Greenwald diz que Moro “finge amnésia” sobre mensagens reveladas pelo Intercept

"Ele pediu desculpas quando chamou os membros do MBL [Movimento Brasil Livre] de tontos, aí ele lembrou", completa jornalista

Glenn Greenwald participa de audiência no Senado. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Jornal GGN – Durante audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, o diretor do site The Intercept Brasil, Glenn Greenwald, voltou a defender a divulgação do material que recebeu de uma fonte anônima mostrando conversas entre o ex-juiz e atual ministro Sergio Moro e procuradores da Lava Jato.

Como esperado, o jornalista foi questionado sobre a veracidade da documentação e sua resposta foi que, além de ter sido avaliado por equipes de jornalismo de outros meios de comunicação – Folha de S.Paulo e Veja – até agora, tanto Moro como Deltan Dallagnol e outros procuradores, não negou o conteúdo dos diálogos.

“Sergio Moro nunca alegou que alguma coisa específica que reportamos era falso. Se esse material não fosse autêntico, porque Moro e Deltan não negaram isso? Se alguém publica algo sobre mim adulterado, falsificado, a primeira coisa que eu faria seria mostrar meu telefone, meu e-mail”, pontuou.

O jornalista afirmou que Moro “finge que tem amnésia”, uma vez que ninguém se esqueceria com facilidade de diálogos importantes que teve sobre figuras de destaque nacional, como Fernando Henrique Cardoso.

Em um dos diálogos divulgados pelo jornal, Moro orientou o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol a não investigar o ex-presidente para ‘não melindrar’ alguém que ele considerava importante. Greenwald destacou ainda que o ex-juiz trocou mensagens com os procuradores na sequência de operações.

“Sergio Moro está fingindo que tem amnésia. […]. Eu acho que ninguém acredita em Moro quando ele diz que não lembra nada, nem uma palavra. Ele pediu desculpas quando chamou os membros do MBL [Movimento Brasil Livre] de tontos, aí ele lembrou. Quando tem benefício para ele, ele lembra e se desculpa”, pontuou.

Um parlamentar que compõe a base de apoio ao governo Bolsonaro, o senador Marcos do Val (Cidadania-ES), pediu para Glenn entregar o material à perícia da Polícia Federal ou para instituições americanas. O jornalista teve que explicar que essa não é a função de um comunicador em democracias.

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“Jornalistas na democracia não entregam material jornalístico para a polícia, para o governo ou para os tribunais, para ter permissão para publicar. Antes publicamos. Temos peritos na nossa equipe. Tenho reputação. Não publicaria material sem verificar”, ensinou.

Greenwald também foi questionado se pagou à fonte anônima para receber o material. Ele disse que não, que apenas recebeu todo o conteúdo que ainda está sendo analisado. Ele completou que, em volume, o material supera ao que recebeu do escândalo sobre o esquema de espionagem em massa dos EUA, com base em vazamentos feitos pelo ex-agente da NSA, Edward Snowden. Por conta dessa série de reportagem, Glenn foi vencedor do prêmio Pulitzer em 2013.

“Estamos usando esse processo jornalístico para publicar esse material com muita responsabilidade. Nunca vamos discutir material até estar pronto para publicar. O que posso dizer é que tem muito mais material de interesse público”, prosseguiu.

Entenda

O portal The Intercept Brasil divulga desde o dia 9 de junho uma série de reportagens – algumas delas em parceria com outros jornais como Veja e Folha de S.Paulo – mostrando que enquanto juiz, Moro atuou colaborando com o trabalho dos procuradores da Lava Jato, especialmente Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa, combinando, até mesmo estratégias de comunicação.

O princípio da imparcialidade do juiz é uma exigência do Código de Ética Da Magistratura, que no capítulo III, artigos 8º e 9º, destaca:

“O magistrado imparcial é aquele que busca nas provas a verdade dos fatos, com objetividade e fundamento, mantendo ao longo de todo o processo uma distância equivalente das partes, e evita todo o tipo de comportamento que possa refletir favoritismo, predisposição ou preconceito”. E, ainda que “ao magistrado, no desempenho de sua atividade, cumpre dispensar às partes igualdade de tratamento, vedada qualquer espécie de injustificada discriminação.”

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Glenn Greenwald é vencedor do prêmio Pulitzer de 2013, por ter revelado o esquema de espionagem em massa dos EUA com base em vazamentos feitos por Edward Snowden. O Pulitzer é o maior prêmio que um jornalista pode receber no mundo.

*Com informações da matéria de Rodrigo Baptista da Agência Senado

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