1. Sou filho e irmão de

    Sou filho e irmão de caminhoneiros autônomos. Sei o que passam, mas também sei que eles tem um padrão de vida alto (que já foi muito maior, diga-se). Também sei que a  maioria deles é classe média, com mentalidade de classe média, ou seja, deficientes mentais completos que são absolutamente incapazes de fazer um raciocínio que vai além dos próprios interesses. Quase todos, diga-se, apoiaram a queda da Dilma e acham que Lula e corrupto. Todavia, como a boa classe média imbecil, são incapazes de entender que desgoverno ajudaram a instalar. Só sentem o bolso. 

    Com base nisso acho que não são só as empresas que estão nessa. Muitos autônomos estão literalmente p**** com o desgoverno Temer porque o preço do diesel reduziu o poder aquisitivo deles. Poder aquisitivo, aliás, que já é bastante corroído pelo alto custo de manutenção de um caminhão.

    Ainda não tenho elementos definitivos para afirmar se é ou não locaute, mas apenas dizer que a indignação deles é real.

     

    • Servidão Voluntária

      Taí um bom tema pra uma pesquisa acadêmica:

      Por que os caminhoneiros e taxistas são, em sua maioria, reacionários ? Por que essa duas categorias são ardorosas defensoras de quem as domina e as oprime ?

      • Vou te dar uma resposta

        Vou te dar uma resposta pessoal, apenas embasada na conviência sem nenhuma base empírica e pretensão acadêmica: a maioria tem baixo nível de instrução (quanto muito o segundo grau completo), portanto, são incapazes de entender o quanto são explorados. Eles enxergam os cifrões e não o contexto ou o sistema.

        Também pesa muito o fato de não serem solidários e sim violentamente individualistas. Normalmente eles pensam assim: garantido o meu o resto que se f****

        Pelo que vejo eles só pararam porque dessa vez se f**** todos ao mesmo tempo.

        • O ignorante é você
          Pelo seu comentário me pareceu que você estava descrevendo o Lula e não os caminhoneiros, ainda mais quando falou de falta de instrução acadêmica.
          Fora isso como vocês(esquerda) que se dizem além de preconceitos e generalizações podem qualificar todo um grupo profissional da mesma forma e ainda de maneira perjorativa?
          Conheço muitos caminhoneiros dos mais variados tipos e pouquíssimos deles se assemelham a sua descrição, inclusive boa parte tem estudo e são pessoas boas que gostam muito de ajudar outras.
          E pra finalizar não são vocês que amam protestos e greves? Mas quando vocês nao podem tirar proveito político disso ai criminalizam o movimento.
          Prefiro ver trabalhadores parando as estradas contra as tarifações absurdas que bancam gente como temer lula aecio e outros, do que ver um bando de vagabundos filhos da puta tipo você que param estradas para pedir a soltura de um corrupto como o lula.

      • A propriedade privada

        Eles são pequenos proprietários. E como todo pequeno proprietário, têm mais facilidade para entender que são proprietários do que para entender que são pequenos.

        Acham sinceramente que comunismo é tirar o táxi ou o caminhão deles para dar aos mendigos e prostitutas.

  2. A esquerda….

    O texto é maravilhoso. E revelador. Mostra o tamanho da nossa Bipolaridade e Esquerdopatia Burra. Paralisação de Empresários e Transportadoras? Mas ainda bem que muitos escrevem para desmonstrar o porque do país estar nesta situação.  E ainda crêem que são a solução e não o PROBLEMA? Chega a ser inacreditável !! “Tire o tronco dos seus olhos para limpar o cisco da visão do seu irmão”. POBREZA no Brasil é Politica de Estado. Política que já dura farsantes 88 anos, apoiados por Quartéis e Elite Esquerdopata. Quanto desta pobreza e miséria, seria mitigada com a gasolina ou diesel a 1 real e cinquenta centavos, ou no máximo 2 reais? E transporte público com mesmos preços? Não é possível sendo Dono de uma ‘Arábia Saudita’ no Oceano Atlântico? E outra ‘Arábia Saudita’ em Canaviais, plantados todos os anos? Coxinha em Aeroportos-Feudos a 9 reais. Monopólios-Canalhas Baratas/Lavouras/STF mostraram a realidade.  Realidade Redemocratica e Progressista dos últimos 40 anos. Seria cômico… É muita hipocrisia.   

  3. Lembrou importantes episódios

    Lembrou importantes episódios e experiências. Contudo, é também oportuno – e mais importante, creio eu – lembrar outro episódio em situação bem parecida a atual e que desencadeou um massacre das esquerdas: o incêndio do parlamento alemão. Esperemos que nenhum “animal” se julgue capaz de criar fatos e empalmar o movimento atual, que se vale dos caminhoneiros desinformados e moldados pelo evangelismo mais xucro, desencadeado por uma extrema direita igualmente xucra, porém endinheirada e com raízes no agronegócio gaúcho, catarinense e paranaense. A única liderança com um mínimo de possibilidade de aglutinar grupos de centro-esquerda e centro-direira esclarecida para fazer frente à quadrilha do latifúndio, da bala e da exploração da fé está na cadeia!

  4. As lições do movimento ou as lições em movimento!

    Toda realidade é policromática e/ou polifônica!

    Essa é a mãe de todas as lições!

    O movimento paradista patronal-sindical do modal de transporte rodoviário nos serve para um monte de análises, inclusive as publicadas aí em cima.

    E diga-se, todas as colocadas pelo autor estão corretas.

    Eu acrescento outras:

    1) Timing do movimento. 

    Quem observar com um pouco mais de atenção, poderá juntar-se a mim na minha cruzada conspiratória-paranóide. 

    O anúncio da retirada do golpista-vampiro do páreo (na verdade, ele nunca esteve nele), o simultâneo anúncio do bufão meirelles, tudo emoldurado por uma onda externa de ataques especulativos.

    Os que enxergam alguma contradição entre o aumento do rombo fiscal causado pela política rentista da Petrobrás, e as supostas e crescentes vulnerabilidades a que estaremos expostos com a dinâmica desse círculo vicioso das contas públicas engana-se.

    A construção desse cenário de aparente caos se presta a duas variáveis principais:

    a) A de sempre, ou seja, o aumento das transferências de capital e enxugamento, até os ossos da renda nacional em favor da banca, seja pela “queima de reservas”, seja pelo “tarifaço” dos preços administrados;

    b) Estabalecer pontos de interdição política, com a encenação das disputas entre Parlamento e Executivo na arbitragem da questão tributária, e de outras, criando na população o aumento do desejo (já existente e latente) por soluções de força (cancelamento das eleições, aumento do poder militar, etc);

    c) Há outras sub-lógicas subjacentes ou derivadas, como a “retirada de parte da frota de ônibus” de circulação um ou dois dias depois dos movimentos, como se empresas de transportes coletivos operassem com estoque tão baixo, e como se o número reduzido já não estivesse em vigor antes, com o sucateamento proposital das linhas licitadas para dar lugar a períodos de “emergência” para o surgimento de novos “consóricios” e falência dos antigos, com o calote em trabalhadores e outras obrigações de natureza tributária (truque antigo da máfia dos ônibus pelo Brasil).

     

    A história ensina que nenhum outro setor, principalmente nos casos onde o modal rodoviário é dominante, como o Brasil, conhece mais esse timing que o setor rodoviário de transporte de carga e transporte de passageiros.

    E nunca houve a menor chance de que o setor rodoviário fosse “contaminado” por alguma leve sombra de progressismo político.

    São trabalhadores hegemonicamente conservadores e inclinados ao autoritarismo, talvez até pela essência de suas profissões, que os coloca como enormes paquidermes sobre rodas, ora na condição de vítimas da rapinagem de suas cargas, ora como os principais causadores de incidentes fatais nas estradas, submetidos a um regime de trabalho precário e semi-regulamentado, resultando em uma expressão sempre distorcida do já distorcido senso individualista brasileiro.

     

    2) A ideologia do automóvel.

    Na guerra semiótica que travamos sem saber, nada mais simboliza a movimentação política por símbolos que o automóvel e seu apelo nas sociedades chamadas modernas e pós-modernas.

    Apesar de pontuais divergências entre motoristas de caminhão e de veículos leves, na lida cotidiana e disputa literal por espaço nas vias públicas, há pontos de convergência muito mais fortes que os tornam uma poderosa e influente confraria, quase uma maçonaria:

    – Ódio aos impostos, apesar do enorme aparato público-orçamentário dedicado ao modal rodoviário-automobilístico, como segurança, socorro médico de emergência, conservação/abertura de vias, e claro toda a sorte de prejuízos indiretos causados pela alta letalidade e ferimentos causados pelo trânsito. Tais recursos públicos são reivindicados por motoristas como “direitos naturais”!

    – Agregado ao tópico anterior, temos a supremacia do individual/privado sobre coletivo/público, onde as soluções como investimento em modais que carreguem mais carga sem o risco das rodovias (trens, hidrovias, navegação de cabotagem, etc) são smepre preteridas e sabotadas, assim como as soluções de transporte público, sempre preteridas pelo Senhor Todo Soberano, o dono do carro de passeio;

    – Derivado desses dois, o uso da corrupção como mediação de conflitos, quer seja na “cervejinha do guarda”, seja burlando regras para licenciamento e vistorias (onde elas são exigidas, como o RJ), furnado filas, buscando “despachantes”, e até em alguns casos, como os estados RJ e ES, onde há diferença entre alíquotas de IPVA, a criação de uma máfia de fraudes para licenciar veículos no ES, embora circulem no RJ e seus condutores fluminenses NUNCA tenham residido no estado capixaba;

    – E o liame que a tudo une, a total aversão a qualquer regra ou norma pública de convívio, e isso se reflete dramaticamente nos números de mortos e pior, nos incidentes onde havia condutor embriagado ou sob efeito de doses de álcool.

     

    3) A esquizofrenia da ideologia ou ideologia da esquizofrenia?  

    Alguns analistas vêm há algum tempo tentando decifrar os humores daquilo que chamam de eleitorado ou maiorias silenciosas, buscando estabelecer parâmetros de comportamento sobre as decisões tomadas que, via de regra, não parecem fazer qualquer sentido.

    Um exemplo: em momentos de maior crise do capitalismo, quando os direitos sociais seriam mais importantes para dotar as camadas mais frágeis da população de uma rede de amparo, justamente nesses momentos o eleitorado escolhe saídas ultra-ortodoxas voltadas a cassação dessas redes de proteção.

    Não se sabe ao certo a razão, mas alguns arriscam a dizer que talvez, nos momentos de maior ameaça (crises), o fator sobreviência individual fale mais ao alto ao senso coletivista de preservação, onde oportunistas e fascistas de toda sorte aproveitam para reforçar o discurso calhorda do darwinismo social e econômico, tão caro a ortodoxia liberal!

    Talvez a resposta desses analistas ajude a muita gente a entender como é possível que o governo (do PT e aliados) que mais influenciou e elaborou políticas de preços “sociais” dos insumos energéticos (luz, combustíveis, etc) apareça ainda como o maior vilão dos discursos inflamados dos fascistas das estradas, e que recebem adesão dos nazistas dos carros de passeio.

    Ou seja, querem uma empresa de mercado mas com os benefícios da intervenção estatal, entendem? Ninguém entende.

    Essa agenda improvável elegeu ninguém menos que Donald Trump.

    Elegeu Macron na França, e deixou a Itália à deriva, recentemente.

    Temos assim a subordinação da realidade da lógica pela lógica da irrealidade.

    Querem Estado forte (para si e para os seus) mas com intervenção mínima e sem impostos!

    Essa noção traz embutida uma perversão ideológica capitalista que é a sua própria natureza de existir:

    – Não é o capitalismo que gera desigualdade e assimetrias sociais profundas que devem ser minoradas pelas redes sociais de proteção, mas é justamente a existência de gente incapaz de se fazer útil aos esforços capitalistas que impede o capitalismo de funcionar bem, gerando as desnecessárias despesas com redes sociais de proteção!

    Nessa ideia reside boa parte da explicação do apoio irrestrito, da leniência dos órgãos policiais, enfim, da adesão de boa parte da população, incluindo aí quem não tem carro, aos “Princípios da Estrada”.

    Sem disputar esse imaginário, nenhum governo de esquerda conseguirá resistir a um simples locaute desses. NUNCA! 

     

     Ah, em tempo, alguém lembra aí de Marielle?

