Coringa: saúde mental, contradições sociais e revolta popular, por Alexandre Camargo de Sant’Ana

Não só é Arthur Fleck que está doente e abandonado pelo Estado. Reina uma ideologia do cada um por si, cada qual cuidando dos seus interesses, inclusive da própria segurança.

Coringa: saúde mental, contradições sociais e revolta popular

por Alexandre Camargo de Sant’Ana

Depois de assistir Coringa, dirigido por Todd Phillips, eu li diversas críticas sobre o filme, tanto de esquerda, quanto de direita e até mesmo da área de psicologia. Apesar de muitas análises serem excelentes, normalmente acabam desequilibradas, focando demasiadamente na sociedade de Gotham City ou na personagem principal (magistralmente interpretada por Joaquim Phoenix). Além disso, me incomodou a ausência de responsabilização de Thomas Wayne – com sua postura preconceituosa contra os mais pobres – e a pouca atenção ao sentimento de revolta da população. É necessário unir estes quatro fatores e analisar a obra cinematográfica a partir desta relação de poder entre Arthur Fleck, Thomas Wayne e a população, mas dentro do pano de fundo que é a sociedade de Gotham, mostrando como um impactou o outro e sem cair em maniqueísmos.

Antes de qualquer comentário a respeito do roteiro, precisamos deixar claro: Arthur Fleck possui uma ou diversas doenças mentais (não estão catalogadas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais porque é uma obra de ficção e o autor tem todo o direito de inventar uma doença para sua personagem – isso não e discute). Deste modo, é obrigatório analisá-lo sempre partindo da sua debilitada condição mental agravada pela falta de um tratamento psicológico de qualidade: por conta de seus graves distúrbios, Arthur Fleck nunca se relacionou com ninguém e nem namorou, virando um sujeito solitário e reprimido; devido sua doença, sonhava acordado em se tornar um humorista famoso, mas não conseguiu; em virtude dos sérios transtornos que o acompanharam desde a infância, cresceu como um fracassado, não arranjou um emprego decente e se tornou um adulto falido e pobre, morando com a mãe em um lugar decadente. Arthur Fleck, doente e miserável, a vida inteira sem receber um tratamento adequado, é um desajustado tomando sete remédios para poder conviver em sociedade, para não pirar de vez, para manter um mínimo de racionalidade, enfim, para não deixar os distúrbios dominarem completamente sua mente e permanecer só mais um na multidão.

Sem um tratamento médico de qualidade, a doença manteve Arthur Fleck na pobreza. Logo, não podia comprar os remédios e dependia da Assistência Social do Estado para se drogar e manter a sanidade. Porém, naquele mundo não existe mais isso. O governo está perdido em corrupção, a economia é totalmente desregulada, quase ninguém tem emprego ou dinheiro, há sujeira por todos os lados, falta segurança e o Estado só aparece em forma de repressão policial, principalmente se for para defender a elite, única classe vivendo bem. Naquela sociedade ultraliberal, o Estado deixou de fornecer os remédios para Arthur. Deste modo, impossibilitado economicamente de comprar a medicação, ele interrompeu o já precário tratamento e piorou cada vez mais até explodir. Sem considerar isso, ou seja, a doença mental, a falta de acompanhamento médico, a ausência de tratamento decente e de medicação, é impossível fazer uma análise correta da personagem.

Não só é Arthur Fleck que está doente e abandonado pelo Estado. Reina uma ideologia do cada um por si, cada qual cuidando dos seus interesses, inclusive da própria segurança. É uma sociedade individualista e armamentista, na qual o cidadão tem o direito (e o dever) de se armar e se defender – já que o Estado não faz isso. Deste modo, um sujeito com transtornos mentais gravíssimos e sem tratamento médico teve acesso a uma arma carregada. Obviamente isso não poderia dar certo e não deu. Ao ser atacado, perdeu o pouco controle restante em sua mente doente, sacou a arma e – em legítima defesa, diga-se de passagem – atirou para matar. Enlouquecido e fora de si, foi atrás de quem fugiu. Aqui as histórias se conectam: o evento transformou a personagem submissa, reprimida, transtornada e sem tratamento psicológico, em seu poderoso alter ego, armado e perigoso, que não leva desaforo para casa, que resolve tudo na bala; entretanto, também impactou diretamente na sociedade, principalmente devido à mídia sensacionalista, potencializando o sentimento de revolta; além disso, gerou uma reação das elites na figura de seu líder Thomas Wayne que entra na política.

