Brasil, enfim podemos juntar a hipocrisia, a arrogância e a covardia às nossas marcas identitárias, por Mariana Barreto

“Bolsonaro é um produto genuinamente nacional” e o é: hipócrita, arrogante e covarde, como todos e todas nós, da elite à ralé, não poupando as camadas médias, mas estranhamos isso, e preferimos vê-lo como um fascista, oportunista, uma exceção.

Brasil, enfim podemos juntar a hipocrisia, a arrogância e a covardia às nossas marcas identitárias. Virou hábito, tá valendo.

por Mariana Barreto

O Brasil sempre foi um país hipócrita, covarde e arrogante, poucas vezes tive dúvidas. No entanto, visualizar isso era um pouco difícil, as evidências pareciam frágeis porque sempre combinadas às nossas marcas identitárias primordiais: a alegria, a tolerância, o improviso etc. Nossa população, ainda que miserável, dos pontos de vista material e simbólico, é alegre, nossas intolerâncias não ferem, não excluem, não reproduzem as desigualdades, porque as relações de compadrio são seus freios, nosso improviso resolve todo e qualquer problema de ordem institucional, burocrática, quer seja de ordem pública ou privada. Todavia, nos dias de hoje, colocaram o retrato de nossa figura podre na sala de estar e o mundo o fotografa e o compartilha sem cessar.

As últimas mensagens publicadas por nossa melhor série, a Vaza Jato, produzida pelo The Intercept, mostram a elite econômica e intelectual dos magistrados de Curitiba discutindo os infortúnios experimentados pelo ex-presidente Lula (sim, faço questão de escrever ex-presidente porque faz parte da nossa arrogância insistir em apagar o passado e eu não incorrerei no erro) e sua família; assim como as repercussões sobre os imbróglios envolvendo os incêndios e demais arbitrariedades que acometem a Amazônia, expressam uma certeza: somos hipócritas, arrogantes e covardes. Se duvidamos disso, tenho um exercício simples que cada um de nós pode fazer: nos perguntemos quantos de nós resistiríamos a uma Vaza Jato em nossos grupos familiares, profissional, aquele dos amigos de infância, dos irmãos, da igreja, dos namorados, dos amantes? Qual ateu ou crente suportaria uma Vaza Jato em seus grupos mais espontâneos e nos mais obrigatórios?

Dificilmente, alguém passaria incólume à exposição, ao escrutínio, de suas  malícias, de suas falsas moralidades, de suas covardias. Não há necessidade de nenhum exercício de imaginação para acreditar que dentre os efeitos deletérios das revelações se sobressaísse a postura sobranceira do atingido, incapaz de refazer-se do zero, sua covardia tudo negaria e sua arrogância seria a ponta de lança de sua indiferença, pela crença no esquecimento, na covardice de que tudo seja extinto e remido, no desejo oportunista de ser perdoado. 

Para o mundo, a Amazônia queima, ou é liquidada diriam os mais antigos, vítima da irresponsabilidade de um presidente, reconhecido, nomeado e classificado como um homem de extrema-direita – o que é majoritariamente ignorado entre nós -, que governa o país repelindo insolente e mentirosamente dados, fatos e realidades. Ouvi recentemente do jornalista Mino Carta que “Bolsonaro é um produto genuinamente nacional” e o é: hipócrita, arrogante e covarde, como todos e todas nós, da elite à ralé, não poupando as camadas médias, mas estranhamos isso, e preferimos vê-lo como um fascista, oportunista, uma exceção. Da mesma forma, para nós parecem normais, moralmente irrelevantes, os comentários sobre o estado de saúde de D. Marisa divulgados hoje pela Vaza Jato, afinal a ex-primeira dama foi uma exceção. 

Nossas novas marcas identitárias resistem bem as exceções, porque ainda não nos demos conta que viraram regras. 

Mariana Barreto – Socióloga, é Professora Adjunta IV do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará – UFC.

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12 comentários

  1. Com as devidas desculpas a autora, mas o brasileiro nunca, jamais, me enganou.
    O convívio diário com essa espécie de animal nunca, jamais me deixou criar ilusões.
    O que aparece agora e que, muitos claramente veem, é o legítimo brasileiro.
    Claro, existem exceções, que também conheço, mas são minoritárias. Estas, que me perdoem.

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  2. Desde adolescente que tenho esse sentimento. De que somos hipocritas, muito hipocritas, arrogantes com uns e covardes com outros.

