No dia, 25 de março – Maria Auxilidora Lara Barcellos, presente!

Ela foi mais uma vítima da política de extermínio da ditadura militar brasileira.

do Vozes do Silêncio

No dia de hoje, 25 de março – Maria Auxilidora Lara Barcellos, presente!

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA

Em 25 de março de 1945, nascia Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dodôra, na cidade de Antônio Dias/MG. Dodôra sobreviveu às inúmeras sessões de tortura física a que foi submetida, mas não conseguiu superar as feridas que lhe fizeram na alma. Ela foi mais uma vítima da política de extermínio da ditadura militar brasileira.

Primogênita entre quatro irmãos, interessou-se desde cedo por ensinar os filhos das classes mais humildes, atuando como professora com apenas 14 anos na zona rural. Mais tarde, aos 20 anos, fez parte de uma geração de mulheres que marcou a entrada em massa nas universidades. Ingressou na Universidade Federal de Minas Gerais para graduar-se em Medicina, impelida pela crença de que “como médica poderia ajudar mais do que como educadora”.

Durante a graduação, trabalhou na área psiquiátrica e no pronto-socorro do Hospital Galba Veloso. No ano de 1968, marcado por grande efervescência dos movimentos opositores à Ditadura Militar, envolveu-se com as atividades do movimento estudantil. Após o AI-5, assim como outros estudantes impedidos de atuar em organizações universitárias, integrou a luta armada. Tornou-se militante do Comando de Libertação Nacional (Colina). Posteriormente, aderiu à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e passou a viver na clandestinidade com o companheiro de militância e namorado, Antônio Roberto Espinosa. Mais tarde abrigaram em sua casa o também integrante da VPR, Chael Charles Schreier. Não sabiam que já estavam sendo vigiados.

No dia 21 de novembro de 1969, ouviram de dentro de casa o anúncio de que deveriam se entregar pois estavam cercados. Tentaram resistir à prisão, mas um dos agentes jogou uma bomba de gás pela janela do aparelho, obrigando-os a sair da casa.

Os três foram levados para o quartel da Polícia do Exército, na Vila Militar, onde foram torturados juntos e em separado. Chael foi o que mais apanhou. Como relatou Dodôra, ele era chutado como se fosse um cachorro. Permaneceu 20 horas sob intensa tortura e veio a falecer. No procedimento da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), consta em um dos documentos que não havia um só lugar no corpo de Chael que não tenha sido maculado: “é uma sequência de hematomas, escoriações, equimoses, sem falar nas fraturas em quase todas as costelas, do lado direito e esquerdo”.

Dodôra, por sua vez, além das torturas físicas foi submetida a toda espécie de sevícias e humilhações de cunho sexual, responsáveis por um intenso trauma que a perseguiu por toda a vida. Ela era a única mulher presente na Vila Militar e, entre as sessões de tortura, ficava exposta nua, presa numa jaula para a contemplação lasciva dos agentes a quem o Estado deu o poder de falarem em seu nome.

Neste ínterim, a família Barcellos soube da prisão de Dodôra e da morte de Chael através de uma notícia da revista Veja. Sua mãe, Dona Clélia, foi imediatamente para o Rio de Janeiro/RJ. mas não pôde ver a filha. Disseram que ela estava presa em lugar não sabido e incomunicável. Durante esse período a família acionou diversos órgãos, mas as informações sobre seu paradeiro eram constantemente negadas.

Além do cárcere na Vila Militar, a militante era levada de um local para outro para ser exibida e interrogada, tendo passado pela Polícia do Exército, pelo Campo de Instruções do Exército, pela Penitenciária de Mulheres de Belo Horizonte e também pelo DOPS onde ficou em uma cela com outros dois companheiros de militância, sendo que os seus algozes ainda tentaram obrigá-la a ter relações sexuais com eles.

A mãe de Dodôra relatou à CEMDP que estes foram os dias mais terríveis de sua vida”. A respeito desses dias, Dodôra escreveu mais tarde: “Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos. […] Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, um grito no escuro. […] Eu era criança e idealista. Hoje sou adulta e materialista, mas continuo sonhando. Dentro da minha represa. E não tem lei nesse mundo que vá impedir o boi de voar.”

Maria Auxiliadora ficou presa durante cerca de dois anos e depois foi banida pelo Decreto no 68.050, em janeiro de 1971, no episódio do sequestro do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher. Espinosa, seu companheiro, ficou no Brasil e seguiu preso até 1979. Eles nunca mais se encontraram.

Banida do Brasil, Dodôra foi para o Chile. Quando aquele país também foi tomado por um golpe militar, em 1973, ela buscou asilo junto à embaixada do México e permaneceu 06 (seis) meses trabalhando como intérprete naquele país. Após esse período, mudou-se para a Europa com a ajuda da Cruz Vermelha. Desembarcou na Bélgica, passou pela França e, finalmente, estabeleceu-se na Alemanha.

Após passar pela cidade de Colônia, onde chegou em 10 de fevereiro de 1974, seguiu para Berlim Ocidental. Por meio de uma bolsa oferecida pelo governo alemão, voltou a dedicar-se ao curso de Medicina e estabeleceu um novo e estável relacionamento amoroso. Sempre que podia participava de documentários e livros que denunciavam a tortura no Brasil.

Sua vida parecia estar o retomando o seu curso, mas Maria Auxiliadora ainda estava consumida pelos traumas e pesadelos constantes. Fez tratamento psiquiátrico, mas não recuperou a paz. Passou a ter crises de amnésia. Apesar das terríveis lembranças, afligia-a tanto o fato de estar longe de seu país, que chegou a solicitar, na Embaixada brasileira na Alemanha, autorização para regressar ao Brasil. Jamais obteve uma resposta oficial.

Aos 30 anos, no dia 1º de junho de 1976, ela se suicidou atirando-se em frente a um trem no metrô de Berlim Ocidental. O governo alemão cobriu os gastos do traslado do corpo para o Brasil, que foi cremado para ser enterrado na cidade de Belo Horizonte /MG.

Pouco tempo depois de sua morte, seus companheiros de exílio alemão fizeram um filme em sua homenagem, När stunden är inne (Dora: quando chegar o momento), de 1978, produzido por Luiz Alberto Barreto Leite Sanz, Reinaldo Guarany (seu companheiro) e Lars Säfström. Maria Auxiliadora ganhou homenagens no Brasil: em Belo Horizonte, dá nome a uma rua no bairro Salgado Filho; em São Paulo, nomeia um Centro de Saúde Sexual e Reprodutiva, conhecido como Casa Ser Dorinha.

Dodôra e sua figura, mostrada em documentários como o Brazil: a Report on Torture (1973) ou Setenta (2013), tornou-se um símbolo feminino de coragem e altivez, que expõe de forma chocante a barbárie e a selvageria dos machos covardes que se revelam em tempos de arbitrariedade e de garantia de impunidade.

– Maria Auxilidora Lara Barcellos, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.845 a 1.851.

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1 comentário

  1. A história de Dodora, assim como a de Etiene e de tantas outras, nunca vai deixar de me emocionar. Pessoas que, como dizia Guimarães Rosa, ficarão encantadas pra sempre em nossas memórias. Dodora presente!

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