Os Brasis: a grande farsa, por Arkx

Os Brasis: a grande farsa, por Arkx

as tragédias se abatendo repetidamente sobre o Brasil tem uma de suas principais origens numa grande farsa: o jogo de cena do Lulismo e da Ex-querda na luta contra o Golpeachment.

um golpe só pode ser derrotado por um contra-golpe. sem um amplo e capilarizado movimento de massas, nenhum contra-golpe pode ser desferido.

a pedra fundamental da luta conta o Golpe de 2016 é obrigatoriamente a nulidade do impeachment, cuja inconstitucionalidade já foi reconhecida pelos próprios golpistas, ao admitirem não ter sido cometido nenhum crime de responsabilidade.

ainda assim, tanto o Lulismo quanto a Ex-querda jamais situaram a luta contra o Golpeahment no eixo da nulidade do impeachment, e muito menos fundada num movimento de massas.

a conveniente ilusão quanto a via eleitoral como a centralidade, redundará em não mais do que derrotas anunciadas e frustrações desmobilizadoras. a luta contra o Golpe de 2016 deve ser travada aqui e agora, não vai ser decidida mais tarde por algum candidato hipotético numa eleição viciada.

para justificar a estratégia de se pautar mais uma vez exclusivamente pelo calendário eleitoral, forjou-se uma série de frágeis argumentos claramente diversionistas, sem nenhuma base na análise dos fatos e na dinâmica da conjuntura.

– falta de reação popular: embora a resistência dos movimentos sociais ao golpe seja aquém do necessário, está muito além da expectativa, ao se levar em conta os longos 13 anos de cooptação de suas lideranças e amortecimento de sua mobilização. trata-se muito mais de paralisia das lideranças tradicionais do que imobilismo das bases. quanto a isto, um dos mais emblemáticos exemplo vem a ser o próprio Lula. após sua midiática “condução coercitiva” em 04/03/2016, embora tenha anunciado em entrevista coletiva a volta da Jararaca, prometendo a partir de então correr o Brasil, nada aconteceu além do retorno daquele que nunca se foi: Lulinha Paz e Amor;

– poder da Globo: apontar a Globo como quem manda no Brasil, nunca passou de um ardil hipócrita do Lulismo, pois nomear banqueiros, rentistas  e exportadores de commodities como o núcleo da lumpenburguesia brasileira seria também inviabilizar sua principal fonte de recursos de financiamento de campanhas. apesar da narrativa reducionista na qual a luta de classes se converte numa briga contra a Globo, esta sempre recebeu generoso patrocínio público e fartas verbas publicitárias durante os governos Lula e Dilma. sem nunca ter investido na criação e no fortalecimento das mídias alternativas e independentes, com um movimento autônomo sendo capaz de produzir autonomamente seus meios de expressão e comunicação, o Lulismo manteve paralisada esta enorme energia criativa;

– maioria no Congresso: na maior parte de seus governo, Lula e Dilma contaram com maioria no Congresso, sem disto resultar nenhuma conquista estrutural para o conjunto da população. formada a partir acordos fisiológicos de curto-prazo, tais maiorias não poderiam servir de base de apoio para qualquer projeto de país. ainda assim, mesmo quando o “congresso mais corrupto da história” aprovou a auditoria da dívida pública, Dilma se encarregou de vetar. foi também Dilma, ela mesma vítima de bárbara tortura durante a Ditadura Civil-Militar, quem propôs e sancionou a Lei Anti-Terrorismo. a “Democracia Liberal Burguesa” jamais foi além de instituição para cercear e manter sob controle a soberania popular, e nunca autenticamente representá-la. a construção da Democracia Participativa exige canais de exercício direto do poder popular. o que torna uma Democracia forte não são exatamente instituições sólidas e permanentes. e sim a forte e constante presença do Poder Instituinte, inclusive no seu aspecto destituinte. é ao se auto-organizar que a sociedade muda a si própria, através de uma práxis instituinte;

