Delegado da PF acusa Lava Jato de tentar destruir provas em inquérito

Defesa de agente que virou alvo da Lava Jato em Curitiba mostra mensagens que sugerem tentativa de obstrução no depoimento da doleira Nelma Kodama

Foto: Agência Brasil

Jornal GGN – Em 2015, o delegado da Polícia Federal Mário Renato Castanheira Fanton era o responsável por conduzir um inquérito que tinha como objetivo apurar um suposto conluio entre delegados da Polícia Federal do Paraná e advogados para produzir um dossiê contrário à Lava Jato.

A denúncia foi levantada pela Lava Jato em Curitiba mas, a pedido da própria força-tarefa, foi engavetada na Justiça em 2017. “Os procuradores atipicamente requerem o arquivamento do inquérito policial, antes mesmo da realização de diligências básicas e da confecção do relatório final”, questionou na época o delegado Márcio Magno Carvalho Xavier, em manifestação à Justiça Federal.

Em agosto deste ano, os procuradores da Lava Jato denunciaram os policiais federais que dirigiram o inquérito para apurar o suposto conluio de agentes da PF contra a operação. Segundo os procuradores da força-tarefa, os delegados que comandaram o caso, teriam violado sigilo funcional e vazaram informações confidenciais desse inquérito, entre os denunciados está o delegado Fanton.

Nesta segunda-feira (30), o jornal Folha de S.Paulo publicou uma matéria com base nos documentos entregues pela defesa de Fanton à Justiça sugerindo a tentativa de destruição de provas da Lava Lato por colegas da PF que atuaram na operação e são ligados aos procuradores da força-tarefa.

“São anexadas capturas de tela de WhatsApp que a defesa diz ser de um conflito a respeito do assunto que ocorreu em 2015 entre Fanton e outro delegado, Maurício Moscardi Grillo”, escreve José Marques que assina a reportagem da Folha.

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“Nas mensagens atribuídas a Moscardi, ele pede a Fanton que um depoimento da doleira Nelma Kodama não seja anexado em um inquérito que investigava policiais desafetos da operação. ​Moscardi também teria solicitado que esse depoimento fosse refeito com “pitacos” dele. As mensagens, diz a defesa, foram submetidas à perícia”, completa o jornalista.

Segundo a reportagem, os documentos estão na manifestação preliminar, protocolada pela defesa de Fanton na 14º Vara Federal de Curitiba, em setembro deste ano, contra a acusação que sofre de desvio de função por vazamento de dados.

Fanton e outros Policiais Federais, que se tornaram desafetos da operação Lava Jato, afirmam que a perseguição contra eles começou exatamente depois que eles revelaram uma escuta ilegal instalada na cela do doleiro Alberto Youssef, em 2014.

Além de Fanton, são alvos da força-tarefa o agente Dalmey Fernando Werlang e Fernando Augusto Vicentini, ex-presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Paraná, que teria recebido o material vazado.

Os documentos enviados pela defesa de Fanton recentemente à Justiça, mostram ainda que o delegado alertou o procurador Januário Paludo, membro da força-tarefa do Ministério Público Federal, sobre as suspeitas de irregularidades cometidas por colegas da PF da Lava Jato. A reportagem da Folha diz que uma captura de tela de conversa com Paludo sobre o alerta foi anexado no processo.

O advogado de Fanton, José Augusto Marcondes de Moura Jr., disse que irá contatar a OAB para acompanhar o caso relativo ao seu cliente.

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Na época da conversa com Moscardi, Fanton escreveu um documento chamado “despacho” onde relatava suposta tentativa de coação contra ele e outros colegas para editar os depoimentos.

“[Eles queriam] que o termo de depoimento que integrava o reconhecimento fotográfico fosse destruído e outro do interesse pessoal de mencionados delegados fosse feito”, diz a defesa de Fanton.

“Vale ressaltar que nunca foi praxe na Polícia Federal a destruição de diligências que não ficassem de acordo com a vontade pessoal de servidores, pois em casos como estes o correto é refazer a diligência mantendo-se a anterior e apontar as incongruências em confrontação com a posterior”, acrescenta.

O inquérito a respeito de “veiculação na imprensa de material depreciativo a policiais federais responsáveis pela Operação Lava Jato” e “confecção de um dossiê com o objetivo de atribuir a prática de ilícitos penais a determinados membros da Polícia Federal”, aberto pela Lava Jato, e onde Fanton era o delegado responsável, foi arquivado em 2017, a pedido da própria força-tarefa.

A reportagem da Folha mostra também que, nas conversas anexadas pelos advogados de Fanton no processo, o delegado Maurício Moscardi Grillo disse para ele não juntar o depoimento que tomou da doleira Nelma Kodama porque teria desagradado o delegado Igor Romário de Paula.

“Ideia era fazermos outro termo (de depoimento) já comigo junto”, diz mensagem atribuída a Moscardi.

“Ele (Igor) falou que iria prejudicar o avanço e eu também acho. Daí tive a ideia de fazermos outro comigo junto para confrontá-la (Nelma).” Igor, atualmente, é diretor da Polícia Federal em Brasília, promovido ao cargo após o ex-juiz Sergio Moro se tornar ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Jair Bolsonaro.

*Clique aqui para ler a reportagem da Folha na íntegra. 

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