Se a extrema maioria de Gotham sobrevive na miséria, uma minoria rica faz a festa e age como dona do mundo. Naquela sociedade desigual e cheia de contradições, os abastados vivem isolados do resto do povo, desprezando as classes populares. Porém, quando a violência atingiu os membros da elite, um milionário decidiu usar sua fortuna para tentar se eleger, tomar o poder e defender os interesses da sua classe, ou seja, colocar a pobreza – estes palhaços – no devido lugar. Segundo ele, a violência urbana seria apenas fruto da inveja dos pobres, que não foram competentes o suficiente para ganharem dinheiro e por isso odeiam os ricos. Por outro lado, a população pouco se importou com os homicídios e ainda enxergou aquele triplo assassinato como um ato de rebeldia: Morte aos ricos! E convenhamos, a atitude prepotente e as afirmações preconceituosas (fundamentadas na ideologia da meritocracia) de Thomas Wayne só fizeram aumentar a revolta da massa. 

É a população indignada – não apenas por sua histórica situação de carestia, mas também devido aos comentários de Wayne – que transforma o palhaço assassino em símbolo de resistência. Arthur não é politizado, na verdade é um ignorante alienado, perdido em transtornos mentais e alucinações, agindo de forma irracional e reativa porque o Estado cortou seus sete remédios. Não é líder de nada, não é um revolucionário. Todavia, adora a repercussão do seu ato e se enche de orgulho, principalmente porque a mídia não para de falar nele. Ele já não é mais Arthur Fleck e sim um sujeito alucinado, cheio de ódio, obcecado, fora de controle, tomado pela loucura e com uma arma carregada na cintura. Totalmente transtornado e sentindo-se poderoso, tem a chance de matar aquele que o humilhou em rede nacional. Perdido em sua insanidade não tratada, assume a personagem do palhaço exterminador de ricos e comete o assassinato ao vivo na TV. Mas ele não fez isso pensando em começar uma revolução ou como um ato político. Pelo contrário, agiu por ele mesmo, porque o apresentador havia lhe humilhado e o chamara no programa apenas para continuar a humilhação. Ultimamente ele não estava mais aceitando isso, afinal, possuía uma arma. Mas, o palhaço já era o símbolo da revolta, apenas assumiu um papel pré-definido.

O filme é violento, mas não homenageia a violência em nenhum momento. Simplesmente denuncia os diversos tipos de violências de uma sociedade doente (tão perturbada quanto Arthur Fleck), individualista e brutal, na qual os mais pobres estão abandonados à própria sorte e não podem contar com o Estado, enquanto os ricos gozam os prazeres do dinheiro. As classes populares, além de exploradas pelo sistema econômico, ainda são acusadas de não se esforçarem o bastante e de serem invejosas recalcadas. Sem Assistência Social, os mais necessitados e com transtornos psicológicos não encontram oportunidades na vida, não recebem nenhum tratamento do Estado e sofrem preconceito e humilhações diárias. Trata-se de uma população mergulhada na pobreza e sem apoio governamental, desesperada, sem rumo, desempregada, sem crença na política e na Democracia, que faz uma leitura equivocada dos atos de Arthur Fleck, enxergando aquilo como uma reação ao inimigo, no caso em questão: os ricos. Além disso, é uma denúncia importante sobre como o acesso facilitado às armas possibilita que indivíduos perturbados consigam uma também, saiam armados e cometam tragédias horríveis.  

Seu ato irresponsável certamente foi o estopim que levou a população a se rebelar, mas somente porque havia um contexto favorecendo isso. Somente porque os cidadãos estavam prontos para explodir, caso contrário, provavelmente ele seria visto apenas como um assassino psicopata. É esta população massacrada pelo sistema que surta junto com Arthur Fleck. Ela enlouquece e passa a se sentir poderosa, “põem uma arma na cintura”, sai atrás dos seus inimigos, toma as ruas quebrando tudo e eleva um palhaço doente mental sem tratamento ao símbolo máximo da revolta contra o sistema. Interessante mesmo é já existir manifestante chileno usando a fantasia do Coringa, além da existência de pichações e cartazes com frases do filme, como: “We are all clowns”. 

É ficção, mas parece tanto com a nossa realidade que chega a dar medo.     

Alexandre Camargo de Sant’Ana – Historiador

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