Chapa Lula-Alckmin é o que temos pra hoje, por Marcio Valley

Os dois governos de Lula (2003/2010) são marcados por forte tentativa de mudança gradualista, embora temperada pela realpolitik inseparável do nosso presidencialismo de coalizão.

Chapa Lula-Alckmin é o que temos pra hoje

por Marcio Valley

A propósito do intenso debate acerca da possível chapa Lula-Alckmin, deve-se, primeiro, lamentar a invocação de Lula para novamente disputar a presidência do país. Após dois mandatos de sucesso, como presidente de uma das maiores economias do mundo, melhor seria que não mais retornasse a disputas eleitorais como candidato. O seu papel por excelência seria o exercício da condição simbólica de defensor da nação, interna e externamente, como um diplomata de honra, atribuição típica de ex-presidentes de grandes nações. Na verdade, ele até fez isso enquanto pôde, até o ponto em que a hipocrisia política permitiu, cessando apenas quando a atuação em defesa de empresas brasileiras, perante governos estrangeiros, foi criminosamente criminalizada, com evidentes propósitos políticos. Contudo, a conjuntura atual de fato exige a candidatura de alguém com sua estatura e ele parece estar à vontade com o retorno, de modo que de bom grado o povo a está aceitando explosivamente, como indicam as pesquisas. Segundo, estar atento à circunstância que ainda é mera conjectura. A proposta está na mesa, sendo negociada, porém sem definição até o momento. Ao que parece, Márcio França está fazendo o que pode para melar a chapa, ao fazer exigências inviáveis.

Caso se confirme a união Lula-Alckmin, ou de Lula com outro representante moderado da centro-direita, a análise exige retornar a um tema que já foi objeto de diversos textos que publiquei. Ainda persiste forte, no imaginário de muitos eleitores, a visão romântica de que um governo de esquerda, assumindo o poder, conseguiria alterar, em um mandato ou dois, todo um arcabouço político construído ao longo de toda a história conhecida com o objetivo de manter o efetivo poder nas mãos dos ricos. Não são poucos os que ainda supõem que uma revolução popular é viável e capaz de atingir o objetivo de extinguir ou mitigar o imenso abismo de desigualdade que existe na sociedade humana desde sempre. Há um ditado popular segundo o qual o jovem que não é comunista não tem coração e o adulto maduro que não é conservador é burro. A prevalecer esse entendimento, como, já quase chegando à idade em que a lei diz que as pessoas são idosas, ainda acredito que a evolução intelectual conduzirá a humanidade naturalmente ao comunismo, tese adotada desde a adolescência, aceito melhor a pecha de burro, do que a de socialmente injusto. Entre o pensamento adolescente e o atual só há, basicamente, uma diferença: o ímpeto revolucionário, em mim, extinguiu-se muito tempo atrás. Por quê? Simples, o tempo das revoluções se foi, a tecnologia lhe pôs fim. Com o terrível arsenal bélico atual, uma revolução verdadeiramente popular (sem participação militar) não duraria três dias, com uma quantidade incalculável de mortos, caso o poder estabelecido resolvesse responder com a intensidade máxima de sua força. E, não tenham dúvida, responderiam caso a ameaça fosse real. Ah, diriam alguns, mas somos sete bilhões contra um bilhão, eles não conseguiriam matar todos. Sim, é verdade. Com muita sorte, sobrariam uns quinhentos milhões de revolucionários para dar um restart na humanidade. Nesse caso, a indagação que fica é: valeria a pena sacrificar noventa por cento da humanidade para que uns poucos sobreviventes dessem início a um novo sistema de sucesso incerto, que, pelo contrário, a experiência histórica sugere que seria um fracasso, uma vez que as revoluções, assim como o capitalismo, também costumam carregar suas próprias contradições intrínsecas? Entendo que não. Não é eficaz um remédio que mata o paciente. Quando, no campo de batalha, tombam milhões de vidas, não importa de que lado, nenhum deles é de fato vitorioso, como dolorosamente compreendeu o rei Pirro. Por conta disso, enterrei fundo o espírito revolucionário que havia em mim.

Qual seria, então, o meio de superar o capitalismo selvagem para alcançar uma sociedade mais justa? A meia dúzia de leitores que acompanha meus textos deve ter percebido que defendo seguidamente a tese do gradualismo, ou seja, a realização de pequenas e sucessivas alterações no sistema, palatáveis aos establishment, capazes de conduzir, paulatina e ininterruptamente, a um nível de mudança profunda similar, ou até superior, à que seria alcançada pela revolução. Já tratei do tema em várias ocasiões ao longo do tempo. O gradualismo pode ser igualmente denominado de realpolitik, todavia com alteração no sentido ético desse último. Isso porque realpolitik traduz um objetivo mais mundano, menos engajado com a mudança utópica do que com os interesses cartoriais de ocasião. Em linhas gerais, implica introdução progressiva de novos elementos na cena política, atuando em conjunto com a prática política mais antiga que se encontra em andamento. Trata-se de “mudar por dentro”, corroendo, pouco a pouco, as bases do estabelecido até provocar uma fadiga estrutural de magnitude, capaz de colapsar todo o edifício sistêmico. Não se trata de sabotagem, no rigor da palavra, porque se municia das normas aceitas, instituídas pelo poder, ou de seus hiatos. Exemplos externos seriam, p.ex., conscientização do outro, passeatas, greves, boicotes e até os modernos “cancelamentos” de figuras públicas que se posicionam contra a dignidade do ser humano. Os internos ficam por conta da atuação na normatividade, pública ou privada, direta ou indireta, das instituições. A atuação como eleitor, escolhendo candidatos que, de fato, representem a classe social em que se coloca, é um poderoso modo de o cidadão participar da modificação da sociedade.