– interdição das críticas: o silenciamento do contraditório tem sido uma prática constante do Lulismo e da Ex-querda, seja sob o slogan de toda e qualquer crítica “fazer o jogo da Direita”, estigmatizando posições contrárias como “a Esquerda que a Direita adora”, ou mesmo do assassinato de caráter dos opositores, por uma infame e sistemática desqualificação pessoal como arma de neutralização do discurso crítico. como nenhum processo político emancipador avança se não tiver como um de propulsores o exercício de uma constante e rigorosa autocrítica, o Lulismo foi se degradando ao ponto de se converter numa espécie de seita política, com um arraigado culto à personalidade de Lula, fazendo deste um messiânico Salvador do Brasil, para com a permissão da Casa Grande ser o único capaz de cuidar do povo das Senzalas;

– união das Esquerdas: qualquer articulação política só se torna viável e produtiva a partir de um programa mínimo e de sua estratégia de aplicação. o Lulismo não propõe acordo com aqueles à sua Esquerda, sempre impôs submissão incondicional. não há nenhum debate sobre pontos mínimos programáticos, nada além de consenso em torno de Lula. mesmo as Caravanas acabam reduzidas a uma pré campanha eleitoral, impedindo de se tornarem um potente motor de mobilização social contra o golpe. submetendo ainda mais uma vez o movimento social autônomo ao calendário eleitoral, para engessá-lo na via institucional. as recente referências a um possível Referendo Revogatório, para anular as medidas do governo usurpador, são vagas e indefinidas e ainda assim condicionadas a uma vitória eleitoral e não como instrumento de luta e forma de organização popular. não será nenhuma “união das Esquerdas” que viabilizará a luta contra o golpe. é na luta concreta contra o golpe que se faz a união das Esquerdas; 

– pesquisas de popularidade e intenção de voto: um dos mais nocivos erros da Esquerda é transferir para institutos de pesquisa uma responsabilidade intrínseca ao próprio movimento: sua capacidade de aferir seu próprio pulso com seus próprios meios. isto só se torna possível quando há organização de base e quando existem canais efetivos de comunicação com a coordenação. este é um dos motivos do Lulismo ter sido apanhado de surpresa por Junho de 2013, como se houvesse sido não mais que imprevisível raio num céu azul, mas suficiente para levar Dilma a despencar de seus píncaros de popularidade até o chão do deserto do real. caso houvesse diálogo com a dinâmica dos fatos, ficaria óbvio como então a crise econômica já corroera a Pax Lulista. segundo o Sistema de Acompanhamento de Greves do DIEESE, se em 2012 haviam ocorrido 877 greves, em 2013 foram 2.050;

– reconstrução do centro democrático: não se pode ter qualquer centro sem ser referenciado à Direita e à Esquerda. mas no espectro político brasileiro, ser de Direita ou de Esquerda tornou-se um tabu. muito embora tenhamos Direitas de todos os tipos, nenhuma delas ousa se assumir como tal, com a exceção de BolsoNazi, este um dos motivos de seu fortalecimento. com uma Esquerda envergonhada em dizer o seu nome, todos querem ser de Centro, por isto o Centro migrou cada vez mais à Direita. não sem motivos, foi como Dilma definiu o fatal ajuste fiscal que acabou por corroer decisivamente sua já estreita base social: “Tivemos que fazer esse ajuste, que não é nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”. numa situação de extrema radicalização, com o grande capital globalizado avançando de modo brutal sobre direitos do trabalho e patrimônio público, sem qualquer margem para a mínima conciliação, a busca por algum caminho do meio está na contra-mão da História;

