O que Erich Kahler e Jorge Luis Borges tem a ensinar sobre a era dos memes?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A aceleração da história com a publicação de jornais diários e, depois, com a divulgação de mensagens faladas e filmadas, colocou e espetáculo no centro da vida política e jurídica

A cena do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, protagonizada por Gene Wilder, usada como meme

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Num Twitter publicado hoje, o jurista Lenio Streck fez um desabafo interessante. Disse ele:

“Não se lê mais nem textos. Livros, então?! Incrível isso. Sintomático. De nosso fracasso.”
https://twitter.com/LenioStreck/status/1178292955091746816?s=19

O Twitter recebeu diversas respostas. A minha não cabe no espaço de algumas dezenas se caracteres.

No capítulo 12 de seu livro “Que es la historia?”, Erich Kahler trata do processo de construção do mundo intelectual secular em que nós vivíamos até o advento da internet. Refletindo sobre as peculiaridades da psique humana antes e depois do renascimento ele diz o seguinte:

“En la Antigüedad los grandes conquistadores y gobiernantes deseaban estar relacionados con lo divino, ya fuera por parentesco o por identificación con un dios o héroe mítico, o por deificacion personal. Alejandro se hacía descendiente de Aquiles y de Júpiter Amón; Pompeyo, en su triunfo, llevó un manto que se suponía había sido de Alejandro, e inscribió sus hazañas en un templo construido a Minerva con su botín; Augusto quería ser un segundo Rómulo, como Diocleciano un segundo Augusto. Hombres eminentes miraban hacia atrás para la conmemoración de sus nombres. Ahora bien, con el Renacimiento incipiente nació un nuevo modo de mirar: mirar hacia adelante. Los hombres quisieron aparecer, y ser recordados, con su propio nombre, con su individualidad, quisieron convertirse en inmortales en su capacidad como mortales.” (Que es la historia?, Erich Kahler, Fondo de Cultura Económica, México, 1966, p. 124/125)

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Não há dúvida de que o nascimento das comunicações de massa reforçaram esse desejo dos poderosos de aparecer e ser lembrados. A aceleração da história com a publicação dos jornais diários e, depois, com a divulgação de mensagens faladas (radio) e filmadas (cinema e TV), colocou e espetáculo no centro da vida política e jurídica. E também colocou a necessidade de agir de maneira teatral na psique dos governantes.

Napoleão Bonaparte tinha um jornal para transformar até mesmo suas retiradas em vitórias. Franklin Delano Roosevelt entrou nos corações e mentes dos norte-americanos usando o rádio. O ator Ronald Reagan se tornou um presidente exemplar da era televisiva, pois sabia explorar como nenhum outro político o potencial de suas expressões faciais. Barack Obama e Donald Trump chegaram ao poder utilizando a internet.

Todos eles entraram para a história, mas nenhum conseguiu transformar o espetáculo num regime permanente. Após sua derradeira derrota, o império napoleônico deixou de existir e os feitos do imperador começaram a ser questionados. Roosevelt venceu o III Reich, mas aprisionou os EUA numa economia militarizada que se tornou mais e mais parecida com a nazista. O legado histórico de Reagan l foi um desastre permanente: o neoliberalismo destruiu a classe média norte-americana. Tudo que Obama fez está sendo desfeito por Trump. E o próprio Trump pode cair antes do fim do mandato por causa da fragilidade de seu poder político construído com memes.

Napoleão era leitor de Júlio César e de Maquiavel e tinha uma biblioteca com livros pequeninos que o acompanhavam durante suas campanhas militares. FDR recebeu formação universitária e foi capaz de desafiar o poder dos Bancos americanos construindo uma base política sólida. O talento artístico de Reagan morreu com ele. Obama usava a internet, mas não acreditava que ela poderia ser a única fonte de seu poder. Trump causou muito prejuízo a si mesmo postando Twitters embriagado.

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E assim chegamos ao Brasil, país que desde a II Guerra Mundial se tornou mais e mais dependente das dinâmicas sociais e históricas construídas pelas inovações tecnológicas norte-americanas. Getúlio Vargas usou o rádio e o cinema para criar e fortalecer uma classe média urbana para modernizar o Brasil limitando o poder dos produtores rurais. Lula se uniu aos ruralistas para, usando a TV, reforçar a importância econômica da classe média urbana e rural.

A internet, a TV e o Sistema de Justiça foram usados para destruir Dilma Rousseff. O mito Jair Bolsonaro cresceu politicamente durante o ataque sistemático à racionalidade do Direito Constitucional. Ele não precisou ler um só livro, nem tampouco pretende incentivar a educação. Muito pelo contrário, tudo que ele tem feito até agora é destruir a cultura, a educação e as Universidades Públicas.

A era dos memes está apenas começando. Ninguém mais quer se ligar ao passado (como na Antiguidade) ou projetar sua existência no futuro (como ocorria desde o Renascimento). Trump e seu clone brasileiro somente podem existir como fenômenos transitórios e paradoxalmente permanentes. Eles são memes que se espalham e reforçam emoções primitivas (o amor pelas armas de fogo, o ódio por negros e índios, o desprezo pelos pobres, o desdém pelo conhecimento profundo, o descaso por reflexões profundas oriundas de leituras demoradas…). Não sabemos quanto tempo a era dos memes irá durar, nem tampouco o que virá depois dela.

Num de seus contos, Jorge Luis Borges imaginou uma sociedade de primatas grotescos sucedendo à civilização ocidental. A história finalmente pode imitar a arte.