  3. “…O Brasil sempre foi um país hipócrita, covarde e arrogante, poucas vezes tive dúvidas…” Sempre é muito tempo. Mas o Brasil foi doutrinado a estes adjetivos, depois da perda da Democracia Republicana Livre e Facultativa tomado por Um Golpe Civil Militar Esquerdopata Fascista em 1930. A partir daí, somente o resultado de tais projetos. Tancredo Neves, familiar do Caudilho Fascista, amarra a década do golpe em 1930 até as eleições presidenciais que quase elege seu neto, de tristes páginas policiais e corruptas. “Loucura é sempre fazer as mesmas coisas, da mesma forma e esperar por resultados diferentes” . Que resultados diferentes, esperavam por estas 9 décadas?

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  4. Em relação à covardia, é bom lembrar de um exemplo oposto. Depois de resistir a tiros durante toda uma noite a um ataque dos integralistas ao Palácio Guanabara, sua residência, onde ocorreram diversas mortes, Getúlio Vargas fez como todas as manhãs: foi a pé até o Palácio do Catete, onde era seu gabinete, acompanhado apenas de um ajudante de ordens, que ficava a distância, enquanto ele conversava com todos que lhe dirigissem a palavra. Bem diferente dos comboios blindados que vemos atualmente…

  5. O Bolsonaro é o Retrato de Dorian Gray da sociedade brasileira… infelizmente, não é bonito e muito feio de encarar….

    • Sidney: O Dorian Gray bananeiro é o Deltan Dinheirol. Pratica todas as maldades, as próprias e as sugeridas pelo moro , e continua com cara de anjo. Só o espelho do farsante mostra a sua fealdade…

  6. ““Bolsonaro é um produto genuinamente nacional” e o é: hipócrita, arrogante e covarde, como todos e todas nós, da elite à ralé, não poupando as camadas médias,”

    É por este motivo que salta aos olhos de qualquer um o que já comentei aqui: o Bozo é o RETRATO FIEL do que é o brasil e os brasileiros.

    Há muito não tínhamos um retrato tão claro do que somos como sociedade no executivo. Tínhamos há tempos no congresso e assembléias.
    Mas ainda faltou incluir racista e preconceituosa nos adjetivos.

  7. Tudo isso já estava aqui , mas veio mais de de caravelas em 1500 , e bem mais nas primeiras e segunda guerras mundiais . ” saindo do armário ” .

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  8. O Brasil não é uma nação com um povo que lute por sua soberania e direitos e deveres, mas somos meros expectadores da Manipulação que Oprime nosso presente e futuro!

  9. Ontem assisti ao filme “Ensaio sobre a Cegueira” baseado no livro do Saramago. Por algum motivo associei com o que é dito neste artigo e vivido no Brasil… mas ele refere-se ao mundo inteiro!

  10. Não querendo ser diversionista, e sendo, pergunto: não seria igualmente hipócrita tal generalização? Aquela coisa que a classe média evoca sempre que é pega com a boca na botija: quem nunca?!
    Acho que os meios acadêmicos padecem de um mal que o torna ainda mais hipócrita que o restante da sociedade. O intelectual brasileiro se arroga o direito de definir a identidade nacional – para o bem ou para o mal – sem precisar conhecer de fato seu “objeto de pesquisa”.
    A superficialidade do “relativismo” (entre aspas, mesmo) no pensamento acadêmico brasileiro beira a típica conversa de botequim. Relativizar para o pseudointelectual, jamais foi relacionar informações, senão, o exercício de defender de forma sectária seu próprio ponto de vista, ignorando aos demais, sem com isto deslegitimar a postura dissidente. E se não depreciam o outro de pronto, é porque a tese alheia poderá ser usada oportunisticamente num futuro próximo, de acordo com interesses, afinal de contas, intelectual é um heroi de si mesmo, uma metamorfose ambulante pouco afeita a exatidão e ao rigor acadêmico. Típico do nosso jeitinho de pensar as coisas.
    Não diriam que Bolsonaro é fruto de nossa identidade nacional se esta não gerasse algo que a contradiz e a repele: o contraponto, produzido sobretudo pela imensa maioria excluída. É fato que por vezes esta mesma maioria acaba por reproduzir o comportamento de seus algozes. Compreensível, numa sociedade ideologicamente dominada pelo “senso comum” e pelo discurso único. Mas, antes de se generalizar qualquer coisa, deveríamos levar em conta que o contrário de tudo isto que a autora define como identitário, possui sim, resistência. Infelizmente, o afastamento da academia do campo onde poderiam ser identificados tais agentes só reforça o processo de silenciamento daqueles que são verdadeiramente excluídos da participação política e menosprezados em sua luta. Uma luta que nada mais que a de manter vivas as sementes de algo melhor, ao menos enquanto a escuridão não seja rompida.

  11. É verdade que Bolsonaro é brasileiro típico, mas é um tipo que representa 30% da população, embora tenha sido eleito por mais do que isso. Trinta por cento da nossa população votou nele porque se identifica com ele. Mas é bom registrar que 47 milhões disseram #eleNão.

  12. + comentários

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