– crise da representação: sem compreender a raiz de todos os problemas da conjuntura política atual, não se consegue estabelecer qualquer linha de ação adequada para sua superação. muito mais relevante do que o primeiro lugar nas pesquisas pré-eleitorais, é se considerar a grave crise de representação, aprofundada ao ponto  de em 2014 os votos nulos, brancos e abstenções terem sido superiores a votação recebida por Aécio Neves no 1º turno. no Rio de Janeiro, o total de nulos, brancos e abstenções superou a votação de Pezão, candidato do PMDB e apoiado pelo PT. em 2016 o índice de rejeição às urnas se acentua. a soma de votos nulos, brancos e abstenções ultrapassa votação do candidato que ficou em primeiro lugar em nove capitais. mesmo para uma estratégia puramente eleitoral, a disputa prioritária se dá muito mais pelo não-voto que pelo voto propriamente dito. mas para o não-voto ser reconquistado não basta marketing eleitoral, sendo indispensável uma outra relação entre parlamentares e eleitorado;

– única liderança: a trajetória do Lulismo foi também uma constante asfixia de toda e qualquer liderança que pudesse fazer frente a Lula. jamais se investiu na qualificação e desenvolvimento de novas lideranças, resultando uma direção burocrática com o movimento, autoritária com as bases, fechada sobre si mesma e servil ao Grande Líder. como incontestável exemplo se tem as sucessivas direções do PT e da CUT. mas não somente estas. pois o modelo contaminou muitas outras entidades, se disseminando na estrutura administrativa dos diferentes níveis de governo e também pela hierarquia das empresas estatais. ainda assim, a quantidade e qualidade de lideranças proliferando por toda a parte é prova inequívoca de vitalidade dos diversos movimentos, não só de resistência como de construção de alternativas concretas de outras formas de organização social. a superação da crise de representação impõe um outro modelo de liderança, colocado a serviço dos movimentos coletivos, e não fazendo estes movimentos orbitarem ao seu redor. a luta contra o Golpe de 2016 exige o reconhecimento e fortalecimento das lideranças locais e regionais, para deste processo algumas dentre elas se consolidarem no plano nacional. é sempre a luta concreta que faz surgir as lideranças autenticamente comprometidas com o movimento. não são as lideranças que fazem surgir as lutas, mas são elas fator decisivo para que as lutas ganhem força ou feneçam;

que se vayan todas as máscaras. a medida que diminuem os dias a nos separar de um ano longe demais, avança o estado de Alzheimer político, provocando sintomas mórbidos e fenômenos bizarros. caem todas as máscaras apenas para desmascarar rostos sem face. se tudo é farsa, as tragédias não cessam de se repetirem. um teatro sinistro no qual os principais personagens vagam pateticamente, sem haver qualquer autor. a máscara de cada um de nós também precisa se ir. não vai ser nenhum São Lula quem irá nos proteger. ou somos capazes de proteger a nós mesmos e uns protegerem os outros, e nos tornarmos autores e protagonistas coletivos, ou os fascistas vão nos caçar à pauladas em nossas casas. ou entendemos de uma vez por todas estarmos numa guerra. e que estamos perdendo. ou continuamos a esperar um salvador por surgir nas eleições de 2018. e de arbitrariedade em arbitrariedade, chegará aquela manhã em que o bonde da PF invadirá os blogs e a web, para nos conduzir coercitivamente a todos, com transmissão on-line pelo YouTube.

continuamos no rumo de tragédias sem fim, ninguém será poupado. podemos estar certos disto. não restará pedra sobre pedra. só nos resta fazer destas pedras nossas armas e com elas fundar os alicerces de um outro Brasil. seja onde estiver, seja como for: rebele-se!

o anjo da história tem agora seu rosto voltado para a frente. ele gostaria de deter-se para sacudir os vivos, juntar os escombros e enterrar os mortos. mas uma terrível tempestade sopra do inferno, vinda do futuro, e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. essa tormenta o impele irresistivelmente para trás, em direção a um passado imaginário, ao qual ele vira as costas, enquanto as ruínas se amontoam, crescendo até o céu.

.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora