Escola Unidos da Farsa Jato atravessa o samba e cai para 2º grupo, por Armando Coelho Neto

 

Obra de Debret

Escola Unidos da Farsa Jato atravessa o samba e cai para 2º grupo

por Armando Rodrigues Coelho Neto

A Escola de Samba Unidos da Farsa Jato tinha tudo para ser campeã, sobretudo pelo enredo, que apesar de não ser novo, contemplava, em princípio, um  mote capaz de encantar as arquibancadas na hora do desfile. Logo, porém, ficou claro se tratar de um plágio da “Operação Mãos Limpas” (Itália 1992 a 1996), que apesar do mesmo mote, não tornou aquele país mais honesto e, pelo contrário, levou ao poder uma máfia. Abriu caminho para que, mais tarde, fosse entregue ao bilionário e corrupto empresário Silvio Berluscone. Qualquer semelhança com o traidor/usurpador Temer e seus asseclas em Brasília não é mera coincidência. Há enredos similares no Paraguai, Honduras…

A falta de originalidade não ficou nisso. O que seria mero detalhe no enredo plagiado ou mero acessório restou provado ser principal. O detalhe virou destaque ao mirar, não a corrupção, mas sim o ex-presidente Lula/PT – que subitamente virou alvo de perseguição da família Marinho. Aqui, não custa lembrar que o ex-presidente Juscelino Kubitschek, ao deixar o poder, foi morar num apartamento em Ipanema (Rio de Janeiro) e foi acusado de ter usado um laranja, pois o imóvel estaria em nome de um amigo. Na edição de 24/06/1964, o jornal “O Globo” (olha os Marinhos aí de novo, gente!) exibiu a chamada: “Investigações dizem que é de Kubitschek o prédio da Avenida Vieira Souto”. Portanto, originalidade zero.

Estava eu examinar o enredo da escola, quando recebi mensagem de um delegado federal. “Lula, como presidente, fala mais errado do que como sindicalista”. Respondi que política tem regras próprias. Tão próprias, que um apartamento e um sítio que poderiam ser do Lula não podem ser. Afinal, Lula perdeu as eleições para Fernando Collor, entre outras tramoias, por causa de um aparelho de som, adrede colocado pelos Marinhos no debate eleitoral. Resumindo, Lula não podia sequer ter um aparelho de som, quanto mais um apartamento que não comprou, não recebeu, não morou, não tem chaves, nem está em seu nome. Bem diferente de FHC (protegido dos Marinhos) que pode ter apartamento em Paris e fazenda em Minas Gerais no nome de terceiros.

Apesar da lambança no enredo, a escola percorreu o sambódromo com cronometragem britânica. Cada coisa aconteceu no “timing”, tudo narrado no tempo do samba-enredo, que tinha como puxador William Bonner. Nesse ponto a escola teve uma nota alta, compensando o zero no enredo. Mas, o que seria de Bonner sem a Comissão de Frente fantasiada de “PowerPoint”, com gente da Polícia, Receita, Ministério Público e Justiça Federal? Para os poucos familiarizados com Carnaval, a Comissão de Frente é quesito fundamental, pela sua capacidade de causar impacto no público. Dai a importância da fantasia.

O quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira não foi lá muito bom. Aécio Neves e Miriam Leitão cumpriram esse papel. Aécio tentava agitar a galera, mas ele próprio não se mexia. Estaria sob efeito medicamentoso? Já Miriam, por ter quebrado o salto do sapato desde outros Carnavais, desengonçava muito. Fizeram muita micagem pra chamar a atenção, mas não o suficiente para esconder a fragilidade do carro abre-alas. Pegou mal para a escola, ter sua imagem associada ao Japonês da Federal. A classe média que servia de formigões para empurrar o carro alegórico de tudo participou sem saber direito o enredo. Mas, com ênfase, cantou o samba, embora tão logo tenha acabado o desfile foi esquecida. Sumiu como panelas, patos e “Black bloc”.

Segundo estudiosos, o quesito “Alegorias e Adereços” engloba elementos cenográficos sobre rodas ou não e precisam estar coerentes com a concepção e adequação ao tema. Nesse sentido, as togas  negras esvoaçantes contrastaram bem com os resplendores verde-amarelo. Beicinhos, caras e bocas falsas e seletivamente indignadas com a corrupção dos apresentadores de TV criaram um cenário lúdico e completamente criativo, necessário para o convencimento da insólita plateia.

 

Apesar de coloridos, os adereços pareciam desconectados: malas de dinheiro, helicoca, jatinho do Huck, Fred, ideologia de gênero, vassouras ungidas, confissões sob tortura, apologia à torturador, Constituição Federal rasgada, ato de ofício indeterminado, Tacla Duran, Auxílio Moradia. Também soaram um tanto quanto destrambelhados as figuras cintilantes de Três Patetas e um pen drive travado.

Houve vaias para as alas do “Exército Covarde” e “Coxinhas Arrependidos”. Portanto, a escola não surpreendeu com o carro alegórico “Bolsopatas do Mourão”. Palhaços animados e dançantes agitavam bandeiras dos Estados Unidos. Um tanque de guerra subindo um morro, todo cercado de passistas evangélicos foi destaque.

Também chamou atenção a postura difusa do público. Gente do PCC e traficantes do Morro dos Macacos aplaudiram muito, aos gritos de “Já ganhou!”, a passagem do carro alegórico batizado de “Xandinho Morais”. Vai saber! Já para os estrangeiros, patrocinados pela Shell, Coca-cola, Fundação Ford se encantaram quando a Globo exibiu no telão da Sapucaí a imagem da “Madre Superiora” (rindo não se sabe de quem ou para quem), enquanto parte do público gritava: “Moralidade no Judiciário Já”, “Fora Vampira”, “Respeito à presunção de inocência”, “Mendes na cadeia”, “Fora Temer”, “Lula 2018”… Mas, na hora que muitos gritaram “Fora Globo” e “Cadê a prova?”, a TV Globo cortou o som…

Ah! A bateria não era lá a da “Mocidade Independente”, mas deu o recado. A fantasia de personagens de jogo de baralho estava coerente, apesar do desempenho desengonçado da madrinha  Liliana Ayalde.

 

Muita coisa correu maliciosamente bem e no script. Mesmo assim, a escola vai cair para o segundo grupo da história. O leitor pode estar se perguntando: se o Carnaval não terminou e os envelopes com as notas só serão abertos na Quarta-Feira de Cinzas, como estou adiantando o rebaixamento da escola? A resposta é simples. Tanto na fantasia quanto na realidade tudo é farsa, é um jogo de cartas marcadas num grande acordo nacional.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

 

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