O grande trunfo do gradualismo reside justamente em sua característica mais distinta da sempre barulhenta revolução: a imperceptibilidade. As alterações em direção à redução geral das diversas desigualdades sociais devem ser tão discretas quanto possível, pois é essa discrição que evitará o reacionarismo violento típico dos donos do poder. Claro, embora a velocidade das mudanças deva ser lenta para evitar o revide violento, há de ser veloz o suficiente para que o indivíduo perceba nitidamente a alteração do padrão durante a própria vida. Caso contrário, seria inútil no que concerne a cada uma das vidas que se foram antes de alcançar a dignidade.

Não bastasse o temor pela possibilidade de um número gigantesco de vidas perdidas numa revolução, o gradualismo também se justifica pelo respeito à democracia. O regime democrático deve se situar num patamar acima de sistemas econômicos: capitalismo, comunismo ou qualquer outro. Pressupondo a participação igualitária dos cidadãos nas decisões que determinarão o futuro de todos, à democracia cabe considerar a visão utópica de cada um, caso contrário não seria um regime democrático (de todos), mas dos que se consideram superiores (aristocracia). Quer queiramos, quer não, no seio do povo existem cidadãos reformadores (revolucionários) e conservadores (reacionários), com idênticos direitos.

Creio que Marx, o economista, também se referia a isso quando abordava as contradições do capitalismo capazes de conduzir ao comunismo. Nesse aspecto, opunha-se ao Marx revolucionário que trabalhou pela mudança imediata por via da violência. As contradições pontificadas por Marx são uma via possível e pacífica para uma transição gradual do capitalismo em direção ao socialismo, sem traumas profundos, numa ambiência de regras civilizadas, a partir de perspectivas e opções fornecidas pelo próprio sistema. Percebam: a fala do Marx economista não diverge tanto assim do pensamento do economista conservador contemporâneo Delfim Netto. Segundo ele, o capitalismo representa apenas um momento no processo histórico, não podendo ser classificado, nem como natural, nem como eterno, o que significa dizer que, em algum ponto do futuro, será substituído por um novo sistema econômico. O que virá depois? Delfim não ousa dizer o nome.

Os dois governos de Lula (2003/2010) são marcados por forte tentativa de mudança gradualista, embora temperada pela realpolitik inseparável do nosso presidencialismo de coalização. Lula tentou mudar o status social no grau máximo capaz de ser obtido sem ofensa profunda aos interesses dominantes. Foi um momento tão marcante em nosso país, que o analista político Luís Nassif o comparou a períodos decisivos de inclusão social na história brasileira, como o da libertação dos escravos e o da conquista das sufragistas pelo direito de voto feminino. Considerado o cenário encontrado ao assumir o governo, pode-se afirmar que Lula conseguiu bastante. Vale destacar que o alvo nunca sequer chegou perto de ser a instituição do comunismo no país. O que se pretendeu foi a implementação de uma social-democracia ao estilo nórdico, ou seja, com redução das diversas desigualdades sociais e opção pelo desenvolvimento do ser humano em termos espirituais e de dignidade.

Obviamente, não satisfez todas as esperanças nele depositadas. Isso ninguém jamais consegue, vamos ser claros. E é aqui que entra a noção de sofisma do mundo ideal, tão utilizada pelos detratores de Lula, tanto os de direita, como os de esquerda. É sempre possível produzir uma crítica negativa, sem fundamento algum, mesmo em relação a fatos positivos do melhor governo do mundo; basta invocar a perfeição. Se não há como esconder o dado positivo, cabe relativizá-lo, mesmo que se saiba impossível evitar esse lado negativo. Por exemplo, se houve uma melhoria considerável na educação, vamos supor, de 100% em relação ao período anterior, a retórica será: “A qualidade da educação subiu, é verdade, mas é a pior nos últimos vinte anos entre as dez maiores economias. E por que isso? Por que o governo compactou com os banqueiros, que ficaram ainda mais ricos”. Note-se: o governo criticado não esteve no poder durante os vinte anos apontados e não há relação necessária entre o lucro dos banqueiros e a comparação com a educação dos outros países. Puro proselitismo descerebrado, mas os sectários o engolem facilmente.