    • A Esquerda diante da paralisação dos caminhoneiros

      seu comentário levanta tantos pontos interessantes e aborda várias questões complexas, que não dá para simplesmente se “gostar” dele, ou dele “discordar”.

      faço no momento duas observações:

      – a princípio me pareceu que a paralisação estava mais para locaute. contudo, o desdobramento de ontem para hoje, assim como várias informações recebidas, indicam que os caminhoneiros autônomos assumiram a liderança do movimento;

      – a convocação das FFAA para garantir “a lei e a ordem”, fará o clamor por uma intervenção militar vindo de alguns setores da população, inclusive de parte dos próprios caminhoneiros, se chocar com a realidade de um Exército atuando como milícia a serviço dos interesses do grande Capital. alguns vídeos postados como reação a decisão do governo usurpador já deixam isto claro.

      assim, mesmo que o movimento enfraqueça, sua supressão servirá apenas para que outra erupção ocorra mais à frente.

      este golpe não estabiliza. a Direita não conseguirá fazê-lo. só há alternativa para o Brasil pela Esquerda.

      .

      • Mad Max?

        Essas questões levantadas por você e as levantadas por mim têm limites:

        – A população ainda não começou a sofrer (inclusive as famílias dos paradistas) os efeitos maiores do desabastecimento.

        Vai começar a faltar gás de cozinha, água onde o abastecimento necessita de suporte complementar com caminhões-pipa, etc, etc, etc, além de comida, propriamente dita.

        Pensando por esse lado, me veio outra elocubração.

        Acho que o governo (a direita) aposta no aprofundamento da crise para desestimular a população de qualquer levante, mostrando nesse “ensaio” como ficaria o país, em caso de uma ruptura mais dramática e anti-golpe.

        Não esqueçamos que o setor dos paradistas é de direita e inclinada ao conservadorismo e autoritarismo.

        Mas como todas as “contas”, as do governo podem dar errado e a coisa tomar rumo não planejado por eles, e mesmo movimentos inclinados a direita podem deslocar seu eixo político para que possam sobreviver.

        A questão central é:

        Não adianta desbloquear estradas, porque se os caras não sentarem a bunda no volante, não há policiais e soldados capazes e habilitados e com estofo para tocar carretas e caminhões carregados, e eu sei o que estou falando para dar conta além do abastecimento dos serviços de emergência.

        Tenho CNH categoria A2C há quase 30 anos, e posso dizer, dirigir um caminhão carregado é phoda. Uma carreta então, não sei te dizer.

        Como eu escrevi, há uma estranha solidariedade tipo “mad max” entre motoristas, e ao mesmo tempo um senso de violência e predação que os coloca sempre como bombas-relógios sobre rodas.

        Acho também que os empresários perderam a direção do que começaram, e criaram monstros, ou seja, agora os caras “tomaram gosto”.

        Alguém falou ontem, e eu já venho falando há meses dos solavancos históricos, como o massacre do czar dos manifestantes (maioria de veteranos mutilados, velhos, crianças e mulheres) famélicos, que queriam apenas mais comida do “paizinho” (como Nicolau era conhecido), e tantos outros episódios onde os fatos se desdobraram sem nenhum controle.

        Esse movimento tem ingredientes suficientes para disparar o gatilho da História.

        Por ironia, tudo isso que tem acontecido, é o mais próximo de uma revolução que já experimentamos. Resta saber como vão se comportar os ativistas de internet, a classe média, os mais pobres, etc.

        Vamos ver quem vai começar a reclamar primeiro.

         

         

        • A Esquerda diante da paralisação dos caminhoneiros

          -> Acho também que os empresários perderam a direção do que começaram, e criaram monstros, ou seja, agora os caras “tomaram gosto”.

          esta paralisação do transporte terrestre de carga começou com suspeita de locaute e avançou como movimento de caminhoneiros autônomos. as entidades pelegas arriaram as calças logo na primeira negociação com o governo usurpador. desde ontem pela manhã não passou sequer um caminhão na BR aqui em frente;

          -> Não adianta desbloquear estradas, porque se os caras não sentarem a bunda no volante

          -> há uma estranha solidariedade tipo “mad max”

          a repressão vai ser um tiro pela culatra. vi hoje pela manhã um vídeo de um PRF com os caminhoneiros parados no acostamento. apontava para a estrada, afirmando categoricamente: “A via está liberada!”, enquanto conversava animado com a confraria “Mad Max”;

          -> Vai começar a faltar gás de cozinha, água onde o abastecimento necessita de suporte complementar com caminhões-pipa, etc, etc, etc, além de comida, propriamente dita.

          até o momento a solidariedade com os caminhoneiros é surpreendente. penso que isto deveria ser melhor analisado.

          a verdade é que a maior parte da população quer “sentar o dedo” no governo. assim como em todos os políticos. mas começa também a se ver sinais de associar a crise ao grande empresariado.

          -> e mesmo movimentos inclinados a direita podem deslocar seu eixo político para que possam sobreviver

          sem um claro projeto e uma determinada coordenação de Esquerda, esta insatisfação ou é capturada pela Direita (algo que considero cada vez mais improvável, teria que explicar melhor o motivo) ou detona explosões desordenadas de fúria.

          como todo movimento horizontal e sem organicidade, a greve dos caminhoneiros tem uma enorme potência, mas que é proporcional a sua fragilidade. e isto também precisa ser melhor explicado.

          -> Por ironia, tudo isso que tem acontecido, é o mais próximo de uma revolução que já experimentamos. Resta saber como vão se comportar os ativistas de internet, a classe média, os mais pobres, etc.

          ontem à noite rebebi a informação que estavam organizando uma passeata de apoio ao caminhoneiros numa das pequenas cidades aqui nas imediações.

          acionei a galera do Congresso do Povo, comitê municipal integrado. argumentei que era o caso de buscar maiores detalhes. e até de participar. inclusive para impedir que movimentos espontâneos caiam nas garras dos reaças (que por aqui é cheio, inclusive professores).

          pois bem. era um estudante secundarista tentando movimentar seus colegas e professores. mas não estava tento muito êxito, muito mais até pela inexperiência de todos até então envolvidos.

          dois outros secundaristas que participam de um grêmio estudantil entraram em contato com ele. vão tentar organizar algo mais sólido.

          existe uma brutal rejeição a Temer, isto expresso nas pesquisas. existe também uma ânsia de fazer algo. e a greve dos caminheiros exacerba esta ânsia. cabe a Esquerda atuar.

          .

          • Na BR-3, Marielle, Anderson e Lula estarão mortos.

            Para dirigir é preciso coragem!

            Seja caminhões, seja movimentos políticos, a estrada é uma metáfora de vida.

            Talvez aí a chave do sucesso do filme Mad Max.

            No filme, o senso coletivo vence, mas na vida, parece que os predadores são a exata reificação do mercado, aqueles caras que saqueavam todo combustível disponível, com os acionistas e rentistas do portfólio da Petrobrax de parente.

            É preciso ter coragem.

            Para dar direção ao movimento, a esquerda precisará abrir mão de Lula, que como todo sistema político é reconhecido como alvo.

            Lula e seu mito servem a eleição, mas de nada servem a refundação revolucionária que está latente nas margens da BR-3.

             

            Dicas:

            – Parece que há uma latência por efeito dominó; estivadores de Santos parecem que vão aderir, petroleiros já começaram greves intermitentes, e alguma central sindical tiver culhões, é greve geral.

            – É preciso organizar de forma urgente comitês populares de negociação para garantir insumos para hospitais, segurança e serviços essenciais, bem como comitês municipais para distribuir comida ainda existente, bem como caravanas de veículos de passeio para buscar alimentos nas roças para distribuição em centros comunitários;

            – Os sindicatos mais fortes (com mais grana) podem intermediar essa negociação;

             

            É preciso saber que não há caminhoneiro autônomo na completa acepção do termo, porque eles (os avulsos) estão subordiandos a contratos de frete manipuladose oligopolizados pelas grande empresas do setor, como sempre.

            Os verdadeiramente autônomos são poucos, logo, são trabalhadores conservadores, autoritários, e sim, explorados até o limite.

            A baboseira culpada que o Luis Felipe Miguel falou em outro texto é sofrível, porque SIM, nossa forma de disputar políticamente é entender as heterogeneidades, mas buscamos sempre pontos de convergência, que chamamos identidade de classe.

