Golpe militar é possível? Sim, mas nada na história aconselha improvisações

Num país como o Brasil, um exército sob o controle absoluto não garante que os demais exércitos não conspirarão contra ele. O poder é algo que sobe a cabeça de muitos, tanto os que estão no poder como os que pretendem o poder

Foto: Agência Brasil

Por Rogério Maestri

Já fiz um artigo que se denomina “Aviso aos navegantes: Golpe militar não se improvisa!”, porém não detalhei muito o que ocorre com improvisações deste tipo e vou procurar detalhar quais os problemas nas improvisações golpistas quando envolvem as forças armadas.

Primeiro problema: Como ocorre em todos os golpes militares de improviso, algo que ocorria desde a história da humanidade e é bem detalhado na história Romana, é que quando as poderosas legiões romanas eram utilizadas por seus generais, assim como a guarda pretoriana, muitas vezes golpes se sucediam em questão de semanas, sendo que a medida que estes golpes ocorriam as cabeças dos generais rolavam literalmente. Ou seja, não podemos esquecer que os generais comandam as tropas, mas no momento que se faz um golpe, para que este se consolide necessariamente a lealdade das tropas mais poderosas tem que ser garantidas completamente, porém esta lealdade não é baseada em simples apertos de mãos e palavras do tipo “contem comigo”.

Por que este é o grande e o principal problema que preocupa qualquer golpista militar, pois quem ascende ao comando do país, via um golpe militar a tendência deste e mais os seus associados se perpetuarem no poder é muito grande, e num país como o Brasil, onde um exército sob o controle absoluto não garante que os demais exércitos não conspirarão contra ele. O poder é algo que sobe a cabeça de muitos, tanto os que estão no poder como os que pretendem o poder.

Em resumo, um golpe militar mal dado, pode simplesmente a levar a confrontos de tropas entre si.

Segundo problema: As forças armadas são compostas de Exército, Marinha e Aeronáutica. Quando o General Costa e Silva ficou doente assumiu um triunvirato composto dos ministros das três armas. Os ministros da marinha Augusto Rademaker, da aeronáutica Aurélio de Lyra Tavares, e do exército Márcio de Souza e Mello. Esta junta governou de 26 de agosto de 1969 até 14 de outubro do mesmo ano, ou seja, demorou dois meses para que fosse escolhido o futuro presidente que ocuparia o cargo, é importante destacar que este período na realidade o golpe começara antes do general presidente ter ficado doente (ou mesmo foi tornado doente), o AI-5, editado em 13 de Dezembro de 1968 e segundo relatos da época o General Presidente tentava anulá-lo e a junta composta pelos ministros das três armas achavam e impuseram a continuidade do ato para depois aprofundá-lo ainda mais.

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Porém naquela época estava em vigência o chamado AI-5 em que havia censura de imprensa rigorosa e mais outros atos que o pessoal esquece, como os AI-13 até o AI-17. Atos tão ou mais pesados que o AI-5 pois por exemplo o AI-13–que instituía o banimento de pessoas consideradas ameaças à segurança nacional pelo regime militar; o AI-14 – que instituía a pena de morte para atos considerados terroristas e finalmente o mais enigmático de todos que foi o AI-17 que foi feito para afastar os militares que comprometessem a coesão das forças armadas.

Conforme se vê, para que o novo golpe sobre o golpe que foi criado com a morte do General Presidente Costa e Silva (ou talvez tenha o levado a morte) e mesmo com a conspiração em andamento foram necessários dois meses, sem ações da sociedade civil e com o congresso fechados e partidos controlados.

Resumindo, para dar um golpe militar é necessária uma coesão voluntária ou forçada tanto de parte das forças armadas como do povo em geral.

Terceiro problema: Na época do golpe sobre o golpe em 1968-69, que seria o equivalente a um golpe na situação dos dias de hoje, as formas de comunicação eram rádios, TVs e Jornais. Todos estes meios de comunicação estavam totalmente censurados, com isto a sociedade e elementos das forças armadas contra o golpe ficavam isolados, atualmente este tipo de censura é inócuo, seria necessário cortar todas as redes de telefonia e de internet para cortar a comunicação dos opositores a um movimento golpista de fechamento, ou seja, a economia entraria em crise completa, derrubando rapidamente o governo, pois os malefícios seriam inimagináveis. Não esqueçam que países que tem censura nas redes de Internet, tem censura parcial e implantaram isto enquanto as redes de comunicação estavam no seu início.

Em 1968 o povo em geral, mesmo os mais bem informados, não tinham a mínima notícia de nada, todo e qualquer movimento contra o governo era isolado da população e essa não os apoiava não porque não quisessem, mas sim porque não sabiam.