E o que isso tem a ver com a possível chapa Lula-Alckmin? Muito. Chapas puro-sangue representam o ideal em termos de identidade política. Seja qual for o partido, são as mais indicadas e autênticas se considerada a origem e justificativa da existência de partidos políticos, ou seja, como a representação do pensamento político de um determinado segmento da população. O ideal seria que os partidos sempre concorressem apenas com seus filiados e segundo o seu programa. Coligações partidárias contrariam o sentido teleológico do partido. Quando não puro-sangue, pelo menos que contassem com a maior intensidade possível de afinidade política, como a que envolveu a chapa Haddad-Manuela. Seriam ótimas as chapas Lula-Haddad, Lula-Manuela, Lula-Dino ou Lula-Requião. Por outro lado, Lula e Alckmin, juntos, formam uma espécie de quimera partidária dificilmente justificável sob a simples ótica do sentido lógico da existência de partidos. Numa análise superficial, passam a ideia de puro oportunismo.

Todavia, a realidade, essa coisa imponderável que nunca nos sai do caminho, sempre se impõe sobre a utopia, sobre o desejo, sobre qualquer ilusão que tenhamos acerca do mundo. Uma chapa puro-sangue ou quase, embora represente mais perfeitamente os adeptos daquela coloração, é menos atrativa em relação aos eleitores das demais orientações políticas, pois não se veem por ela representados. Se isso não chega a ser um grande problema em momentos de normalidade, já que faz parte do jogo saber perder eleições (no fundo, democracia é perder com dignidade), pode representar um grande entrave em situações excepcionais, como a que vive o país atualmente. Estamos no limiar de um abismo autoritário que exige a eleição de um moderado para a presidência. A inegável força eleitoral de Lula não significa, necessariamente, que sairá vitorioso em outubro. À exceção dos simpatizantes do PT, que, sem dúvida, nele votarão maciçamente independentemente de quem seja seu vice, os demais eleitores que nutram, por mínimos que sejam, sentimentos antipetistas ou antiesquerdistas, não se sentirão confortáveis em votar numa chapa composta somente por políticos de esquerda.

É nesse ponto que se deve renunciar à ingenuidade e admitir a dura realidade: temos um real possibilidade de endurecimento do regime e esse é o inimigo mais imediato a ser combatido. Lula não está atrás dos votos dos eleitores de Alckmin, que, convenhamos, nem são tantos assim. A presença do ex-governador numa eventual chapa, com seu histórico e imagem pessoal de comedimento, justifica-se como uma garantia de anestesia do discurso anticomunista e de falso paralelismo de extremos entre Lula e Bolsonaro.

Alckmin na chapa não é o que se imaginava, nem o que se desejava, mas é o que temos para hoje, é o que o realismo político permite. Com ele na chapa, ou outro com o mesmo perfil, vencer as eleições de 2022 representará uma conquista parcial, porém de suma importância. Significará o enfraquecimento do discurso neofascista e golpista e dos ataques sistemáticos à democracia, o fim dos delírios tresloucados dessa turba de negacionistas, terraplanistas, que assaltou o Planalto. E, mais importante, marcará o retorno de um programa de governo que, com seus erros e acertos, demonstrou-se preocupado em proporcionar condições de dignidade para uma porção importante da população brasileira.

O prejuízo, nisso, é que uma eventual chapa Lula-Alckmin, como não poderia deixar de ser, exigirá a entrega de fatia do poder para o liberalismo econômico representado pelo ex-governador. Não teremos toda a força transformadora de um autêntico governo social de esquerda. Em outras palavras, será uma conquista gradual. Por outro lado, vale lembrar que municiar o governo de força transformadora sequer depende meramente da eleição de Lula, seja lá qual for o vice, mas de os eleitores perceberem que isso demanda mudança relevante na composição do congresso, com a eleição de deputados e senadores que tenham vinculação conhecida com as pautas sociais e identitárias.

Apesar dos contras, o imenso ponto favorável é que uma chapa com tais características constituirá um eficaz muro de contenção para os absurdos que testemunhamos desde janeiro de 2019.

A hora, portanto, é de resignação, de deixar a realização de parte dos sonhos para 2026.

O jogo é esse que está sendo jogado e não se ganha uma guerra numa batalha só.

Marcio Valley é formado em Direito pela UFF, com pós-graduação em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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2 Comentários

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LF Pereira

- 2022-01-14 20:30:42

Bem, não era o meu sonho. Contra Bolsonaro só me resta o voto útil.

Luiz Mattos

- 2022-01-14 11:23:01

Quem conheceu a fúria da PM psdbista não v~e nenhuma moderação no verdugo do povo pobre de Pinheirinho,cá pra nós fica evidente que o candidato de alguns articulistas e de sites falso progressistas é Geraldo e não Lula. Chama a atenção minha memória atiçando a lembrança de que tais sites e tais articulistas são os mesmos que defendiam a insanidade de junho de 2013 enquanto esquerdistas conscientes alertavam aos brados:- É GOLPE ! De uma hora pra outra esquecem o passado recente e santificam um dos mais covardes e canalhas governadores paridos pelos quatrocentões paulistanos.

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