            Ou seja, sabemos que individualmente há vários sensos distintos entre caminhoneiros, e uns podem gostar de Sula Miranda e outros de Raul Seixas, feijão a macarrão ou foie-gras, mas o que os define é seu ethos político de classe, sua ação coletiva!

            E só entendendo isso podemos pensar como abordá-los coletivamente!

            E eles são SIM de direita! São explorados, mas respondem coletivamente como brucutus, e no trânsito respiram violência autoritária pelo simples fato de que em um incidente, geralmente quem morre é quem está no carro de passeio.

            Luis Felipe não tem a menor ideia do que se passa nas estradas. Ando 4.000 km por mês, sei do que falo!

            Como gostamos de imaginar que os metalúrgicos do ABC ou petroleiros ou professores de SP se inclinam à esquerda.

            Luis Felipe anda precisando fazer análise, eu acho!

            Mais ou menos como policiais, os quais a esquerda por simples burrice nunca consegue disputar politicamente, e é sempre surpreendida pelos seus movimentos.

            É preciso que a esquerda aprenda a disputar o anti-politismo da população, sem medo e sem culpa de dizer que é preciso superar esse modelo.

            Mas aí, temos que deixar um monte de gente pela estrada. 

            Inclusive Lula e talvez, o Luis Felipe Miguel, o aldo, e sei lá, um monte de gente.

          • A Esquerda diante da paralisação dos caminhoneiros

            -> bem como comitês municipais para distribuir comida ainda existente, bem como caravanas de veículos de passeio para buscar alimentos nas roças para distribuição em centros comunitários;

            passei a tarde de ontem na etapa municipal do Congresso do Povo, iniciativa da Frente Brasil Popular (ligada a Lula, PT e CUT), aqui numa cidade pequena próxima (claro, pois que nenhum Mad Max seria pego desprevenido sem combustível no Rio, ou bloqueado na BR)

            coincidência ou não, uma das propostas aprovadas coincide com sua dica acima.

            por sinal, eu já alertara o Prefeito que isto seria necessário.

            teve também uma curiosa carreta com alguns caminhões e Hylux pelas ruas da cidade. deve ser porque está faltando combustível. ainda mais intrigante, é que a carreta saiu de um Posto, cujo dono foi do PT local até 2012. e acho que ele quer organizar o PSOL na região…

            (p.s.: corrigindo para não ser injusto. o dono do posto nada teve a ver com a carreta, e sim o dono de uma transportadora na cidade).

            a complexidade da realidade não cabe, definitivamente, em nenhum Manual de Operações de Monster Truck.

            volto ao assunto mais tarde.

            p.s.: desde ontem na BR em frente estancou o tráfego. caminhão, nenhum. um ou outro carro passando muito espaçadamente. não deixa de provocar uma estranha percepção.

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  5. Lembrou importantes episódios

    Lembrou importantes episódios e experiências. Contudo, é também oportuno – e mais importante, creio eu – lembrar outro episódio em situação bem parecida a atual e que desencadeou um massacre das esquerdas: o incêndio do parlamento alemão. Esperemos que nenhum “animal” se julgue capaz de criar fatos e empalmar o movimento atual, que se vale dos caminhoneiros desinformados e moldados pelo evangelismo mais xucro, desencadeado por uma extrema direita igualmente xucra, porém endinheirada e com raízes no agronegócio gaúcho, catarinense e paranaense. A única liderança com um mínimo de possibilidade de aglutinar grupos de centro-esquerda e centro-direira esclarecida para fazer frente à quadrilha do latifúndio, da bala e da exploração da fé está na cadeia! E não fizemos nada para impedir que isto acontecesse, a despeito de toda a perseguição e parcialidade do juiz da causa. Não será com essa incapacidade de reagir que iremos tomar o movimento das mãos dessa máfia de donos de empresas de transportes, grilheiros do agronegócio, lobistas da indústria de armamentos e gigolôs da fé cristã. O momento exige pés no chão, coragem, inteligência, serenidade e outros atributos que não estão tão disponíveis nos dias atuais.

  6. #Esquerda?

    Esperar uma análise estratégica da greve dos caminhoneiros por parte da “esquerda” proseltista que temos, não me parece algo plausível. No máximo devem estar discutindo nos gabinetes dos “combativos” parlamentares, sobre qual será a melhor # a ser viralizada nas redes sociais!!!

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