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Resumindo, com o atual estágio da comunicação num país como o Brasil, é extremamente difícil impedir que a oposição ao regime se comunique e trame contra este.

Quarto problema: Em 1968-69 quando os militares dão o golpe sobre o golpe, havia já um sistema repressivo instalado que foi utilizado para pretensamente combater os “terroristas” que produziam atentados, sendo que grande parte destes eram cometidos pelas próprias forças de segurança como operações “false flag”, que hoje seriam desmentidas pelo esquema de comunicação moderna, que é impossível de bloquear. Com o pretexto da luta “contra o terror” e com a manipulação de toda a imprensa, criou-se numa parte significativa das camadas médias da sociedade, um apoio a esta luta, ou seja, utilizando estas capas médias conseguiam algum apoio.

Nos dias de hoje não há os temores dos vermelhos comunistas da União Soviética, coisa que era um instrumento de propaganda, nem ninguém em sã consciência vai achar que Cuba vai invadir o Brasil com seus guerrilheiros que nem existem mais.

Quinto problema: Para se golpear num país periférico como o Brasil há duas opções de situação internacional, ou a dependência da aprovação do Imperialismo Internacional, com apoio explícito do governo Norte-americano, ou golpear sem apoio do governo Norte-americano e devido as dimensões do Brasil o próprio irmão do norte vai financiar e ajudar a insurgência contra a ditadura.

Para se entender melhor é necessário desdobrar as duas opções. Um golpe militar no Brasil, com apoio do governo Norte-americano, é extremamente delicado, pois Donald Trump não está completamente seguro no seu país, e exatamente uma crise imensa na América do Sul poderá roubar poucos votos, mas necessários para sua reeleição. Logo da parte dos trumpistas se pode esperar pouco, e como os democratas estão tendendo a esquerda, muito menos ainda. Em outras situações teríamos a possibilidade de um apoio tipo Irã-Contras, mas na situação atual seria ainda mais arriscado para o governo Trump.

A outra situação seria um golpe militar sem o consentimento do governo norte-americano, mas esta seria a pior situação para os nossos grandes irmãos do norte, pois conforme se desenrolar este governo, se o mesmo tiver alguma deriva nacionalista, num país com um grau de industrialização como o Brasil, seria simplesmente a possibilidade de um desenvolvimento autóctone no país, que acharia rapidamente aliados para se desenvolver.

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Outra possibilidade seria a neutralidade norte-americana, porém na situação mundial atual os norte-americanos não ficam neutros em nenhuma condição.

Conclusão: O apoio internacional seria uma difícil costura, se não impossível.

Pode ou não pode haver golpe militar no Brasil?

Claro que pode, mas o certo é que ele seria um desastre para as forças armadas brasileiras, comprometendo até a existência da corporação.

Há outros problemas?

O problema econômico e outros bem mais graves para os golpistas, dos que detalhei anteriormente, existem, mas deixarei como uma surpresa para eles descobrirem se tentarem.

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2 comentários

  1. Há vários complicadores no lado militar que os generais mais sábios e que tem a mínima noção de história do Brasil, percebem que o caminho é bem mais longo do que uma improvisação que gera um golpe militar sem um planejamento de no mínimo um ano, vou colocar um deles que não detalhei no artigo:
    As Milícias:
    Em todos os golpes fascistas da história as milícias serviram somente para dar condições do fascismo assumir o poder, depois disto elas são incorporadas nas forças armadas (como na Itália) ou tem toda a sua cúpula assassinada (noite das longas facas) e a parte que resta é colocada sobre o julgo do exército, ou de outra organização mais vinculada as forças armadas (SS) como foi o fim da SA alemã.
    Isto não é por um acaso, é dentro da mais tradicional doutrina militar, não é possível levar o comando de um golpe militar com qualquer organização armada e poderosa agindo de forma independente.
    No Brasil, além das milícias, temos as polícias militares que são em grande parte que suprem as milícias de quadros. Certamente os fuzis achados na casa de um amigo de um miliciano, colocou em alerta todos os militares da ativa que PENSAM, pois assim como acharam um dos depósitos de fuzis provavelmente há outros depósitos de fuzis e armas antitanque como as PTRS-41 de 14,5 mm e mísseis terra-ar portáteis como os mísseis Stinger para derrubar helicópteros e aviões voando a baixa altitude. Se alguém duvida desta última hipótese é só recordar o evento já em 2002 quando Fernandinho Beiramar tentava comprar estes mísseis. Na época custava cada um 41 mil dólares, mas como se vulgarizou, provavelmente o preço deve ter baixado e qualquer milícia que se prese terá alguns deles.

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