Bombas semióticas contra o PT: do sequestro de Abílio de Diniz à crise no STF
por Francisco Fernandes Ladeira
Desde a primeira eleição presidencial após a ditadura militar, em 1989, a elite econômica brasileira, por meio de sua principal porta-voz, a grande imprensa, realiza uma intensa campanha contra as candidaturas à esquerda, sobretudo do PT.
Como a História nos mostra, governos à esquerda, por mais moderados e adequados ao status quo que possam ser, devem prestar contas aos setores populares, suas bases eleitorais. Portanto, não podem aplicar o receituário neoliberal da forma que o mercado demanda.
Nessa empreitada antipetista, em momentos próximos à eleição presidencial, a grande mídia, em consonância com suas candidaturas favoritas, recorre àquilo que o professor Wilson Ferreira, do blog Cinegnose, define como bombas semióticas.
Trata-se do conjunto de artefatos detonados na opinião pública, travestidos de informação por meio de diferentes mídias, cujo objetivo não é a persuasão político-ideológica ou doutrinária, mas a criação de ondas de choque ou a disseminação de estilhaços de signos na esfera pública. Essas bombas não são destinadas à razão, mas à percepção. Em última instância, visam dominar a agenda nacional.
Décadas antes de o bolsonarismo sair do esgoto, a direita já mobilizava pautas morais para influenciar o eleitor. Em 1989, na reta final do segundo turno, durante o horário eleitoral da chapa encabeçada por Fernando Collor, Lula foi acusado por uma ex-companheira de ter sugerido que ela abortasse a filha que esperavam. Mesmo com o direito de resposta que desmentiu essa “fake news”, o estrago já estava feito.
Ainda naquele pleito, o empresário Abilio Diniz foi sequestrado em São Paulo. Na época, a Polícia Militar apresentou materiais de campanha do PT e camisetas do partido que teriam sido forjados ou colocados junto aos sequestradores para sugerir ligação da sigla com o crime. Como não poderia deixar de ser, essa bomba semiótica foi amplamente divulgada pela imprensa, impactando a eleição.
Nos processos eleitorais seguintes, como o adversário de Lula era o intelectual Fernando Henrique Cardoso, não havia como recorrer a bombas semióticas sensacionalistas. Era preciso algo mais sofisticado, à altura do príncipe da Sociologia tupiniquim.
Assim, as coberturas midiáticas se concentraram em como o Plano Real, erroneamente atribuído a FHC, foi importante para a estabilização da economia brasileira. Em 1998, a grande imprensa também ocultou a tragédia que foi o primeiro mandato de Fernando Henrique. Deu certo!
Porém, em 2002 não era mais possível esconder os estragos da gestão tucana e sua agenda neoliberal. Lula foi eleito. Mas, no ano anterior ao pleito de 2006, surgiu outra bomba semiótica, a Ação Penal 470, midiaticamente conhecida como Mensalão. Entrava em cena um novo ator: o Judiciário e toda a farsa de associar a corrupção estatal exclusivamente ao PT, poupando os partidos de direita. Ironicamente, o mesmo Judiciário é protagonista da atual bomba semiótica. Mas vamos entrar nessa questão mais à frente.
Em 2010, com altos índices de popularidade do governo petista, não foi difícil para Lula eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. A bomba semiótica daquela vez foi uma das mais ridículas da política brasileira: uma bolinha de papel que atingiu o candidato tucano José Serra, supostamente lançada por um militante petista.
Quatro anos depois, ainda sob o efeito da bomba semiótica “jornadas de junho”, a (disputada) eleição entre Dilma Rousseff e Aécio Neves contou com a volta do discurso que associava o PT à corrupção, com a Operação Lava Jato e um novo herói midiático: Sérgio Moro. No entanto, era preciso mais do que bombas semióticas para a direita voltar ao poder. Assim, promoveram o golpe de 2016 e a prisão de Lula.
Sem o ex-presidente no páreo, a eleição de 2018 trouxe um novo ingrediente para as bombas semióticas: as redes sociais. Por lá, foi difundida a bomba do pânico moral: se Haddad fosse eleito, kits gays seriam distribuídos nas escolas, ideologia de gênero seria ensinada nas salas de aula e banheiros unissex seriam instalados para todo lado. A esquerda, àquela altura do campeonato já dominada pelo identitarismo, mordeu a isca. Aceitou disputar a eleição no pântano das pautas dos costumes e, por meio de cavalos de Troia como a campanha “Ele não!”, facilitou a vitória da extrema direita, com Jair Bolsonaro.
Como o “mito” fez um governo tão incompetente, mas “tão incompetente”, que nem conseguiu colocar em pauta uma política neoliberal agressiva, a grande mídia teve uma atuação discreta na campanha eleitoral de 2022 – o que não temos observado neste ano.
Às vésperas de mais uma eleição presidencial, a bomba semiótica da vez é a crise no Supremo Tribunal Federal, simbolizada na figura de Alexandre de Moraes. Como a esquerda, ao invés de partir para a luta política de fato, passou os últimos quatro anos apoiada no STF, idolatrando o Xandão; e a extrema direita, em seus delírios, se vende como antissistema e perseguida pelo Judiciário, não é difícil inferir sobre quem ganha dividendos eleitorais com a estratégica explosão dessa bomba. É o preço que a esquerda tem pago por cair na armadilha de defesa das instituições e da democracia burguesa.
Evidentemente, os antagonismos entre Xandão e André Mendonça não representam a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas vá explicar isso para o cidadão comum, que assistiu a todas essas movimentações de esquerda e extrema direita.
Se, ainda com Lula, a esquerda tem colaborado com todas as recentes bombas semióticas detonadas pela grande mídia, imagine daqui a quatro anos, quando provavelmente o dito espectro progressista será tomado por identitários e defensores do “sistema”. Aliás, isso se uma bomba semiótica não explodir de vez a esquerda mainstream até lá.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)
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